Pelo pedágio para carro particular

São Paulo é uma cidade muito bem equipada em termos de vias públicas. Ao longo das últimas décadas, construiu-se um sistema viário invejável que atinge quase 20 mil km de ruas, viadutos e túneis asfaltados. Mas, mesmo com todo esse aparato, a cidade ostenta taxas de congestionamento de trânsito que estão entre as maiores do mundo. Isso ocorre porque quem se beneficia desse sistema viário é o carro particular, apenas. E a área ocupada pela frota de carros particulares na cidade, em termos de metros quadrados, é mais de 10 vezes superior à área ocupada pelos ônibus - apesar de 2/3 dos paulistanos irem ao trabalho de ônibus e apenas 1/3 utilizar seu próprio carro.

Paulo Feldmann*, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2014 | 02h08

Se os carros se beneficiam bem mais das vias públicas construídas na cidade, por que não fazer com que seus proprietários paguem por esse benefício?

Essa indagação foi feita há mais de dez anos na capital inglesa e resultou na implantação do pedágio urbano. Londres, hoje, é reconhecida como a cidade que adotou as soluções mais efetivas para reduzir seus enormes congestionamentos. Agora, toda vez que um cidadão londrino entra na região central da cidade paga o equivalente a R$ 40.

Um quarto dos paulistanos leva de uma a duas horas para chegar ao trabalho, causando enorme perda da capacidade de trabalho do cidadão. Estudos econômicos estimam que o prejuízo para a cidade em 2012 foi de mais de R$ 40 bilhões. Aí entram o custo de oportunidade - ou seja, muitos paulistanos deixam de produzir atividades e bens que poderiam ter sido realizados nesse tempo perdido no trânsito - e também entram os gastos adicionais com combustível e as despesas com a saúde geradas pela poluição decorrente do trânsito. Em suma, a cidade perde o equivalente a 10% do seu PIB.

Circulam pela cidade de São Paulo cerca de 6 milhões de veículos, o que leva a uma taxa de motorização de mais de 540 carros para cada mil habitantes. Apenas cinco cidades no mundo têm taxas tão altas, mas nestas outras o uso do automóvel se expandiu concomitantemente com o avanço do transporte público. Infelizmente, não foi o caso na maior cidade do Brasil, e a carência de transporte público bom e barato foi o estopim das passeatas e movimentos que eclodiram pelo País afora em junho do ano passado.

Sim, a adoção do pedágio individual para carros particulares vai exigir sacrifícios dos proprietários de automóveis. Mas só na fase inicial da sua implantação, pois muitas pessoas deixarão de usar seu veículo e passarão a usar o transporte público, superlotando-o. A ideia central é que os recursos provenientes do pedágio sejam totalmente canalizados para a melhoria do transporte público, de tal forma que a qualidade deste possa melhorar gradativamente, justamente pela chegada desse recurso financeiro adicional.

Supondo que em média cada carro gaste R$ 20 (metade do preço de Londres) por semana com pedágio, será possível arrecadar R$ 1 mil/ano por automóvel, o que dará à Prefeitura cerca de R$ 6 bilhões/ano - suficientes para ela, por exemplo, adquirir 15 mil ônibus e pôr à disposição das empresas de transporte. A entrada desses novos coletivos em circulação vai resolver um grande problema dos usuários do transporte público: a falta de ônibus.

Com o pedágio, deve aumentar a velocidade de circulação dos ônibus graças ao menor número de automóveis. Com isso os ônibus farão mais viagens por dia, o que permitirá que as empresas de ônibus consigam maior rentabilidade, que também poderia ser repassada para a população por meio de maior redução na tarifa.

Neste momento em que tantas ideias vêm sendo discutidas para melhorar a mobilidade do paulistano, é vital pôr o pedágio individual nessa pauta. Afinal, por que privilegiar o carro particular, que em geral transporta apenas seu motorista e ocupa espaço equivalente a meio ônibus, que transporta mais de 60 pessoas?

*Paulo Feldmann é membro do 'Conselho da Cidade' (Prefeitura de São Paulo), professor da FEA-USP e presidente do Conselho da Pequena Empresa da Fecomércio.

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