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Pedro Fernando Nery
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A percepção de bem-estar das mulheres tem caído a despeito de conquistas sociais

Segundo estudo da UPenn, se antes, nos anos 70, o bem-estar subjetivo (a percepção de felicidade) era maior para mulheres do que para homens, a situação se inverteu com o passar do tempo

Pedro Fernando Nery*, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2022 | 04h00

Um estudo divulgado no mês passado renovou a discussão sobre a vida das mulheres.

O paradoxo do declínio da felicidade feminina” é como pesquisadores da UPenn (Universidade da Pensilvânia) chamaram o resultado que encontraram para as medidas de bem-estar das mulheres em países desenvolvidos, já há mais de dez anos (Stevenson e Wolfers, 2009). É que, após décadas de conquistas femininas, o seu índice de felicidade caía – em termos absolutos e em relação aos homens.

Enquanto vários indicadores melhoravam, a percepção das mulheres sobre seu próprio bem-estar indicava o declínio, consistente entre raças e países. Direitos foram alcançados, mas ao mesmo tempo que progressos ocorriam, elas se consideravam menos felizes. Se antes, nos anos 70, o bem-estar subjetivo (a percepção de felicidade) era maior para mulheres do que para homens, a situação se inverteu com o passar do tempo.

Durante essas décadas houve cada vez mais espaço na sociedade, cada vez mais apoio no lar, mas elas estavam cada vez mais infelizes: seria esta a lógica de se chamar a trajetória dos números de paradoxo. Mudanças nas expectativas das mulheres surgiram como uma explicação possível.

Agora, professores das universidades de Glasgow e College London apresentaram dados novos, chegando ao período da pandemia (Blanchflower e Bryson, 2022). Eles confirmam que os homens se sentem mais felizes do que a mulheres e ratificam também uma impressão intuitiva: a pandemia deixou as pessoas mais infelizes. Mas a queda no bem-estar foi muito mais acentuada para as mulheres. O resultado é condizente com uma crise que afetou mais sua renda e seu tempo.

As informações se restringem a países ricos. E no Brasil? A FGV Social apresentou nos últimos anos números que, a princípio, não revelaram “desigualdade de felicidade” relevante entre gêneros. Entretanto, a felicidade dos brasileiros só passou a ser medida sistematicamente neste século, o que dificulta a apreciação de um paradoxo aqui.

No novo estudo, Blanchflower e Bryson sugerem não apenas que a felicidade feminina caiu mais na pandemia, mas que ela voltava ao normal mais rápido também. A recuperação mais veloz é definida por eles como resiliência – o que talvez nos dê margem para algum otimismo. De pessimista, a conclusão dos pesquisadores de que a felicidade menor para mulheres de tal forma se consolidou nas pesquisas ao longo do tempo que nem sequer deveria se falar mais em paradoxo. Chegou a hora de falar em “a realidade do declínio da felicidade feminina”?

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