Perdas explicam reação do mercado à decisão de março

Nas últimas semanas, as discussões no mercado financeiro sobre o rumo da taxa básica de juros (Selic) atingiram um tom inédito desde que Henrique Meirelles assumiu a presidência do Banco Central (BC). Analistas em geral comedidos defenderam em alto e bom som uma elevação de pelo menos 0,75 ponto porcentual da taxa na reunião desta semana do Comitê de Política Monetária (Copom).

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Muitos também afirmaram publicamente que o BC errou ao não elevar a Selic no encontro de março. Por um momento, liberais ortodoxos característicos do mercado se assemelharam a sindicalistas e líderes empresariais quando pedem ao BC que reduza o juro a qualquer custo.

Em parte, a reação acalorada se explica por razões puramente econômicas: muitos especialistas realmente avaliam que o BC se atrasou para puxar a Selic e isso resultará em inflação mais alta nos próximos meses. Mas acreditar que isso, por si só, seja suficiente para provocar a quase histeria dos últimos dias soa ingênuo.

Segundo gente do próprio mercado, o tom acima do normal explica-se pelo fato de que muitas instituições (das maiores do País) perderam dinheiro - e fizeram seus clientes perder também - com a manutenção da Selic em 8,75% ao ano em março.

Obviamente, pela própria natureza do mercado, perder ou ganhar faz parte da rotina diária. Mas, desta vez, o prejuízo apurado por algumas casas teria sido realmente alto.

Nesse contexto, portanto, nada melhor do que encobrir a aposta equivocada com acusações de que o BC errou a mão e agiu de olho nas prováveis repercussões negativas que a elevação da Selic certamente trará para o quadro eleitoral. Não se deve esquecer que o próprio mercado estava dividido quanto à projeção para o juro na reunião de março do Copom. Metade dos analistas esperava manutenção e metade acreditava em alta.

Essa avaliação não exime de culpa o próprio BC, não pela decisão em si de manter a Selic, mas por ter se comunicado mal depois da reunião. A ata do encontro, por exemplo, pareceu justificar uma elevação da taxa que não houve. E o Relatório de Inflação, que saiu pouco depois, também provocou mais dúvidas do que certezas nos investidores.

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