Pequenas empresas viram 'mini-holdings'

Com o objetivo de manter o foco no negócio original sem perder oportunidades, empresários adotam processo já conhecido de grandes corporações

Naiana Oscar, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2010 | 00h00

Para manter o foco e não deixar escapar boas ideias, pequenas empresas estão se tornando "mini-holdings", com a criação de negócios secundários. Esse é um processo já conhecido em grandes corporações, mas que aos poucos começa a cair no gosto de micro e pequenos empreendedores, principalmente ligados à área de tecnologia. O tema chamou a atenção de um grupo de pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que, desde o ano passado, estuda o fenômeno chamado de "spin off".

O termo em inglês define o surgimento de um nova empresa, dentro de um negócio já existente. No Brasil, os spin offs mais conhecidos são os acadêmicos. Eles surgem com base em grupos de pesquisa de universidades e viram um CNPJ.

A carioca Clavis, empresa que presta serviços de segurança da informação, é exemplo dos dois processos. A empresa nasceu há cinco anos dentro do departamento de Ciências da Computação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ficou um tempo incubada e hoje caminha com as próprias pernas, num escritório localizado no centro do Rio. Além de manter seu negócio principal, a Clavis passou a oferecer aos clientes auditoria de sistemas de segurança. A nova atividade ganhou tanta importância dentro da empresa que ganhou vida própria e foi desmembrada no início do ano. "Ao dar independência a essa atividade, conseguimos atacar mais frentes", afirma Bruno Salgado, um dos sócios fundadores.

Em Santa Catarina, uma outra empresa de tecnologia já tem sob seu guarda-chuva dois novos negócios. Há 14 anos, a V.Office instala e configura sistemas de redes. Mas viu a oportunidade de expandir os negócios no segmento de telefonia. Surgiu a Gnovitt. E, mais recentemente, a Sippulse. A primeira já foi "expulsa" da empresa-mãe, e a segunda está passando por esse processo agora.

O presidente, Flávio Gonçalves, comandou todo o processo de forma bem consciente. Com a criação das spin offs, ele queria impedir a desvalorização da marca, reter talentos e aumentar a produtividade. "Não podíamos ser lembrados como uma empresa que faz tudo", explica. Criando um novo negócio, ele teria a oportunidade de premiar funcionários de destaque e garantir deles um rendimento melhor. "Reter talentos é um dos maiores desafios de uma pequena empresa. Torná-lo responsável pelo negócio mostrou-se uma boa maneira de continuar com essas pessoas", disse.

As duas experiências já mostraram a Gonçalves quais cuidados o empreendedor precisa tomar antes de separar os negócios. Segundo ele, o escolhido para tocar a nova empresa deve ser muito bem selecionado e é importante que a nova unidade tenha um faturamento mínimo antes de se separar da matriz.

Sobrevivência. Jonas Mendes Constante, pesquisador do Projeto Spin Offs Corporativos do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV, afirma que empresas originadas por esse processo têm mais chances de sobreviver do que aquelas que são fruto de um empreendedorismo individual. "Com o apoio da empresa-mãe, a nova pode ter mais aporte de capital, acesso ao leque de clientes e à tecnologia."

Marcos Hashimoto, pesquisador do Insper, porém, contesta o uso da expressão spin off para denominar a criação de "mini-holdings" em pequenas empresas. Ele diz que o termo ainda é novo, mas costuma ser aplicado em casos em que a empresa matriz é representada por uma grande estrutura, madura e complexa. "É assim no caso dos spin offs acadêmicos, em que as empresas precisam de desvincular para ter autonomia."

TRÊS RAZÕES PARA...

Fazer um spin off e criar uma nova empresa

1. Concentrar os esforços no negócio principal e original da empresa mãe. Manter o foco evita uma desvalorização da marca, já que a empresa será associada a um único serviço ou produto.

2. Vencer um dos maiores desafios de empresas de pequeno porte: a retenção de talentos. Ao criar um negócio secundário, é possível premiar um funcionário de destaque tornando-o sócio.

3. Aumentar a produtividade. Na posição de sócio, o funcionário trabalha mais motivado e pode se concentrar em uma atividade específica.

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