Pensão de avô banca neto desempregado

Em fevereiro, 40% dos adultos com mais de 65 anos sustentavam um parente mais jovem

SUZANNE DALEY , THE NEW YORK TIMES,

30 de julho de 2012 | 03h09

SARAGOÇA - Dolores Fernandez Mora, 76 anos, e seu marido, Mariano Blesa Julve, 75, acreditaram que terminariam seus dias com relativo conforto, com a casa quitada e uma sólida pensão de cerca de US$ 1.645 mensais. Em vez disso, estão sustentando a filha desempregada e dois de seus filhos adultos, também desempregados, que vivem com eles em seu pequeno lar de dois dormitórios no norte da Espanha. Eles assumiram as dívidas da filha. Às vezes, o dinheiro quase não chega para a comida.

"Enquanto ela não estiver trabalhando, eu não terei dentes novos, e é assim que é", disse Fernandez, que, sentada em sua sala de estar recentemente, mostrava as lacunas no seu sorriso. À medida que os efeitos de anos de recessão se acumulam, mais famílias espanholas estão se apoiando pesadamente em parentes idosos.

A mais recente rodada de medidas de austeridade da Espanha parece ter feito pouco para restaurar a confiança do investidor. E as novas estatísticas do emprego, divulgadas na sexta-feira, mostraram que o índice de desemprego subiu para 25%, um recorde.

As pensões para os idosos estão entre os poucos benefícios que não foram cortados, embora estejam congelados desde o ano passado. Os espanhóis são conhecidos por seus fortes laços familiares, e a maioria dos avós está sempre pronta a ajudar.

Em alguns casos, famílias estão retirando seus parentes de casas de repouso para poderem receber suas pensões. Essa é uma tendência que tem preocupado advogados sobre se as gerações mais jovens estão indo longe demais. "A crise na Espanha está afetando o idoso de uma maneira muito especial", disse o reverendo Angel García, que dirige uma organização sem fins lucrativos para ajudar crianças e idosos. "Muitos avós querem dar o que podem, e é o que fazem. Mas, infelizmente, às vezes o que está havendo é que a geração mais nova está saqueando a geração mais velha. Está tirando tudo o que eles têm."

Vagas. Uma pesquisa recente da Simple Logica, parceira do Gallup na Espanha, revelou um forte aumento no número de pessoas idosas que sustentam parentes. Numa pesquisa telefônica, realizada em fevereiro de 2010, 15% dos adultos com 65 anos ou mais disseram que sustentavam pelo menos um parente mais jovem. Numa pesquisa de fevereiro de 2012, esse número havia subido para 40%. Dados compilados por uma associação de casas de repouso, inforesidencias.com, revelou que, em 2009, 76% de suas casas associadas disseram que tinham vagas. Em 2011, 98% disseram que tinham.

Para especialistas, esses números refletem um crescente desespero na Espanha, que tem a taxa de desemprego mais alta da zona do euro. Segundo números recentes do governo, cerca de uma em cada 10 famílias não tem hoje nenhum adulto trabalhando. "Por que não há mais gente nas ruas protestando, pedindo comida?", disse Gustavo García, diretor da Casa Amparo, casa de repouso municipal de Saragoça. "A resposta é o idoso."

Esse certamente foi o caso de Petri Oliver, de 53 anos, e seu marido, Pedro Grande, de 53, que conseguiram sobreviver até recentemente, assim disseram, só porque estavam tomando conta da mãe de Oliver, de 80 anos, em casa, em vez de deixá-la em uma casa de repouso. A mãe de Oliver, que sofre de Alzheimer, teve três derrames no ano passado que a deixaram em estado vegetativo.

Enquanto a mãe de Oliver estava viva, ela ficava deitada numa cama de hospital na sufocante sala de estar de Oliver, rodeada por pilhas de suplementos médicos, incluindo suas refeições líquidas. O pai de Oliver recebia 300 quase US$ 370, por mês do Estado para cuidar da mulher, dinheiro que entregava à filha.

"Se ela for para uma casa de repouso, nós não comemos", disse Oliver este mês. Mas uma semana depois, sua mãe morreu. Até dois anos atrás, o marido de Oliver trabalhava na construção civil, apesar de um acidente de trabalho que o deixou cego de um olho. A única renda do casal é cerca de US$ 1.200 mensais por invalidez. Mas a hipoteca é quase US$ 1 mil. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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