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Perda do poder de compra dos brasileiros pode afetar a atividade econômica no 4º trimestre e em 2022

Quando a inflação ultrapassa os dois dígitos, deixa uma fatura amarga para os mais pobres

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 04h00

Acombinação de inflação mais acelerada e reajustes salariais aquém dos índices de preços ao consumidor, como reflexo de um mercado de trabalho ainda muito fraco, está levando os brasileiros a amargar uma perda de renda em velocidade espantosa.

Não à toa, os indicadores de vendas do varejo e de serviços registraram em setembro uma queda mais acentuada do que os analistas esperavam. Essa perda de renda pode afetar a atividade econômica neste quarto trimestre e em 2022.

Segundo o Salariômetro da Fipe, que acompanha os dissídios salariais no mercado de trabalho, o reajuste mediano resultante de acordos e convenções coletivas em setembro – apesar de nominalmente elevado, de 8,5% – ficou 1,9 ponto porcentual abaixo do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), maior perda nos últimos 12 meses.

Uma parcela de 67% dos reajustes com data-base em setembro ficou abaixo do INPC, e apenas 9,5% das negociações resultaram em ganhos reais. Ou seja, o mercado de trabalho ainda está operando num nível muito aquém para que os sindicatos de trabalhadores consigam negociar reajustes suficientes para compensar a perda no poder de compra.

Além disso, o repique da inflação tem sido tão intenso, que vem surpreendendo não somente o Banco Central, como também todos os analistas. No mais recente Relatório Trimestral de Inflação (RTI), o BC projetou alta de 0,45% para o IPCA em outubro. Mas a inflação para o mês foi mais do que o dobro: 1,25%, acumulando 10,67% em 12 meses.

Nos cálculos de Fernando Fenolio, economista-chefe da gestora WHG, a massa real ampliada no Brasil, somando as transferências com os auxílios emergenciais a todos os outros tipos de renda, como aposentadorias, deve sofrer uma contração de 11,3% neste ano, em razão da redução não somente do valor dos benefícios pagos em relação aos primeiros meses da pandemia, em 2020, mas principalmente pela aceleração rápida da inflação. Para 2022, ele projeta um crescimento de 1,7% dessa massa real ampliada.

“A poupança feita pelas pessoas durante a pandemia chegou a amenizar um pouco a mordida da inflação no bolso”, diz. “Mas, pensando no crescimento da economia em 2022, vemos o consumo afetado pela perda de renda via inflação elevada e crédito caro, com a alta maior dos juros.”

O que poderia suavizar esse cenário sombrio seria uma desaceleração da inflação, mas, quando ela ultrapassa os dois dígitos, essa tarefa fica bem difícil e deixa uma fatura amarga para os mais pobres. 

* COLUNISTA DO BROADCAST

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