Epitácio Pessoa/Estadão
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Pequeno agricultor sofre com a crise e joga fora produção

Com restaurantes, feiras e hotéis fechados, produtores descartam produtos que estragam nos pés

José Maria Tomazela, SOROCABA

06 de abril de 2020 | 05h00

O agricultor José Claudio Vieira Menino, de 63 anos, produtor de hortaliças em Piedade, interior de São Paulo, foi obrigado a jogar fora 100 caixas de alface, totalizando 2,4 mil pés, na semana passada, porque não tinha para quem vender. Com restaurantes, hotéis e feiras fechados devido ao coronavírus, a produção encalhou e o alface estragou.

“Reduzi o plantio mas ainda estou perdendo de tudo na roça. Joguei um monte de muda fora e mandei parar a produção do viveiro. Tem sido só prejuízo, mas ainda é cedo para fazer contas, pois a situação só está piorando”, disse Menino.

Como Menino, milhares de pequenos produtores agrícolas do interior de São Paulo enfrentam prejuízos porque ficaram sem mercado para seus produtos - verduras, legumes, frutas, insumos para temperos, ovos e aves caipiras ou de produção orgânica. Muitos adotaram a entrega a domicílio e aumentaram as vendas, mas ainda há encalhe de produção.

Em entrevista à Rádio Eldorado,  o secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado, Gustavo Junqueira, demonstrou preocupação com o problema e disse que buscava solução com outros secretários e com o Ministério da Agricultura, como financiamento para o produtor sobreviver a esse período.

O agricultor orgânico José Roberto da Silva, presidente da Cooperativa de Produtores Familiares de Piedade, da qual Menino faz parte, disse que praticamente todos os 30 agricultores tiveram perdas e foram obrigados a reduzir os plantios. “Muitos atendiam a merenda escolar das escolas - que suspenderam as aulas -, e o comércio local, que está fechado."

De acordo com Silva, as duas feiras da cidade, que também escoavam parte da produção, foram suspensas. "Estamos tentando abrir canais de venda direta para as indústrias que ainda funcionam e restaurantes que usam delivery, mas não será no volume de antes”, disse.

'O estrago está feito'

 No município de Pereiras, Paulo Albino Theófilo, encarregado de uma empresa familiar de avicultura, contou que a venda de ovos caiu e os plantéis de frango caipira, que seriam vendidos para abate, estão encalhados. Parte da produção era enviada para feiras e mercados da capital.

“As aves continuam sendo alimentadas todo dia, mas a gente não consegue vender porque os clientes estão com as portas fechadas. Até para vender frango caipira ao preço da ave de granja está difícil", informou Theófilo. Segundo ele, são dez funcionários e alguns estão sendo demitidos. "Infelizmente o estrago está feito, prejuízo grande mesmo.”

Em São Miguel Arcanjo, a secretaria municipal de Agricultura e Meio Ambiente contabilizou perdas de hortaliças, tomate, pimentão, pepino e caqui, em volumes ainda não apurados. “São mais de 1,2 mil produtores que dependiam principalmente do Ceasa, da capital, para escoar a produção, mas os pedidos cessaram".

Arcanjo disse que o movimento de caminhões para o Ceasa caiu 50% e ainda pode se agravar. Neste momento não temos nenhum pedido de lá”, disse o secretário Wesley Vieira Batista. Só um produtor, no Bairro Guararema, jogou fora 80 caixas de legumes.

Produtores de caqui de Pilar do Sul, um dos polos da fruticultura no Estado, estão com encalhe da fruta por falta de compradores e usam técnicas para retardar a colheita da variedade rama forte, que responde por 75% dos cultivos, porque não há comprador.

“Estávamos tirando de três a quatro caminhões por dia, mas caiu a zero. Estamos retendo a fruta no pé, retardando a maturação à espera do que vai acontecer.  Não sabemos o que vai ser da fruticultura de Pilar”, disse o dirigente comercial da Associação Paulista de Produtores de Caqui, Adriano Silva.

A produção dessa fruta, no município, atinge 15 mil toneladas, sendo 9 mil dos associados. Produtores de uvas finas, segundo ele, também já foram atingidos. “Temos uma grande produção de uma uva especial, de alto valor, a pilar moscato, que seria toda exportada. No entanto, ainda falta colher 40% dos parreirais e houve uma redução brutal na demanda. Os produtores estão sofrendo com a uva encalhada, pois o mercado local não absorve.” Ele explicou que, devido ao coronavírus, os embarques aéreos de cargas também sofreram restrições.

Em Itatiba, devido ao coronavírus, a prefeitura cancelou a 17.ª edição da Festa do Caqui, que deveria ter sido realizada entre 17 de março e 5 deste mês. A cidade colhe 5 mil toneladas do fruto por ano e a festa, além da venda direta de 20 toneladas de frutas selecionadas, é o ponto de encontro de produtores e compradores.

O evento era a aposta do produtor Roberto Alves para comercializar a maior parte de sua produção. Agora, ele está com a safra encalhada. “Estou colhendo conforme consigo vender, mas já tem fruta perdendo no pé”, disse.

O produtor Luis Carlos Cestarolli, do Sítio Recanto do Vovô, em Louveira, já deveria ter colhido 50 toneladas de caqui rama forte - metade da produção de seus pomares -, mas só conseguiu vender 15 toneladas.

“Deveria estar colhendo 300 caixas por dia, mas só estou conseguindo vender 100 caixas diárias. O restante fica passado e tem de ser jogado fora. Se o mercado não reagir, vamos perder muita fruta no pé”, afirmou Cestarolli. Ele já descartou ao menos 3 toneladas de frutas colhidas que encalharam.

Criatividade e delivery

Grupos de produtores tentam driblar a queda na demanda com criatividade. A Vila Yamaguishi, importante polo de produção orgânica em Jaguariúna, criou um sistema de delivery e retirada das caixas com alimentos no sítio para reduzir a perda de produção. Em cerca de 30 hectares, são cultivadas mais de 60 variedades de frutas e legumes.

“Vínhamos trabalhando com entrega a domicílio desde o início das nossas atividades, mas o escoamento forte se dava pelas vendas em feiras de produtos orgânicos, lojas e restaurantes, que estão fechados devido à crise do coronavírus. Agora nosso foco é o delivery, mas o volume de vendas não cobre o que deixamos de vender nas feiras”, disse Isack Ryuji Minowa, um dos produtores.

Como exemplo ele cita que numa única feira é possível atender 400 clientes ou mais. Na entrega a domicílio, é preciso rodar com uma perua Kombi o dia todo para entregar 35 pedidos. “Quando o endereço é dentro de um condomínio, o tempo gasto aumenta por conta do controle de entrada. No centro das cidades, o problema é estacionar o veículo para fazer as entregas. Se for um prédio, precisa caminhar pela rua com a caixa de verduras”, contou.

Além disso, a demanda se tornou tão alta que, mesmo com a colocação de mais veículos, a Yamaguishi não consegue atender a todos os pedidos. “Tivemos de suspender o cadastramento de novos clientes por absoluta impossibilidade de atender a todos, e estamos direcionando para colegas agricultores que ainda estão sem canal de escoamento”, disse.

Depois de suspender as feiras que realizava para venda direta de sua produção devido ao vírus, o Sítio Cafundó, em Itu, conseguiu dar a volta por cima. “Reforçamos o delivery com o uso de redes sociais e aumentamos as vendas em 300%. Antes, nossas entregas aconteciam aos sábados e, agora, estamos fazendo às quartas-feiras também”, informou Luiz Marcio Tachiani De Vecchi Bernardi, que toca a produção com o sócio Fernando Faccioli, amigo de infância. Para aumentar a disponibilidade, eles fizeram parceria com três produtores orgânicos da região.

A agricultora Leila Francisca Silva Castro, que produz verduras e legumes orgânicos em Redenção da Serra e já atendia sua clientela por delivery, viu triplicar o número de pedidos depois do coronavírus. Conforme contou, quando as pessoas se viram impedidas de sair de casa, os 30 clientes fiéis compartilharam seu trabalho em grupos de WhatsApp e a demanda triplicou.

Leila trabalha com uma sócia e os familiares de ambas. “Já estamos pensando em ampliar a horta e contratar gente de fora para nos ajudar”, disse. São 30 variedades de legumes que compõem as cestas para entrega domiciliar. “Usamos luvas, máscaras e avisamos o cliente que a cesta foi deixada em sua porta”, disse ela, já adaptada aos novos tempos do coronavírus.

Demanda em queda 

A Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) informou que o terminal opera dentro da normalidade, mas com a demanda diminuindo gradativamente após a proibição da abertura habitual de bares e restaurantes. Os feirantes também reduziram o volume de compras, devido ao isolamento que reduziu a ida de consumidores às feiras.

O setor de frutas e verduras registrou retração de vendas, após o fechamento de restaurantes, mas o segmento também foi afetado porque, devido à pandemia, muitos consumidores passaram a evitar os produtos crus.

A Secretaria da Agricultura informou que o secretário continua com as tratativas para amenizar a situação dos pequenos produtores. Entre as possibilidades, além do financiamento para formação de estoques e retomada da produção após a pandemia, está uma ajuda direta às famílias nesse período.

Segundo a Secretaria, já houve reunião entre secretários estaduais, a ministra da Agricultura Tereza Cristina, Banco do Brasil e BNDES para tratar do problema. Na última quinta-feira, o governador João Doria anunciou a liberação de R$ 150 milhões em créditos com juros baixos e carência maior, via Banco do Povo e Sebrae-SP, para ajudar microempreendedores, inclusive do setor rural, a enfrentar a crise.

 

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