Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Covid-19

Bill Gates tem um plano para levar a cura do coronavírus ao mundo todo

Percepção de menor fluxo no transporte faz petróleo fechar a menos de US$ 30/barril

A queda do preço do petróleo começou na virada do ano, em meio a tensões entre os Estados Unidos e Irã

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2020 | 19h45

RIO - As declarações do presidente norte-americano Donald Trump sobre a possibilidade de mais restrições de viagens aos Estados Unidos, desta vez das vindas do Canadá e México era o que faltava para o preço do petróleo despencar de vez da barreira de US$ 30 o barril, fechando a terça-feira cotado a US$ 26,95 o tipo WTI e US$ 28,75 o tipo Brent, o que não se via desde janeiro de 2016. Para analistas, somente a recuperação da economia, principalmente da China, trará a commodity novamente para um patamar mais sustentável, ou, quem sabe, a volta das negociações entre a Rússia e a Arábia Saudita para um novo corte de produção. Nos dois casos, a expectativa da elevação de preços não envolve o curto prazo.

A queda do preço do petróleo começou na virada do ano, em meio a tensões entre os Estados Unidos e Irã, que fez o petróleo sair do patamar dos US$ 70 o barril. Em seguida, o surgimento do coronavírus na China e seu alastramento para o resto do mundo impactou fortemente a demanda. Um novo corte de produção para manter o preço diante da previsível queda da demanda foi proposto pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), liderado pela Arábia Saudita, à Rússia, que já estava no seu limite de redução e acabou sendo descartado, o que pressionou a oferta.

“A expectativa de reduzir ainda mais o fluxo aéreo dentro dos EUA, que já está com o fluxo bem reduzido, com algumas cidades como Nova York e São Francisco em estado de emergência fez a queda da demanda tomar uma escala ainda maior”, avalia o analista da Ativa Investimentos Ilan Arbetman.

Ele lembra que o mundo já está na terceira semana à espera de um entendimento entre a Opep e a Rússia, ainda indefinido, já que a melhora por meio de um aumento da demanda parece ainda mais distante, com o avanço do coronavírus  em todos os mercados. Para ele, se o petróleo não retornar no médio prazo para o patamar dos US$ 40 o barril, o setor vai começar a sofrer como um todo e em breve as petroleiras vão ter que reduzir postos de trabalho e cortar investimentos.

A queda abaixo de US$ 30 no entanto deve forçar a mais uma redução de preços pela Petrobras, prevê Arbetman. Na semana passada a estatal cortou o preço da gasolina em 9,5% e do diesel em 6,5%.

De acordo com o analista da Tendências Walter de Vitto, o preço do petróleo está condizente com o quadro de demanda que vem pela frente. “As notícias estão cada vez mais negativas em relação ao fluxo de pessoas no mundo e afeta diretamente os combustíveis. Gasolina, diesel e QAV (aviação) são responsáveis por 60% da demanda mundial de petróleo”, informa.

Ele vê espaço ainda maior para a queda de preço da commodity, que ainda será afetada pelo fim do inverno no hemisfério norte. “Geralmente nessa época o consumo já cai pelo fim do uso da calefação, mas normalmente entra o fluxo de viagens do verão, o que não vai acontecer este ano. Onde chega o coronavírus a queda de demanda é grotesca”, explica.

Thadeu Silva, da INTL FCStone, também vê espaço para nova queda do preço do petróleo, e a única saída é aguardar o retrocesso do coronavírus ou a negociação sobre novas cotas de petróleo entre a Rússia e Opep. Ele não vê, porém, a cotação da commodity se sustentando abaixo de US$ 30 o barril no médio prazo. 

“Esse preço não remunera produção em nenhum lugar do mundo, petróleo é atividade de risco. A oferta (de petróleo) não aguenta esse nível de preço”, afirma. Para ele, no próximo mês ou nas próximas semanas ainda serão observadas   mais quedas. “Mas acredito que no médio prazo vai ter forte retomada desse nível”.

Uma das possibilidades, avalia, é a saída do mercado dos produtores de shale gas (xisto) norte-americanos, que não vão suportar a queda de preços e com isso reduzir a oferta, abrindo espaço para a recuperação. Mesma opinião do especialista da Mirae Asset Pedro Galdi.

“Não acredito que seja um evento que dure muito tempo, pois não é bom para ninguém. Aos níveis atuais muito produtor está tendo prejuízo por ter custo alto de produção e inviabiliza a indústria do xisto nos EUA”, diz Pedro Galdi, da Mirae Assetman.

Já para a coordenadora de pesquisas da FGV, Fernanda Delgado, a melhor saída é a retomada do crescimento econômico, já que as negociações entre Rússia e Arábia Saudita parecem cada vez mais distantes. “Acho que o momento eh de calma e observação. Não há muito o que fazer. A Arábia Saudita está forçando trazer os outros países pra mesa pra voltar a negociar. Não sabemos quanto tempo isso vai demorar. O que vai salvar é a retomada da atividade econômica. Só o incremento da atividade industrial salva. É rezar para a retomada da China”, afirma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.