Wilton Junior|Estadão
Wilton Junior|Estadão

Pensionista da Funcef se sente 'assaltado'

Aposentados, revoltados, reclamam que não houve crise, mas má gestão de seus recursos

Antonio Pita, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2016 | 05h00

RIO - A cobrança de contribuição extra para a Funcef é descrita pelos pensionistas como um “assalto” aos anseios de uma aposentadoria tranquila. Temendo a cobrança de novos déficits e acusando investimentos com orientações políticas, os beneficiários se reuniram em grupos em redes sociais para defender seus direitos.

“Nós contribuímos a vida inteira para ter uma aposentadoria tranquila. Mas vamos pagar pelos erros de aplicação dos nossos recursos. É muito revoltante. Vamos pagar por 17 anos, é capaz de eu morrer pagando”, relata Lilian Palmieri, de 58 anos.

Ela e o marido, Carlos, se aposentaram no último ano, após 34 anos de contribuição e serviços prestados à Caixa. Cada um teve descontado em seus benefícios mais de R$ 300. A preocupação, segundo eles, é com a possibilidade de novas cobranças nos próximos anos, e com o impacto na poupança para gastos futuros com a terceira idade.

“Ainda teremos de fazer mais aportes, em função de aplicações indevidas e outros rombos. Não fomos consultados se queríamos aplicar, ou de que forma, nessas empresas. Isso é que causa indignação”, diz Carlos.

O investimento na Sete Brasil é um exemplo emblemático para explicar a origem do rombo no fundo de pensão que agora pesa para os participantes. A empresa foi criada em 2010 para gerenciar as sondas que seriam utilizadas pela Petrobrás na exploração da camada do pré-sal. O Funcef foi um dos vários fundos estatais que investiu na Sete Brasil e agora amargam perdas bilionárias. Estima-se que, em relação a 2015, deve registrar perdas de R$ 1,3 bilhão com o projeto. Envolvida em denúncias na Lava Jato e pela má fase do setor de óleo e gás, a empresa entrou em crise e pediu recuperação judicial com dívidas superiores a R$ 18 bilhões.

“Não pode tirar dinheiro dos aposentados e colocar em uma empresa natimorta, gerada na falcatrua”, desabafa a pensionista Gigi Reis, de 56 anos. “Essa cobrança é o atestado de fracasso dos investimentos feitos pelo último governo e do desrespeito e negligência com o dinheiro dos trabalhadores aposentados”, completa.

Gigi também demonstra preocupação com o Projeto de Lei 268, em tramitação na Câmara, que prevê mudanças na composição de diretorias e conselhos dos fundos de pensão. O governo interino suspendeu novas nomeações até a apreciação do texto. Hoje, a diretoria da Funcef tem um representante dos aposentados. Também há representantes eleitos nos conselhos de administração e fiscal. “Com a mudança, ficaremos à mercê das patrocinadoras, que têm voto de Minerva”, diz.

Aposentada desde 2012, ela coordena um grupo na internet que estuda a gestão dos fundos e cobra de representantes informações sobre a situação financeira da administradora. “Começamos a suspeitar que as coisas não estavam bem e procuramos saber. Havia resistência na Funcef em dar explicações, vendiam como se estivesse tudo um mar de rosas, fantasiaram resultados.”

Segundo a pensionista, além do aperto financeiro que poderá afetar gastos com plano de saúde, filhos e netos, a cobrança representa “um aviltamento do ponto de vista psicológico”. “Tinha a ilusão de que teria paz na aposentadoria, agora não sei como pagar essa obrigação até o fim da vida.”

Ainda na ativa, o servidor Nilton Castro, de 57 anos, calculou que terá de aportar R$ 57 mil no total, além da contribuição mensal de 12% sobre seu salário. “Não são dois meses, são 17 anos. É o valor de um carro que estou pagando para alguém que usou indevidamente a minha aposentadoria. Não foi crise, foi má gestão”, completa.

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