Pequenas e rentáveis

Com foco em empresas menores, Stratus se tornou um dos fundos mais rentáveis do País na sua categoria

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2011 | 00h00

A Lacta estava prestes a ser vendida, no Natal de 1995, quando Álvaro Gonçalves e Alberto Camões trabalharam juntos pela primeira vez. Alberto estava no Pactual e Álvaro concluía a reestruturação de uma empresa da PepsiCo na Suíça. Contratado por um banco de investimento, Álvaro voltou ao País para cumprir um de seus maiores desafios. Sem nunca terem se visto antes, ele e o novo parceiro foram jogados na mesma sala para desenvolver em poucos dias um plano para a venda da Lacta.

Não era tarefa fácil. A equação envolvia briga de sócios, disputas judiciais e dívidas. Em janeiro do ano seguinte, a Lacta passou para as mãos da Kraft por US$ 245 milhões. O episódio foi o embrião de uma das gestoras de private equity mais rentáveis do País, a Stratus.

Com um retorno de capital superior a duas vezes o valor investido, a Stratus tornou-se recentemente um dos melhores investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) na América Latina. A instituição mantém investimentos em 40 fundos na região, dos quais 15 estão no Brasil. "Tivemos retorno de 3,6 vezes no primeiro fundo da Stratus", diz o oficial do fundo multilateral de investimentos do BID, Rogério Ramos.

A receita de bolo usada na Lacta foi replicada em empresas de pequeno e médio portes. "Naquela época, não tínhamos a perspectiva de aumento de renda como temos hoje, por isso focamos em empresas que pudessem crescer acima do PIB, o que soou infactível no começo", lembra Álvaro.

O primeiro fundo da Stratus, de 2002, reuniu empresas de tecnologia com faturamento inferior a R$ 10 milhões. O investimento inicial foi da ordem de US$ 60 milhões. Hoje, a Stratus tem US$ 250 milhões sob administração e pretende dobrar esse valor nos próximos dois anos.

Embora não deem detalhes sobre projetos futuros, no mercado de private equity é sabido que os próximos fundos, com o mesmo perfil dos primeiros, já estão sendo captados. A gestora espera conseguir US$ 350 milhões até o fim do ano. Faltam apenas os investidores. "Mesmo com uma boa performance, a Stratus é considerada uma gestora de segunda divisão, por não contar com cotistas estrangeiros de peso", diz um executivo do setor. "É o que eles estão tentando fazer para mudar de patamar."

O case de maior sucesso da gestora até agora ganhou visibilidade em fevereiro. A Alog, especializada em serviços de data center, teve 90% de seu capital vendido para a americana Equinix, por US$ 126 milhões. A empresa, em carteira desde 2004, foi a mais rentável do fundo e também a que exigiu mais esforços dos sócios. "Dediquei 50% do meu tempo a ela", lembra Álvaro. "Trocamos sete diretorias, reestruturamos a gestão e fizemos uma fusão com outra empresa do setor logo no início."

Outro investimento que não passa despercebido é a Senior Solutions, de softwares para o setor financeiro. Quando recebeu o primeiro aporte, há cinco anos, faturava R$ 5 milhões. De lá para cá, fez cinco aquisições e multiplicou por oito a receita. "Eles nos deram a visão de negócio que estava faltando", diz o fundador, Bernardo Pereira.

Como a carteira de qualquer outro fundo, a da Stratus também tem seus tropeços. Em 2006, apostou numa fabricante de peças para o setor aeroespacial que não vingou. Antiga fornecedora da Embraer, a Graúna Aerospace, que já estava em dificuldades, quase quebrou depois da crise financeira mundial.

Com mais acertos do que erros, a Stratus passou a ser reconhecida internacionalmente por suas aplicações em negócios sustentáveis. Seu segundo fundo abriga apenas empresas "verdes", como a Amyris, companhia americana de biotecnologia que desenvolveu uma substância capaz de substituir derivados do petróleo. Cerca de 40% dos recursos da Stratus está investido nesse fundo, o Cleantech, primeiro do gênero no País.

Na semana passada, a Stratus esteve entre os finalistas do prêmio de sustentabilidade do jornal britânico Financial Times. "Os investimentos sustentáveis ainda não se provaram como negócio, mas agradam os gringos", diz um gestor de private equity. Álvaro defende o fundo "verde" com o fervor de um "ongueiro", mas ressalta que seus interesses não são filantrópicos. "Está longe de ser romantismo."

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