Pequena empresa se une para obter crédito

Modelo europeu de sociedade de garantia começa a atrair empresários

Marianna Aragão, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2009 | 00h00

Um novo modelo criado para enfrentar uma das maiores dificuldades dos pequenos negócios - o crédito - tem ganhado força no Brasil nos últimos anos. Inspiradas em experiências na Itália e Espanha, as sociedades de garantia de crédito (SGC) visam ajudar micro e pequenas empresas (MPEs) a obter empréstimo no sistema bancário, por meio da concessão de garantias complementares. Pelo menos dezessete grupos de companhias, entidades empresariais e sindicatos estão se preparando para criar uma sociedades nesse moldes. Até o início do ano passado, apenas empresários da região da Serra Gaúcha haviam criado sua SGC.O despertar das MPEs para esse mecanismo ocorreu a partir de uma chamada pública feita pelo Sebrae em março de 2008. Por meio dela, a entidade se comprometeu a investir R$ 30 milhões nos fundos dos projetos aprovados, além de dar apoio técnico e financeiro nos primeiros 30 meses de funcionamento da SGC. O fundo montado pela sociedade de garantia recebe ainda aporte dos próprios empresários, governo e entidades. Os recursos vão garantir até 130% do valor dos empréstimos concedidos às empresas associadas. "Se a companhia não pagar, a sociedade paga. Com isso, os bancos têm o risco mitigado", diz o analista técnico do Sebrae Nacional, Roberto Marinho.Uma das SGCs em processo de formação é a Noroeste Garantias, criada por empresários e lideranças da região de Maringá (PR). Segundo o presidente Ilson Rezende, após dois anos de discussões e sensibilização das empresas locais, a sociedade nasce nas próximas semanas com 20 associados e um fundo de R$ 500 mil, que pode ser alavancado em até cinco vezes. "A SGC vai dar chance a empresários que estão fora do sistema financeiro - e muitas vezes, se financiando por meio de cheque especial, fornecedores e até agiotas - a ter acesso ao crédito", afirma.A meta da Noroeste Garantias é ampliar o número de associados no próximo ano, aumentando o número de operações mensais de três para 20. "Podemos gerar algo em torno de R$ 10 milhões em cartas de garantias, em uma perspectiva ousada", diz o empresário, cuja empresa de tecnologia de informação já faz parte do grupo. Não há restrição para participar do grupo, do qual fazem parte empresas de serviço, comércio e indústria. Para aderir, o empresário tem apenas de pagar uma taxa de adesão que varia entre R$ 700 e R$ 2,4 mil, de acordo com o tamanho da empresa. Entre as instituições financeiras que firmaram convênio com a SGC de Maringá estão o Banco do Brasil, Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e a cooperativa de crédito Sicoob. Pelo menos por enquanto, o interesse dos bancos comerciais pelo sistema é pequeno. "Os bancos têm uma percepção de risco em relação às MPEs que não corresponde à realidade. Mecanismos alternativos de garantia, como as sociedades e o fundo de aval, podem mudar isso", diz o diretor de administração e finanças do Sebrae Nacional, Carlos Alberto dos Santos.Além das garantias complementares, obter um empréstimo por meio de uma SGC pode resolver outro grave problema das MPEs no acesso ao crédito: os altos juros. No projeto GarantiSerra, em Caxias do Sul (RS), as empresas associadas conseguiram empréstimos "a níveis" muito abaixo dos de mercado, segundo o diretor executivo Fernando Vial. "Em nenhum lugar do Brasil uma pequena empresa consegue empréstimo para capital de giro a (taxa) TR + 1,55% ao mês", afirma. Fundada em 2003, a organização pioneira tem hoje 362 companhias e já garantiu R$ 11,4 milhões em empréstimos.

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