eliasfalla/Pixabay
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Pequeno e médio produtor podem impulsionar café no Brasil, diz especialista

Levantamento mostra que 36% da produção brasileira de café está nas mãos de 230 mil cafeicultores pequenos (79% do total)

Cristian Favaro, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2017 | 09h56

O Brasil é atualmente o maior produtor do mundo de café, com cerca de 30% do total. Mas, de acordo com Pedro Ronca, gerente do Programa Brasil da Plataforma Global do Café (GCP), que atua na difusão de práticas sustentáveis na cafeicultura, o País poderia ter uma representatividade ainda maior caso todo o seu potencial agrícola fosse explorado. Segundo o especialista, a janela de oportunidade do setor hoje está no pequeno e médio produtor, principalmente nos que tem até 10 hectares. "Nós poderíamos elevar muito nossa capacidade caso eles (pequenos e médios) conseguissem melhorar sua produtividade", explicou. A GCP está em oito países atuantes no mercado do grão (como Vietnã, Colômbia e Indonésia) e é parceira de diversas entidades internacionais, além de gigantes do setor, como a JDE e Nestlé.

Um levantamento feito pela consultoria P&A, com números do Censo Agropecuário 2006 e da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mostra que 36% da produção brasileira de café está nas mãos de 230 mil cafeicultores pequenos (79% do total), com área de até 10 hectares. Outros 16% da produção está na conta de agricultores entre 10 e 20 hectares. "A dificuldade é real de se conseguir números atualizados do setor agropecuário, mas acreditamos que essa realidade não tenha mudado muito", disse Ronca. Paralelamente a esta fatia significativa de pequenos agricultores, Ronca destacou que o Brasil tem uma produtividade por hectare que gira em torno de 25 sacas de 60 kg.

"Hoje, temos produtores de arábica que conseguem uma produtividade de 35 a até 40 sacas. Já no conilon, isso chega a até 100 sacas no Espírito Santo. Mas, em Muqui (município capixaba), alguns estão tirando 15 sacas por hectare. Isso é muito baixo. Não é difícil nem caro fazer esse produtor alcançar 50 sacas", disse. Ronca explicou que é o pequeno produtor, que dispõe de menos tecnologia, que leva essa produtividade média para baixo. "O grande, com toda tecnologia, quebra se mantiver tais níveis. O pequeno, não. Eles conseguem se manter, mas perdem a chance de melhorar a renda."

Segundo Ronca, não é preciso grandes investimentos em tecnologia para conseguir elevar a produção média geral de 25 para 35 sacas/hectare. "Desafiador seria levar a média somente do arábica para este nível", explicou. Apesar da aparente facilidade técnica, Ronca ponderou que a dificuldade é chegar até esse produtor. Quando o contato é feito, entretanto, vem os resultados positivos.

A Fundação Neumann, por exemplo, investiu em um projeto com o modelo de assistência técnica coletiva, algo ainda pouco aplicado no Brasil, em regiões produtoras de Minas Gerais. A iniciativa alcançou cerca de 5 mil pequenos produtores que, depois do acompanhamento, conseguiram aumentar em 30% sua produtividade e reduzir em 15% os custos. "A produção de café tem um viés cultural muito forte. Convencer esse produtor a mudar sua forma de cultivo é um desafio tremendo", disse Ronca.

Segundo o especialista, muitos ainda recebem com receio o conceito de sustentabilidade e pensam apenas na questão ambiental. "A sustentabilidade vai muito além disso. Produtividade é fundamental. Se o produtor não tiver lucro, ele não tem como olhar para o restante". Duas das principais falhas hoje, segundo Ronca, e que afetam diretamente a produtividade são a ausência de cobertura do solo e análises para correções e adubações. "É muito grande o número de produtores que ignoram essas variáveis". Ele destacou que a cobertura do solo, por exemplo, é fundamental para proteger o campo de épocas de seca, fator que poderia ter evitado uma queda tão brutal na safra capixaba diante da recente crise hídrica.

A Plataforma disponibiliza diversos vídeos e materiais que apontam caminhos para alavancar a produção do pequeno e médio produtor no Brasil. O conteúdo foca também na capacitação de técnicos e aborda questões como meio ambiente, responsabilidade social e acesso ao crédito. Mais informações podem ser obtidas no site oficial no Brasil.

 

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