Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Perda ‘secundária’ de renda torna luto pior, diz psicóloga

Embora a dor emocional com a morte de pessoas independa da renda, a perda de renda pode atrasar a recuperação de um luto

Vinícius Neder, O Estado de S. Paulo

15 de agosto de 2021 | 05h00

Os problemas financeiros são comuns entre as pessoas em luto por causa da covid-19, na experiência da psicóloga Samantha Mucci, professora do Departamento de Psiquiatria da Unifesp e coordenadora do Programa de Acolhimento ao Luto (Proalu). 

Desde o início da pandemia, o Proalu oferece, de forma voluntária, atendimento psicológico, tanto na capacitação de profissionais de saúde quanto no apoio direto a pessoas enlutadas. Entre os 376 pacientes já atendidos, há jovens que perdem os pais e se veem obrigados a buscar renda extra ou deixar os estudos; mulheres que não têm mais com quem deixar os filhos para trabalhar; e pessoas que perdem um ente querido de quem recebiam ajuda financeira.

Segundo a psicóloga, embora a dor emocional com a morte de pessoas queridas independa da renda, a “perda secundária” de ter de lidar com dificuldades financeiras pode tornar o luto ainda mais doloroso. 

No caso da escrevente Érica dos Santos Nhoque Tuma, de 41 anos, a crise já havia atingido em cheio sua família quando seu marido, Felipe, de 39 anos, ficou oito meses sem emprego, mas tudo piorou há pouco mais de um mês, quando ele pegou covid-19 e morreu. Érica, que já tinha cortado gastos, aceitado ajuda dos pais e buscado renda extra, vendendo ovos e máscaras na rua, viu-se sozinha com o filho de 2 anos. Só com o salário no cartório em que trabalha, em São Paulo, a renda caiu a um terço.

A família morava de aluguel no Jaraguá, zona norte da capital. Com a morte do marido, Érica não viu saída, a não ser mudar para a casa dos pais. “Sozinha, não ia conseguir manter uma criança e uma casa”, diz.

A morte de Sarah, mãe da estudante de psicologia Adriane Alves Costa, de 26 anos, vítima da covid-19 em março, também virou sua vida de cabeça para baixo. Ela tinha 41 anos, não trabalhava, mas cuidava de toda a estrutura financeira do lar, onde morava com o marido e três filhos. Adriane já tinha saído de casa, morava com o marido e a filha de três anos, mas contava com a mãe para tomar conta da neta enquanto trabalhava como atendente de telemarketing, em São Paulo.

A renda da casa da mãe dela era garantida pelo trabalho do padrasto, mas, sem Sarah, ele não conseguiu dar conta do sustento. Os três irmãos mais novos de Adriane foram morar com a família – dois com a avó, e o caçula com Adriane. Sem o apoio da mãe para cuidar da filha, com as creches ainda fechadas, Adriane deixou o emprego. “Sem trabalhar, não tem dinheiro para pagar a faculdade. Tive de parar”, afirma.

O sustento do lar ficou todo com o marido, que trabalha na indústria, e com a ajuda de custo dada pelo pai do irmão caçula. Além de gastar mais com alimentos, a família, que mora de aluguel em Cidade Tiradentes, na zona leste da capital, foi obrigada a interromper a construção da casa própria, para onde planejava se mudar.

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