Períodos de volatilidade no mercado são para investidores profissionais

O que o sr. acha de investir em ações neste momento de turbulência econômica mundial?

Fábio Gallo, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2010 | 00h00

A grande dica que sempre nos dão sobre investimentos em ações é comprar na baixa e vender na alta. Todos sabem disso. O problema é saber quando a ação está na baixa e quando está no topo. Isso ninguém diz, mesmo em períodos de reconhecida tendência do mercado. Em momentos de turbulência, é ainda mais difícil estimar. Quando a volatilidade é muito alta, os perigos de comprarmos na mão errada aumentam e é preciso muito sangue frio para suportar as subidas e as descidas dos preços das ações. Apenas a título de ilustração, em setembro do ano passado, um momento de baixa, o Índice Bovespa estava em 55.814 pontos. No início de 2010, estava acima dos 70 mil pontos, alta de 25,5% no período. De lá para cá, teve altas e baixas. Em abril, por exemplo, perdeu 3,6%. Na semana passada, acumulava perdas no ano de mais de 15%. Haja coração! Devemos pensar em investimento nesse mercado sempre com perspectivas de longo prazo. Não podemos esquecer a recomendação de diversificação da carteira. Nunca acreditar em dicas vindas das baias. Especulação é para quem tem muito conhecimento de investimentos e tempo de acompanhar todas as notícias e movimentos de mercado. Momentos de alta volatilidade são para profissionais.

Seria possível o sr. nos ensinar a fazer o cálculo de aplicações em CDB corrigidas por um porcentual do CDI, de modo que se possa chegar ao mesmo valor apresentado pelo banco?

Os cálculos envolvidos nas aplicações financeiras, no geral, não são difíceis, mas envolvem certo conhecimento de matemática. Devemos ter conhecimento sobre temas como juros compostos com base em dias úteis e "produtório DI do período", entre outros. Mas vou tentar simplificar um pouco para o leitor e deixá-lo mais à vontade nesse tipo de aplicação. A informação sobre a variação do CDI (Certificado de Depósito Interbancário, taxa de juros de referência do mercado) pode ser encontrada no site da Cetip (balcão organizado de ativos e derivativos). A porcentagem oferecida pelo banco no ato da negociação deve ser aplicada sobre a variação do CDI (ex: 98% do CDI). O resultado dessa conta deve aplicado sobre o valor investido. Assim, será obtido o valor bruto com o rendimento. Sobre o ganho bruto (valor bruto menos o valor aplicado) haverá incidência do Imposto de Renda, que depende do prazo de aplicação, conforme tabela: até 180 dias, IR de 22,5% ao ano; de 181 dias até 360 dias, 20%; de 361 dias até 720 dias, 17,5%; e acima de 721 dias, 15%. O problema, na maioria das vezes que realizamos os cálculos em simuladores, é que esses trabalham com algumas premissas. Quando da efetiva aplicação do dinheiro, o resultado será considerado levando em conta exatamente o número de dias úteis bancários, ou seja, somente ocorrerão rendimentos nos dias de compensação bancária, além da redução de valor em virtude do IR. A dica é solicitar que o banco lhe forneça os dados e valores (brutos e líquidos), mencionando exatamente quantos dias úteis foram considerados. Assim, o leitor poderá conferir os cálculos.

Tenho 60 anos e estou me aposentando. Consegui fazer uma boa reserva financeira ao longo desses anos em PGBL, VGBL, fundos, CDB, etc. Esse total monta aproximadamente R$ 9 milhões. Considerando que eu não tenha mais renda a partir de agora e retire cerca de R$ 30mil/mês, como fica minha poupança ao longo dos anos?

Esse leitor é um exemplo de quem teve oportunidade de poupar e ser bem sucedido. Afinal, o montante que tem hoje é bastante considerável e permite que aproveite a vida de aposentado muito melhor do que a maioria. No caso da manutenção dos R$ 9 milhões aplicados e seja obtida uma taxa líquida próxima a 0,4% ao mês, o ganho líquido mensal será superior a retirada prevista e ele terá dinheiro por uma eternidade. Mesmo que a taxa líquida fosse de 0,3% ao mês, esse dinheirão todo ainda permitiria a retirada de R$ 30 mil por algo como 50 anos. O que é acima de qualquer expectativa de vida. As tabelas para cálculos atuariais usadas pelos planos de previdência abertos ou fechados brasileiros consideram que, para pessoas com 60 anos, a expectativa de vida adicional vai de 18 a 23 anos. Mas sempre vale o alerta de que esses cálculos são simulações e vários fatores podem afetar os valores encontrados.

FÁBIO GALLO É PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV E DA PUC-SP

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