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Perdidos em Shangywood

Mercado cinematográfico chinês está em forte expansão e atrai estúdios americanos

The Economist

22 de outubro de 2015 | 05h00

“Meu nome é O Futuro.” Assim diz, em mandarim, o heroico astronauta chinês que salva a vida do comediante americano Stephen Colbert num episódio recente de Late Show. O esquete, intitulado jocosamente “Pander Express” (jogo de palavras em que o verbo bajular, “to pander”, ocupa o lugar que, por metonímia, deveria caber a seu parônimo “panda”, o célebre ursídeo chinês), zomba dos estúdios de Hollywood, que, com puxa-saquismo deslavado, dispõem-se a modificar seus filmes para granjear a simpatia das autoridades chinesas.

Se os estúdios americanos estão desesperados por obter a sanção oficial de que precisam para lançar suas produções na China é porque o mercado cinematográfico chinês está bombando. De 2003 a 2010, a receita com a venda de ingressos cresceu a uma taxa anual média superior a 40%. Em 2012, o faturamento ultrapassou o do Japão, que até então ocupava o posto de segundo maior mercado cinematográfico do planeta. Estimativas indicam que as salas de cinema chinesas devem estar faturando US$ 10 bilhões anuais até 2017, aproximando-se dos Estados Unidos na disputa pela posição de maior mercado mundial.

Não surpreende, portanto, que as empresas de entretenimento ocidentais estejam investindo na China. No início do mês, a IMAX, especializada em salas com grandes telas, abriu o capital de sua unidade chinesa para financiar uma expansão ambiciosa. Em setembro, a Warner Brothers anunciou a formação de uma joint venture com o fundo de private equity e capital de risco China Media Capital (CMC) para produzir filmes mais afinados com o gosto dos chineses. O CMC também é dono de parte da Oriental Dream Works, empresa local que estabeleceu uma parceria com o estúdio americano DreamWorks para produzir o próximo filme da série Kung Fu Panda.

Seria prudente que Hollywood não se deixasse levar pelo canto da sereia. “O crescimento agregado dá a impressão de que o ouro jorra em cada esquina, mas a coisa não é assim tão fácil”, adverte Peter Shiao, da Orb Media, uma produtora e financiadora independente. As portas de entrada do mercado chinês para filmes estrangeiros são apenas duas: um sistema anual de cotas permite o lançamento de 34 grandes produções estrangeiras; e, mediante o pagamento de uma quantia fixa, as empresas chinesas também podem comprar os direitos de 30 a 40 produções estrangeiras menores por ano.

Como a distribuição dos filmes estrangeiros é controlada por estatais expostas a ingerências políticas, nem o relaxamento dessas cotas - que alguns rumores indicam estar nos planos do governo chinês - deve ajudar muito. Liu Cuiping, da empresa de pesquisas EntGroup, observa que as autoridades chinesas usam a programação dos lançamentos como importante ferramenta protecionista. Exemplo: em julho, mês em que as salas de cinema costumam estar cheias, não havia nenhuma grande produção de Hollywood em cartaz.

Para contornar esses obstáculos, as empresas estrangeiras estão investindo em “coproduções” com parceiros locais. Mas aí é a cultura chinesa que emperra as coisas, oferecendo dificuldades ainda maiores que a política do país. Clark Xu, do CMC, diz que “até agora ninguém descobriu a fórmula para criar histórias que funcionem tanto no Ocidente, como na China”. 

O gosto dos chineses também vem evoluindo rapidamente, com os consumidores mais jovens e os habitantes de cidades de médio porte agora abocanhando a maior fatia dos ingressos. “Não é só questão de dinheiro”, diz Gregory Ouanhon, da produtora e distribuidora Fundamental Films, de Xangai. Em sua opinião, os estúdios ocidentais estão finalmente se dando conta de como é difícil e demorado criar roteiros que satisfaçam tanto os censores, como os frequentadores de cinema chineses.

Inovação. Por outro lado, concorrentes locais, há muito vistos pelos figurões de Hollywood como um bando de provincianos cafonas, começam a pôr as mangas de fora. As produtoras chinesas estão investindo em novas tecnologias, aperfeiçoando seus talentos criativos e atraindo mais apoio financeiro. Grandes estúdios, como o Huayi Brothers Media e o Beijing Enlight Media agora produzem seus próprios sucessos de bilheteria. O filme Perdidos na Tailândia, road movie lançado pela Enlight em 2012, foi o primeiro filme chinês a alcançar a marca dos US$ 200 milhões em ingressos vendidos. A continuação Perdidos em Hong Kong, lançado no fim de setembro deste ano, faturou mais de US$ 100 milhões no fim de semana em que entrou em cartaz.

Das técnicas de criação de enredo à tecnologia de animação, a liderança dos estúdios de Hollywood ainda é folgada. Mas há uma área em que os chineses podem ultrapassá-los: modelos de negócio. Quando se trata da integração da internet com a comercialização de filmes, “a China dá um banho em Hollywood”, argumenta Shiao. Em sua opinião, as preocupações das empresas ocidentais com a venda de direitos para a TV paga e as vendas de DVDs - mercados que nunca deslancharam na China - restringe sua capacidade de inovação nessa área.

Livres dessas preocupações herdadas do passado, os estúdios chineses fazem experiências com modelos de negócios para desenvolver novas fontes de receita online e ampliar o envolvimento dos fãs nas mídias sociais. Os produtores da animação Rei Macaco: o Herói está de Volta recorreram a um esquema de financiamento coletivo por meio do aplicativo de mensagens chinês WeChat, prometendo incluir nos créditos do filme os nomes dos filhos dos investidores que contribuíssem com mais de 100 mil yuans (US$ 16 mil). Conseguiram captar assim mais de 7 milhões de yuans.

A internet também vem se tornando importante canal de distribuição. Todas as três maiores empresas da internet chinesa, Alibaba, Tencent e Baidu, investem no oferecimento de filmes online. Como nos Estados Unidos, a expectativa é que em alguns anos os serviços de streaming estejam gerando mais receitas que as bilheterias. Por sua vez, entre os frequentadores de cinema chineses é cada vez maior o número de jovens e adeptos da tecnologia: 63% dos ingressos são comprados online, frente a 13% nos Estados Unidos. Ainda que não encontre um pote de ouro na China, Hollywood pode descobrir por lá como vai ser o futuro do negócio cinematográfico global.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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