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Perguntas (e respostas) sobre a crise dentro da crise brasileira

Economistas explicam o momento do País e tentam até estimar quando, e se existirá, uma luz, no fim do túnel

Amilton Pinheiro, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2015 | 10h14

O sentimento do mercado não é apenas de crise. Mas da crise dentro da crise, o que significa um retrocesso da agenda econômica do País. Para tentar entender o que acontece com o País, o Estadão ouviu economistas e especialistas com o objetivo de mapear os principais problemas da nossa economia e perspectivas para o futuro. A avaliação geral não é das melhores. “Tivemos um retrocesso grave em nossa agenda econômica. Estamos novamente discutindo problemas que pareciam superados e adiamos a possibilidade de discutir nossas fragilidades estruturais”, sentencia Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos.

Para os economistas ouvidos pela reportagem do Estado, a situação de deterioração da economia se agravou ainda mais com a crise política (dificuldade do governo em aprovar o pacote de ajuste, considerado por eles insuficiente, junto a um Congresso cada vez menos propenso a contribuir). “Na realidade, a situação é bastante crítica, pois temos um governo com baixíssima popularidade e reduzido apoio da base aliada. Além disso, é um governo com baixa credibilidade. Ou seja, temos um governo que não tem condições de implementar uma agenda necessária para impactar positivamente a confiança dos agentes econômicos”, explica Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e política da Tendências Consultoria Integrada.

E a projeção dos indicadores da economia para os dois próximos anos não são animadoras. Pelo contrário, revela que o remédio do ajuste será bem amargo. As consequências da crise atual podem trazer de volta o triste legado de mais uma década perdida, como a que tivemos nos anos 1980. “Estamos com queda de PIB este ano de 2,5% e queda de 1,4% ano que vem, com crescimento modesto de 0,6% em 2017”, projeta o economista Sérgio Vale, da MB Associados. E indagado quando sairemos da crise, Vale ironiza. “Só sairemos da crise quando a presidente sair da crise.”

Indicadores econômicos da crise

Quais são os indicadores hoje mais frágeis da economia brasileira?

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados: "Há fragilidade em praticamente todos os indicadores. Os mais preocupantes nesse momento são os da área fiscal, em que o governo não conseguiu sinalizar um ajuste efetivo, o nível de atividade, que caminha para um terceiro ano de recessão, e atrelado a isso uma piora inédita no mercado de trabalho, que ajudará na rapidez do ajuste, mas aprofundará as perdas no consumo."

Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos: "É mais fácil responder os que estão menos frágeis. E aqui as contas externas são o destaque: reservas internacionais elevadas e a melhora em curso do déficit em transações correntes, em função da depreciação cambial e da recessão. Mas eles não são suficientes para compensar a fragilidade dos demais indicadores econômicos e do quadro político e, assim, dar segurança aos agentes econômicos. O ponto principal é identificar qual a raiz da fragilidade dos indicadores econômicos. E a resposta é a crise fiscal. A política fiscal dos últimos anos é a grande responsável pelo quadro inflacionário, a recessão e a piora da dinâmica da dívida pública."

O pacote que o governo federal divulgou será suficiente para sairmos da crise?

Sérgio Vale, Economista-chefe da MB Associados: "Não, pois chegamos a um ponto que medidas cosméticas não são suficientes. O pacote como foi posto mostra a fraqueza do Ministro da Fazenda (Joaquim Levy), a força do real triunvirato (Dilma-Mercadante-Barbosa), que prefere aumento de imposto a corte de gastos, justamente o contrário do que seria adequado hoje. O problema é que o governo não tem força para implementar medidas estruturais mais relevantes.

Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e política da Tendências Consultoria Integrada: "O pacote fiscal anunciado para reequilibrar o orçamento de 2016 não é suficiente. Não só porque não lida com questões estruturais como o crescente déficit da previdência como também pelo fato de que parte importante da receita esperada para reduzir o déficit em 2016 depende de aprovação do Congresso, como é o caso da CPMF. Ou seja, os riscos envolvidos são elevados no sentido de o pacote, em boa medida, não sair do papel."

Quais foram os erros mais graves cometidos pelo governo da Dilma no primeiro mandato?

Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e política da Tendências Consultoria Integrada: "O principal erro foi a alteração da política econômica. A implementação da Nova Matriz Econômica gerou diversos desequilíbrios na economia como inflação alta, déficit primário, déficit em transações correntes e distorções de preços relativos que estão cobrando seu preço desde o ano passado. Neste início de segundo mandato, com a nomeação de Levy, a presidente está tentando reverter parte dos desequilíbrios gerados. Mas a junção de ajuste de política econômica, Lava Jato e crise política têm tornado o cenário econômico bem mais dramático do que qualquer um poderia antecipar."

Carlos Eduardo Gonçalves, professor licenciado da USP: "O governo reagiu bem e rapidamente a crise de 2009: cortou juros e expandiu a política fiscal. Mas daí em diante as coisas perderam o rumo. Quando a economia já voltava a firmar pé e a inflação iniciava sua trajetória de alta, o governo foi imprudente e não retirou os estímulos a economia, isso em 2010, ano de eleições. Ao assumir o poder, Dilma fez o que devia, apertou os cintos. A inflação iniciava então sua convergência à meta quando, sem mais nem porque, os arautos da “Nova Matriz” passaram a ditar a política econômica com base na crença de que qualquer deficiência de crescimento pode ser sanada via impulso de demanda.

Medidas para superar a crise

Quais medidas o governo precisa ainda tomar para sinalizar algo positivo para o mercado?

Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e política da Tendências Consultoria Integrada: "Na realidade, a situação é bastante crítica, pois temos  um governo com baixíssima popularidade e reduzido apoio da base aliada. Além disso, é um governo com baixa credibilidade. Ou seja, temos um governo que não tem condições de implementar uma agenda necessária para impactar positivamente a confiança dos agentes econômicos. O que está no radar do possível seria o governo recuperar um mínimo de apoio político para conseguir implementar algumas medidas para evitar a sangria fiscal. Desta forma, já poderíamos observar alguma acomodação em confiança."

Carlos Eduardo Gonçalves, professor licenciado da USP: "A crise atual é muito virulenta para o padrão dos últimos 20 anos. A formação bruta de capital fixo cai faz dois anos, seguidamente, trimestre atrás de trimestre! Pior: as crises do passado sempre geraram algum 'momentum' político com vistas a equacioná-las, enquanto que agora, a fragmentação política encontra-se nos píncaros, tornando o retorno a normalidade mais desafiador.

Parte do agravamento dessa crise econômica vem sendo contaminada pelas questões políticas, de que maneira isso dificulta a superação da crise nos próximos anos?

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados: Dificulta em 100%. A solução, mesmo que parcial, só virá com a mudança radical do cenário político. Ou a presidente muda de verdade e acata as opções que [Joaquim] Levy tem ou sua situação política poderá chegar a um ponto incontornável.

Alessandra Ribeiro, diretora de macroeconomia e política da Tendências Consultoria Integrada: O ambiente político é central para o cenário econômico no próximo ano. O risco de interrupção de mandato limita ainda mais o espaço para implementação da agenda econômica necessária. Neste sentido, se tivermos alguma recuperação de apoio político que viabilize a implementação da agenda do planalto, as chances de recuperação do PIB para 2017 se elevam."

Quando sairemos da crise?

Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados: "Só sairemos da crise quando a presidente sair da crise. Ela tem que mudar rapidamente suas escolhas para que seu governo comece de verdade. Só sabemos que não dá para acreditar que haverá espaço para continuar nessa trajetória."

Carlos Eduardo Gonçalves, professor licenciado da USP: "Creio que a crise vai se prolongar por conta da incapacidade de articulação do governo, e da baixíssima popularidade da Presidente que a enfraquece perante o Congresso. Isso torna qualquer tentativa de reforma extremamente custosa. Para piorar, o cenário externo que tanto nos ajudou por vários anos -- preços de commodities altos e juros externos baixíssimos -- começa a mudar de feição. Com China perdendo fôlego estrutural e economia norte-americana retornando a normalidade, o que temos pela frente é fraqueza na demanda por nossas commodities e custos de financiamento mais elevados. Se não tivesse desviado curso em 2012, estaríamos agora com maior capacidade de fazer frente à crise que agora sim chega nas nossas praias.

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