Marcello Casal Jr./Agência Brasil
Edifício da Previdência Social; grupo de pessoas que recebiam aposentadoria e pensão encolheu de 13% da população brasileira em 2019 para 12,4% em 2020, de 27,4 milhões para 26,2 milhões Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Perda de emprego e morte de idosos encolheram contribuição de trabalho e aposentadoria na renda 

Sob efeito da pandemia, 8,1 milhões de brasileiros deixaram de ter renda proveniente do mercado do trabalho em 2020, aponta o IBGE; fatia da população que recebia aposentadoria e pensão passou de 13% para 12,4%

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 10h00

RIO - A pandemia de covid-19 mudou o perfil do rendimento domiciliar no País. O pagamento do auxílio emergencial elevou a participação de programas de transferência de renda no orçamento disponível. Por outro lado, o extermínio de empregos reduziu a participação da renda proveniente do mercado de trabalho, enquanto a mortalidade da pandemia entre idosos e dificuldades operacionais do INSS em conceder benefícios enxugaram a contribuição de aposentadorias para o sustento das famílias brasileiras. 

Sob o choque da pandemia, 8,1 milhões de brasileiros deixaram de ter renda proveniente do mercado do trabalho em 2020, indicando que, na média do ano e já considerando as recolocações em meio à recuperação da economia após o choque inicial da crise sanitária, esse contingente perdeu o emprego, incluindo formais e informais.

Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2020 - Rendimento de todas as fontes, divulgada nesta sexta-feira, 19, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O número de pessoas com rendimento de trabalho caiu de 92,8 milhões em 2019 para 84,7 milhões em 2020, de 44,3% para 40,1% do total de habitantes. O número de pessoas recebendo outros rendimentos saltou de 16,4 milhões em 2019 para 30,2 milhões em 2020, de 7,8% para 14,3% da população.

O grupo de pessoas que recebiam aposentadoria e pensão encolheu de 13% da população brasileira em 2019 para 12,4% em 2020, de 27,4 milhões para 26,2 milhões. A queda no número de pessoas recebendo aposentadorias e pensões se deve à pandemia.

“Pode ser efeito da mortalidade da covid-19, mas também de um represamento do INSS em liberar os benefícios, porque as agências de atendimento estavam fechadas, as pessoas não conseguiam fazer perícias”, lembrou Alessandra Scalioni Brito, analista do IBGE.

Entre os mais de 71 milhões de lares existentes no País, a proporção de domicílios com ao menos um morador recebendo outros programas sociais saltou de 0,7% em 2019 para 23,7% em 2020, sob efeito do pagamento do auxílio emergencial.

Houve aumento na incidência desse tipo de renda em todas as regiões, sobretudo no Norte (de 0,5% em 2019 para 32,2% em 2020) e Nordeste (de 0,8% para 34,0%). Ao mesmo tempo, caiu a proporção de famílias que recebiam o Bolsa Família (de 14,3% para 7,2%), porque parte desses beneficiários passou a receber o auxílio emergencial, explicou o IBGE. Já a proporção de domicílios que recebiam o Benefício de Prestação Continuada (BPC-LOAS) passou de 3,5% para 3,1% no período.

Entre os brasileiros que tinham alguma fonte de renda, o rendimento médio real de todas as fontes diminuiu de R$ 2.292 ao mês em 2019 para R$ 2.213 em 2020, uma queda 3,4%, já descontada a inflação do período. No Sudeste, o valor alcançava R$ 2.575, enquanto o menor era o do Nordeste, R$1.554.

Com a pandemia, o peso do rendimento do trabalho na composição do sustento das famílias atingiu a mínima histórica em 2020, segundo o IBGE. Quando considerados todos os moradores do domicílio, inclusive os que não possuem renda, o rendimento médio mensal real domiciliar per capita encolheu 4,3%, dos R$ 1.410 estimados em 2019 para R$ 1.349 em 2020.

Os outros rendimentos ganharam participação na composição desse rendimento domiciliar per capita, passando de 3,4% em 2019 para 7,2% no ano passado. Já o peso do rendimento de trabalho caiu de 74,4% para 72,8%. Também caíram, no período, os rendimentos de aposentadoria ou pensão (de 18,7% para 17,6%), aluguel e arrendamento (de 2,4% para 1,5%) e pensão alimentícia, doação ou mesada (de 1,2% para 0,8%).

No entanto, o rendimento médio mensal real habitualmente recebido de todos os trabalhos (que não considera outras fontes de renda) teve uma expansão de 3,4% em 2020, chegando a R$ 2.447. A crise sanitária afetou mais os trabalhadores em posições mais vulneráveis, como os que atuavam por conta própria, aqueles sem carteira assinada no setor privado e os empregados domésticos. O extermínio dessas vagas com remuneração mais baixa contribuiu para a elevação da renda média de quem permaneceu trabalhando, explicou o IBGE.

Com menos pessoas trabalhando e mais beneficiários de programas sociais, ainda que temporariamente, o Nordeste foi a primeira e única região do País a registrar um porcentual de pessoas com rendimento de trabalho (32,3%) inferior ao das pessoas que recebiam rendimento de outras fontes (32,8%), categoria que inclui as transferências de renda do governo. 

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Com queda na renda da classe média e auxílio emergencial, desigualdade recuou no Brasil em 2020

Auxílio evitou piora; ainda assim, quem é da metade mais pobre sobreviveu só com R$ 453 mensais, em média, em 2020

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 10h00
Atualizado 19 de novembro de 2021 | 17h08

RIO - A pandemia exterminou empregos – 8,1 milhões de brasileiros perderem a renda proveniente do mercado de trabalho, no saldo final de 2020 –, mas o auxílio emergencial evitou uma piora da desigualdade no País, ao elevar o rendimento médio dos brasileiros mais vulneráveis, mostram dados divulgados nesta sexta-feira, 19, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Mesmo com a ligeira melhora na distribuição de renda, a metade mais pobre da população sobrevivia com apenas R$ 453 mensais por pessoa no ano passado. Equivale a uma família formada por um casal e dois filhos que sobrevive com R$ 1.800 por mês. São cerca de 105 milhões de brasileiros vivendo com apenas R$ 15,10 por pessoa por dia, segundo os dados da Pnad Contínua – Rendimento de todas as fontes.

O quadro permaneceu mais grave no Norte e no Nordeste, mesmo com o alcance do auxílio emergencial pago pelo governo como forma de mitigar a crise causada pela covid-19. Os 50% mais pobres do Nordeste sobreviviam com R$ 10,03 diários por pessoa. No Norte, o valor ficou em R$ 10,83.

Extermínio de empregos

O rendimento médio mensal real domiciliar por pessoa, com o desemprego, foi de R$ 1.349 em 2020, uma queda de 4,3% em relação aos R$ 1.410 estimados em 2019. O auxílio emergencial permitiu, pelo menos temporariamente, que a renda média per capita recebida pela metade mais pobre da população brasileira crescesse 3,9% em relação a 2019. No topo da pirâmide, no 1% mais rico, houve perda de 9,4% em 2020 ante 2019.

“Todo mundo teve perda (na renda do trabalho), alguns mais, outros menos, mas você teve uma política social que segurou (os mais vulneráveis)”, disse Alessandra Scalioni Brito, analista do IBGE.

O pagamento do auxílio emergencial elevou a participação de programas de transferência de renda no orçamento das famílias, mas o extermínio de empregos reduziu a participação da renda do mercado de trabalho, enquanto as mortes causadas pela covid-19 entre os mais idosos e as dificuldades operacionais do INSS em conceder benefícios enxugaram a contribuição de aposentadorias e pensões para o sustento dos lares brasileiros.

Sob o choque da pandemia, a proporção de pessoas com rendimento do trabalho caiu de 44,3% do total de habitantes em 2019 para 40,1% em 2020. Os que recebiam outros tipos de rendimentos saltaram de 7,8% para 14,3% da população, impulsionados pelo Auxílio Emergencial. O grupo de pessoas que recebiam aposentadoria e pensão encolheu de 13% da população em 2019 para 12,4% em 2020. 

R$ 10,6 bilhões a menos

A pandemia retirou das famílias brasileiras R$ 10,6 bilhões em 2020, a despeito do reforço proveniente de medidas emergenciais de socorro financeiro à população, mostra o IBGE. A massa de rendimento médio mensal real domiciliar totalizou R$ 284,6 bilhões em 2020, ante um montante de R$ 295,2 bilhões em 2019.

Mais da metade (50,7%) desse bolo ficou concentrado no Sudeste, R$ 144,416 bilhões, embora tenha recuado 5,2% em relação ao ano anterior. Os aumentos na massa de renda no Norte foram de 3,6% (para R$ 16,437 bilhões) e no Nordeste foram de 1,4% (para R$ 50,989 bilhões), enquanto o Sul teve maior redução (-5,7%, para R$ 48,144 bilhões). No Centro-Oeste, a massa de rendimentos foi de R$ 24,612 bilhões, queda de 3,98%.

O índice de Gini do rendimento médio per capita –que mede a desigualdade, numa escala de 0 a 1, em que, quanto mais perto de 1 o resultado, maior é a concentração de renda – passou de 0,544 em 2019 para 0,524 em 2020. 

Em 2020, os 10% dos brasileiros mais ricos concentravam 41,6% da renda: R$ 118,4 bilhões nas mãos de pouco mais de 21 milhões de pessoas. Já os 21 milhões mais pobres detinham 0,9% de toda a soma de rendimentos, ou seja, dividiam R$ 2,56 bilhões. Os 41,6% nas mãos dos 10% mais ricos são comparáveis à soma de rendimentos dos 80% dos mais pobres (43,0% do total).

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Após revisão na metodologia, Pnad mostra população mais jovem e renda das famílias menor

Reponderação da série histórica do IBGE foi feita para corrigir eventuais distorções na coleta causadas pelas entrevistas remotas feitas durante a pandemia

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 10h10

RIO - Os dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) 2020 - Rendimento de Todas as Fontes já trazem a incorporação da reponderação da série histórica, que vinha sendo tratada nos últimos meses pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para corrigir eventuais distorções na coleta causadas pelas entrevistas remotas feitas durante a pandemia. Depois da revisão, os dados mostram uma população mais jovem e uma renda das famílias mais baixa que o estimado previamente.

O órgão anunciou anteriormente que divulgaria apenas em 30 de novembro a Pnad Contínua sob a nova ponderação, que calibra os resultados nacionais e ajusta os pesos das informações regionais conforme idade e sexo de informantes. 

Na ocasião, serão divulgados os resultados de indicadores do mercado de trabalho referentes ao trimestre encerrado em setembro, mas toda a série histórica da pesquisa, iniciada em 2012, será recalculada. Outros indicadores produzidos pelo órgão também serão afetados, como o Produto Interno Bruto (PIB) e a inflação oficial do País, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Segundo o IBGE, diante da necessidade de preservar as informações que serão conhecidas apenas na divulgação da Pnad Contínua, os microdados da Pnad Renda de 2020 não serão divulgados nesta sexta-feira, 19, excepcionalmente. O instituto vai divulgar essas informações também somente no dia 30 de novembro.

O IBGE já tratava os dados coletados pela Pnad Contínua, ajustando os resultados para o tamanho da população de cada unidade da federação. Agora, o instituto ajustará também as informações coletadas em relação à distribuição das pessoas por idade e sexo no total nacional, o que afeta o peso das repostas dos domicílios também regionalmente.

O órgão explica que o ajuste mitigará os problemas de vieses na coleta, que foram agravados pela interrupção de entrevistas presenciais durante a pandemia de covid-19, o que reduziu a taxa de aproveitamento da amostra. A coleta telefônica de dados sobre o mercado de trabalho no País aumentou a incidência de respostas de mulheres e idosos.

“Isso mitiga, não resolve”, explicou Luna Hidalgo, pesquisadora do IBGE. “É mais fácil eu entrevistar um idoso do que as pessoas que estão trabalhando no domicílio”, exemplificou.

Com a reponderação conforme sexo e faixas etárias da série histórica da Pnad Contínua: Rendimento de Todas as Fontes, a renda da família brasileira ficou menor do que era estimada. A renda média mensal domiciliar per capita de 2019 foi corrigida de R$ 1.451 para R$ 1.410, descendo a R$ 1.349 em 2020, sob impacto da pandemia.

A pesquisa estimava que, em 2019, a renda média mensal real - considerando quem tinha algum tipo de renda de qualquer fonte no domicílio - era de R$ 2.317, mas esse valor passou para R$ R$ 2.292. A renda média proveniente apenas do trabalho foi revista de R$ 2.383 para R$ 2.366.

Além disso, o País tem menos idosos e mais crianças do que os dados da Pnad estimavam. Na série antiga, 6,2% da população brasileira tinha até 4 anos de idade em 2019, mas o novo cálculo mostrou que essa fatia é de 7,0%. A parcela de crianças de 5 a 9 anos aumentou de 6,6% para 6,9%, e de 10 a 13 anos, de 5,5% para 5,7%.

No outro extremo etário, o total de habitantes de 50 a 59 anos foi reestimado de 12,4% da população para 11,2% em 2019. A população de 60 a 64 anos diminuiu de 4,9% para 4,3%, e a de 65 anos ou mais encolheu de 10,8% para 9,5% na revisão de dados.

“Reduzindo um pouco dos idosos, a gente vai ver que quem ganha aposentadoria tem um peso menor (no total da população)”, explicou Alessandra Scalioni Brito, analista do IBGE.

Antes da calibragem dos cálculos, a Pnad estimava que 14,7% dos brasileiros recebiam aposentadoria ou pensão em 2019, montante que foi corrigido para 13,0%. O porcentual de pessoas com algum tipo de rendimento, de qualquer fonte, foi revisto de 62,6% na série antiga para 61,5% na série nova.

Quanto ao mercado de trabalho, a fatia da população com alguma renda proveniente do trabalho em 2019 foi revista de 44,1% para 44,3%. Em 2020, esse total foi de 40,1%, devido ao choque provocado pela crise sanitária sobre o emprego.

A soma das pessoas com renda de outras fontes em 2019 foi revisada de 25,1% para 23,6%, subindo a 28,3% em 2020, sob impulso do pagamento do auxílio emergencial. 

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