Pequim critica decisão dos EUA sobre sobretaxa a pneus chinês

Chineses classificou a medida de protecionista e disse que ela viola os acordos de comércio global

Patricia Lara, da Agência Estado,

12 de setembro de 2009 | 12h18

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, impôs novas tarifas punitivas para todos os pneus para carros e caminhões leves importados pelos EUA da China, o que motivou uma manifestação enérgica do governo de Pequim, que classificou a medida de protecionista e disse que ela viola os acordos de comércio global.

 

Enquanto a decisão da Casa Branca sobre a imposição de tarifas, anunciada na noite de sexta-feira, 11, deve aplacar forças sindicalistas importantes que defendem o plano de assistência médica do governo de Obama, a medida pode criar um acirramento das tensões com o gigante asiático, um importante parceiro comercial e estratégico para o governo norte-americano.

 

O ministro do Comércio da China, Chen Deming, afirmou que o governo é fortemente contrário às tarifas, classificadas como um sério caso de protecionismo que pode abalar não só as relações comerciais entre os EUA e a China, mas também outros interesses norte-americanos.

 

Ele disse que os EUA não cumpriram a promessa feita durante o encontro do G-20 e que a ação viola as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

 

"Recentemente, a América e a China conduziram diversas negociações em diferentes níveis, mas as exigências norte-americanas são muito elevadas, portanto não houve nenhum acordo, o que a China lamenta", afirmou.

 

"O governo chinês vai continuar preservando pelos interesses legítimos da indústria doméstica chinesa e tem o direito de tomar medidas correspondentes", declarou o ministro.

 

Obama tinha até 17 de setembro para aceitar, rejeitar ou modificar uma decisão da comissão americana do comércio internacional, que sustenta que a importação crescente de pneus da China pelos Estados Unidos prejudica os trabalhadores americanos. Os trabalhadores do setor siderúrgico argumentam que essa importação desencadeou o fechamento de milhares de postos de trabalho nos EUA.

 

A comissão do comércio recomendou a incidência de um sobretaxa ao preço dos pneus de 55% no primeiro ano, 45% no segundo ano e 35% no terceiro ano, mas Barack Obama estabeleceu porcentuais inferiores a essa recomendação: 35% no primeiro ano, 30% no segundo ano e 25% no terceiro ano, revelou Robert Gibbs, adido de imprensa da Casa Branca.

 

A decisão ocorre em um momento em que autoridades norte-americanas estão trabalhando ao lado dos chineses e de uma série de outros países para planejar o encontro do Grupo dos 20 (G-20, que reúne as nações mais industrializadas e as principais potências emergentes do mundo) e países em desenvolvimento nos dias 24 e 25 de setembro, em Pittsburgh. A China é uma participante importante no encontro.

 

Vários dos líderes mundiais que Obama receberá em Pittsburgh manifestaram-se, de maneira veemente, contra a adoção de medidas de proteção de indústrias. O próprio Obama também já fez discursos em oposição ao protecionismo. Outros governos já sugeriram que os EUA são duros em relação a ações protecionistas só quando suas próprias indústrias não estão ameaçadas. A retórica norte-americana sobre o livre comércio também foi questionada por causa da cláusula "Buy American" do pacote de estímulo econômico recém-aprovado pelos Estados Unidos.

 

A decisão norte-americana também pode ter ramificações em outras áreas de prioridade elevada. A Casa Branca precisa, fortemente, do apoio dos chineses para combater os desequilíbrios climáticos, os conflitos nucleares com o Irã e a Coreia do Norte e a crise econômica global. A China é hoje a terceira maior economia do globo e um membro com direito a veto no Conselho de Segurança (CS) da Organização das Nações Unidas (ONU).

 

Roy Littlefield, vice-presidente da Associação Industrial de Pneus, que se opunha à aplicação das tarifas, afirmou que as medidas não vão salvar os empregos nos EUA, mas apenas levarão as companhias a mudarem suas linhas de produção para outros países com condições menos restritivas em relação ao meio ambiente, com controles mais brandos de segurança, sindicatos menos ativos e custos mais baixos que os dos EUA.

 

O sindicato United Steelworkers, que representa os trabalhadores de muitas fábricas de pneus, registrou uma petição em abril deste ano na Comissão de Comércio Internacional dos EUA (ITC, na sigla em inglês) pedindo a proteção. Segundo o sindicato, a importação de pneus da China triplicou entre 2004 e 2008, o que teria custado mais de 5.000 postos de trabalho nas fábricas de pneus americanas desde 2004.

 

Quatro fábricas de pneus fecharam nos EUA em 2006 e 2007 e outras três devem sair do mercado neste ano. Durante esse período, só uma nova fábricas de pneus foi aberta nos EUA. A participação da China entre os países vendedores de pneus para os EUA cresceu de 4,7% em 2004 para 16,7% em 2008.

Em um documento de duas páginas, a China contesta que as tarifas não estão coerentes com os fatos. Segundo o documento, não houve esse aumento de exportações de pneus para os EUA. Para Pequim, as exportações tiveram um crescimento de 2,2% em 2008, ante 2007, e queda de 16% na primeira metade de 2009, ante igual período de 2008.

 

As novas tarifas incidirão sobre uma tarifa existente de 4% sobre todos os pneus importados da China. A medida entra em vigor no dia 26.

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