Amanda Perobelli/Estadão - 4/12/2017
Segundo Abilio Diniz, a O3 Capital não tem meta de captação. Amanda Perobelli/Estadão - 4/12/2017

Península abre gestora para público em geral 'investir com Abilio Diniz'

Gestora foi batizada de O3 Capital e exigirá aporte mínimo de R$ 1 mil; fundo já está disponível em casas como BTG, Warren, Banco Inter e Modalmais

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 12h49
Atualizado 06 de maio de 2021 | 17h05

A empresa de investimentos da família de Abilio Diniz, a Península Participações, montou uma nova gestora de investimentos, batizada de O3 Capital, que será aberta para receber recursos de terceiros. Até aqui todos os investimentos da Península eram privados, apenas com recursos da família Diniz. “Iremos competir com outras gestoras, sim”, disse Abílio a um grupo de jornalistas, nesta quinta-feira, 6. O lançamento ocorre em um momento em que o juro baixo no Brasil tem incentivado mais brasileiros ao mundo de investimentos.

Na prática, a O3 já existe há sete anos e com todas as licenças, explicou o vice-presidente do conselho de Administração da Península, Eduardo Rossi. “É uma gestora com certa história. Está no forno essa ideia há muito tempo. Estamos abrindo para captação de terceiros, para o público em geral investir junto com o Abílio Diniz”, diz Rossi. Segundo ele, o desempenho do fundo tem sido “fora da curva”. A performance até aqui não foi divulgada.

De acordo com Abilio, não há, contudo, uma meta de captação. De saída, a gestora terá investimentos de R$ 1,5 bilhão da Península. As alocações têm olhar global, segundo Daniel Mathias, gestor do fundo. Hoje, o fundo está bem posicionado no Estados Unidos, país que, segundo ele, está com o pé no acelerador, com a vacinação contra a covid-19 já bastante adiantada. 

Desse dinheiro aportado pela Península, há uma restrição de retirada, o chamado “lock-up”, de três anos. Além da Península, há um investimento de R$ 250 milhões de “pessoas próximas”. O fundo já está disponível em casas como BTG Pactual, Warren, Modalmais e Banco Inter.

Público em geral x ‘qualificado’

A gestora terá dois fundos, um focado em investidor em geral e outro para o qualificado. Para o investidor de varejo, o investimento mínimo é de R$ 1 mil, com uma taxa de administração de 2% e taxa de perfomance de 20%. “Queremos democratizar o fundo”, afirmou o diretor de Relações com Investidores da Península, Paulo Castilho.  Essa cobrança dos fundos multimercados foi por muito tempo um padrão, mas a taxa de juros baixa tem pressionado para que gestoras começassem a reduzir suas taxas. Questionado sobre o assunto, Castilho comenta que a O3 não quis, nesse momento, mexer nessa taxa utilizada pelo mercado.

Por ora, a O3 terá inicialmente apenas um fundo, um multimercado, que poderá investir em ações Brasil e exterior, dívida, câmbio e juros, por exemplo. Com o tempo outros produtos poderão ser agregados.  Já estão nos planos, por exemplo, a abertura para captação de um fundo de private equity, que é aquele que investe em participação de empresas e que aguarda as aprovações regulatórias.

O time nasce com uma equipe de 18 pessoas, nomes conhecidos da Península. "Temos um time de muita qualidade na Península que vem administrando os recursos da família há muito tempo", afirma Abilio. A independência para os investimentos, segundo o empresário, será completa, que admitiu não conhecer tão profundamente o mercado financeiro, mas que conhece bem a economia real. "Daremos mais espaço para que eles gerenciem mais recursos e possam competir com outras gestoras de mercado", conta o empresário.

"Abílio Diniz está entre as pessoas mais ricas do Brasil e é uma pessoa de negócio muito bem sucedida. O lançamento de uma gestora e declarações do tipo "investir junto com o Abílio Diniz" certamente podem ter muito apelo no nosso mercado de investimentos", comenta o professor da Escola de Economia da FGV-SP, Henrique Castro. O professor diz ainda que a O3 não fez "nada muito revolucionário quanto às taxas", que estão em linha com outros fundos do mercado.  Castro diz que o investidor interessado em investir deve checar se seu perfil se encaixa no perfil do fundo.  "Outro fator sempre importante é o histórico dos gestores. Nessa parte, a gestora está vendendo a imagem de bem-sucedido que tem o Abílio Diniz", diz.

A Península, fundada em 2006 por Abílio, tem posições relevantes em uma série de empresas, sendo que as maiores posições estão no Carrefour e na BRF. Além de participação em empresas, a Península tem investimentos no setor imobiliário. O total de recursos próprios é de cerca de R$ 12 bilhões, incluindo todas as classes de ativos.

 

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‘Nunca pensarei em me aposentar’, diz Abilio Diniz após abrir gestora de investimentos

Empresário está abrindo a O3 Capital e afirma que está ‘aprendendo muito’ com o novo projeto; para ele, aumento da concorrência está ‘arejando’ o setor financeiro no Brasil

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 17h01

Ele já controlou a empresa que (na época) era a maior varejista do Brasil – o Grupo Pão de Açúcar –, tornou-se investidor em grandes negócios globais, como a gigante dos alimentos BRF e as operações brasileira e mundial do Carrefour, e mantinha uma casa de investimentos apenas para cuidar dos investimentos da família. Aos 84 anos, porém, Abilio Diniz voltou mais uma vez a empreender.

Nesta quinta-feira, 6, ele anunciou que a Península está criando uma gestora de investimentos para permitir que o cidadão brasileiro comum – que tenha pelo menos R$ 1 mil para aplicar – possa investir “junto com o Abilio Diniz”. É com essa proposta que surge a O3 Capital, que já nasce com R$ 1,5 bilhão em carteira de investimentos da própria Península.

Assim, o empresário entra em uma nova seara – o mercado financeiro – concorrendo não apenas com os grandes bancos brasileiros, mas também com gestoras de investimento e fintechs. Para ele, o aumento da concorrência ampliou as oportunidades no setor, que virou um campo aberto. “O surgimento das fintechs está já arejando o mercado, assim como gestoras independentes como a O3.”

Quanto à disposição para iniciar um novo negócio aos 84 anos, Abilio diz: “Sou jovem ainda, com filhos pequenos para criar.” E garante que parar está definitivamente fora de seus planos: “Nunca pensei nisso (aposentadoria) e posso lhe garantir que nunca pensarei.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista, que o empresário concedeu ao Estadão por e-mail:

O que te motiva, aos 84 anos, em seguir empreendendo e criando novos negócios?

Sou jovem ainda, com filhos pequenos para criar, e gosto muito de trabalhar e aprender. Isso leva a gente pra frente em todos os sentidos. E o Brasil é um país imenso, cheio de oportunidades. Sempre fui usuário do mercado financeiro e agora mudei de lado. Tem sido uma experiência muito boa, estou aprendendo muito com o time da O3.

Sempre quando alguém abre um negócio pensa na concorrência e no diferencial. O que as gestoras que já estão no mercado não oferecem que a O3 Capital vai poder oferecer?

Como homem da distribuição, aprendi que o mais importante de tudo para ter diferencial e bom produto é ter foco no consumidor, e neste caso o consumidor é o investidor. Ganhar dinheiro todas as gestoras podem ganhar, mas vamos colocar foco no investidor, entender o que ele deseja, estudar como falar com ele. É preciso ganhar dinheiro, mas é preciso entender esse consumidor/investidor. Outro ponto fundamental é o nosso time. Eu sempre me orgulhei dos times que montei. As pessoas que formam a O3 são muito capazes, muito experientes e têm desejo de aprender, de crescer. Por isso decidimos abrir o fundo a terceiros. A O3 tem também uma capacidade muito aguda de investir no mercado global, o que hoje está em voga, mas que nós já temos uma longa experiência. E ela tem capacidade de pensar mais no longo prazo porque tem já um capital importante alocado lá.

Como o sr. vê o cenário de descentralização bancária do País? Isso pode trazer benefícios de longo prazo para o País?

Sem dúvida. A concorrência é fundamental para os clientes e para as empresas, que são obrigadas a oferecer serviços melhores que seus competidores. O surgimento das fintechs está já arejando o mercado, assim como gestoras independentes como a O3.

O sr. acha que, ao abrir novas possibilidades de investimento para o brasileiro comum, pode abrir horizontes das pessoas, aumentar sua visão de mundo?

Sim. Acho que o investidor brasileiro já está abrindo seus horizontes com os juros negativos (em termos reais) que temos agora. E nesse olhar mais aberto, ele está compreendendo melhor o mercado, a Bolsa, ativos de todo tipo dentro e fora do Brasil. E isso é bom para todo mundo, para as empresas, os investidores, o mercado, que está se sofisticando e crescendo.

O sr. empreende há 60 anos. Em sua trajetória, quais foram os momentos mais difíceis?

Eu tive vários momentos difíceis na vida, mas o importante é aprender a superar as dificuldades e sair vencedor. Sou otimista e vejo os momentos difíceis como aprendizados importantes. Isso é um clichê, mas é uma grande verdade. O momento mais difícil na minha vida foi o meu sequestro, cheguei a pensar que não escaparia. Mas ali redobrei minha fé em Deus, e isso foi um ganho enorme.

O sr. já pensou alguma vez em parar, se aposentar? Se sim, quanto tempo essa resolução durou?

Nunca pensei nisso e posso lhe garantir que nunca pensarei.

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