Perdas da produção industrial têm se intensificado desde setembro, admite IBGE

Para analistas, o resultado da indústria, a deterioração da confiança, o menor crédito e o escândalo da Petrobrás tendem a fazer com que o PIB do primeiro trimestre seja negativo

Daniela Amorim, Maria Regina Silva, O Estado de S. Paulo

01 Abril 2015 | 11h01

RIO - O início de 2015 mantém o comportamento de menor produção que marca a indústria desde 2014, segundo André Macedo, gerente da Coordenação de Indústria do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A indústria está operando 10% abaixo do pico de produção registrado em junho de 2013. "Ou seja, desde junho de 2013, tem claramente uma trajetória descendente para a produção industrial", afirmou Macedo.

O pesquisador observa que, de setembro de 2014 até agora, houve um freio maior. A perda acumulada para o total da indústria foi de 3,8%. Houve apenas dois resultados ligeiramente positivos em seis meses. 

"Nesses últimos seis meses temos claramente um saldo bem negativo para o total da indústria", observou Macedo. "Isso significa que a gente esta num início de ano com produção menos intensa, ela está num patamar menor do que havia iniciado o ano de 2014. E esse comportamento é bastante disseminado", apontou. 

Segundo dados do IBGE, a produção da indústria recuou 9,1% em fevereiro em relação ao mesmo mês de 2014, a maior queda desde julho de 2009. Comparado a janeiro, o indicador caiu 0,9%.

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"São muitos fatores jogando contra (a recuperação) nos próximos meses" - o economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Alves de Melo
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PIB negativo. O desempenho desfavorável da produção industrial em fevereiro foi influenciado principalmente pela queda de bens de capital, avaliou o economista-chefe da Icatu Vanguarda, Rodrigo Alves de Melo. Segundo ele, o declínio nesta categoria corrobora o cenário macroeconômico atual de ajuste fiscal, de juros elevados, crédito apertado e confiança mais baixa, que está gerando menos investimentos. "Houve uma queda estúpida na comparação interanual (de 25,7%). Vários segmentos também tiveram recuo na margem", disse, citando como exemplo a retração de 0,4% de bens duráveis em fevereiro ante janeiro.

O economista observou que a queda no nível de confiança vem sendo disseminada por vários setores da economia, e não somente no industrial, que tende a continuar ruim. Neste ambiente, Alves de Melo não enxerga retomada do crescimento à frente. "O nível de estoque permanece relativamente elevado, em patamares não confortáveis. A confiança está baixa e acaba atrapalhando. Os bancos estão segurando mais o crédito, tem o escândalo da Petrobrás que também atrapalha a retomada do crescimento. Consequentemente deve ter um consumo menor por produtos industriais", disse. 

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"Um dos motivos importantes que motivaram a deterioração do quadro econômico no momento é a queda muito forte da confiança, sobretudo da indústria e consumidores" - sócia da consultoria Tendências, Alessandra Ribeiro
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Segundo ele, os dados da Produção Industrial Mensal (PIM) de fevereiro agregam uma chance grande de o Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre deste ano ficar no campo negativo. "São muitos fatores jogando contra (a recuperação) nos próximos meses", afirmou.

A queda da produção industrial de 0,9% em fevereiro na margem, após uma forte revisão da alta da atividade em janeiro, em base mensal, de 2% para 0,3%, em meio a uma conjuntura de piora de outros segmentos produtivos no início do ano, como construção civil, sinaliza que o PIB no primeiro trimestre deve cair perto de 2% ante o quarto trimestre de 2014, comentou Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria Tendências. 

"Um dos motivos importantes que motivaram a deterioração do quadro econômico no momento é a queda muito forte da confiança, sobretudo da indústria e consumidores", comentou. "Neste contexto, o PIB no ano pode ter uma queda próxima a 1,4%", destacou. 

Na avaliação da economista da CM Capital Markets, Jéssica Strasburg, os empresários industriais estão esperando para ver se o governo está "falando sério" com as medidas de ajuste fiscal. "Muitas das medidas de recomposição de impostos devolvem alguma competitividade para a indústria, ao igualar as condições dos setores. O governo está fazendo de tudo para recuperar a credibilidade e incentivar os investimentos, mas o empresário está esperando para ver antes de tomar alguma atitude", aponta. 

Jéssica diz que a CM Capital espera crescimento zero da produção industrial este ano, confiando na recuperação da confiança liderada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Por enquanto, o dado de fevereiro sozinho não deve fazer com que essa projeção seja alterada.

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