ALEX SILVA|ESTADÃO
Nadja Lopes cansou de esperar os clientes sentada ALEX SILVA|ESTADÃO

Pernambuco foi do boom ao caos em cinco anos

Setor de petróleo e gás e estaleiros naufragaram, engolidos pela Lava Jato; Aedes aegypti ajudou a nocautear o Estado

Alexa Salomão / TEXTOS Alex Silva / FOTOS ENVIADOS ESPECIAIS / RECIFE, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 18h00

A crise econômica, que já se revela a mais severa da história do País, não poupa ninguém, mas em poucos lugares ela se materializa de forma tão clara e dramática como em Pernambuco. Por qualquer aspecto que se olhe, o Estado foi do apogeu ao fundo do poço com uma veemência e uma velocidade poucas vezes vistas.

Por lá, as vendas do varejo acumulam retração de quase 10% em 12 meses, mais que o dobro da média nacional. Nesse início de ano, a produção industrial sofreu um tombo de 26% em relação ao ano anterior, puxado pelas indústrias de alimentos, em especial de açúcar e laticínios, que penam com a seca. O desemprego na capital, Recife, já atinge mais de 10% da população.

O cenário no longo prazo também se deteriorou. Projetos na área de petróleo e gás, que prometiam mudar o perfil da economia local, naufragaram em denúncias de corrupção na Operação Lava Jato. Grandes obras do PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento, que criariam um novo patamar para infraestrutura local, estão praticamente paralisadas à espera de recursos federais. “A economia de Pernambuco está tendo uma crise mais aguda porque sofre em duas pontas: o setor mais tradicional, a indústria de alimentos, sofre com a seca, e setores novos, ligados a cadeia de petróleo, tiveram um baque”, diz o professor João Policarpo Lima, da Universidade Federal de Pernambuco, que pesquisa o desenvolvimento local.

Para arrematar, o nocaute da economia pernambucana tem um ingrediente particular: epidemias de viroses transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, que aumentam os custos com a saúde pública e as perdas no setor privado. Entre 144 das maiores indústrias pernambucanas, que participaram de uma pesquisa sobre os impactos do mosquito, 114 registraram afastamentos neste ano por causa de doenças do Aedes e 42% relataram queda na produção pela ausência prolongada de funcionários.

O comerciante José Josafar de Spindola, 46 anos, resume a situação em seu Estado: “Pernambuco está desmantelada pela crise econômica, pela corrupção dos políticos, pela violência – o que você ganha aqui, o ladrão te toma alia na frente – e ainda veio essa tal de zika, o chikungunya. Minha mulher está com chikungunya e não consegue sair da cama”. Spindola tem um ponto no Moda Center Santa Cruz, o maior centro atacadista de confecções do Brasil, localizado em Santa Cruz do Capibaribe. O local reúne mais de 10 mil pontos comerciais, entre boxes e lojas, onde são comercializadas peças no atacado e no varejo. Nos períodos de pico, recebe mais de 150 mil clientes por semana. Até o início do ano, era uma espécie de ultimo bastião contra a crise que se alastrava pelo Estado. Era.

Resistência vencida. A cadeia de confecções e jeans de Pernambuco é um dos segmentos mais tradicionais e resistentes a crises. Encravada num cinturão formado pelos municípios de Caruaru, Toritama e Santa Cruz do Capibaribe, no Agreste, manteve-se em expansão até nos anos de dólar favorável a importações da China. O trunfo: seus produtos, fabricados localmente, são muito baratos e abastecem pequenas lojas voltadas a consumidores de baixa renda no Norte, Nordeste e até do Sudeste. A maior parte da produção é vendida em grandes feiras populares, que reúnem desde os fabricantes até representantes de pequenas confecções que apenas finalizam partes das peças ou revendem os produtos acabados.

O melhor dia para as vendas é a segunda-feira, justamente quando a reportagem do Estado visitou as feiras. No Moda Center, o que mais se viam eram rodinhas de lojistas batendo papo. “Agora fica assim direto”, diz a lojista Danielle Santos, mostrando os corredores vazios. “Hoje só vendi no ‘pingado’, para um ou outro, não veio nenhum lojista.” Danielle comercializa especialmente jeans. Negocia e fecha pessoalmente o pedido de cada item e manda para os ateliês de costuras montarem. Ela sentiu o aumento no preço dos aviamentos que importa dos chineses, o impacto do custo do jeans, que precisa ser lavado com água de carro-pipa, pois a região, está sob racionamento, agora se preocupa com o sumiço dos clientes e vai se adequando. Hoje, tem quatro boxes no Moda Center e uma loja em Surubim, cidade próxima: “Tinha outra loja em Toritama, mas fechei; os pedidos não venciam”.

“As pessoas não têm dinheiro”, diz Maria Helena Lima. Dono de um ônibus, ela ganha a vida transportando sacoleiros de Manaus para feiras no Nordeste. “Viajava toda semana e o ônibus lotava de tal maneira que tinha gente que pagava para ir no corredor”, diz ela. “Agora é uma viagem por mês e, nesse ônibus que estamos, apenas 12 dos 48 lugares têm passageiro.” Nos espaços vagos, ela empilha sacos de mercadoria que lojistas encomendam por telefone. “Cobro R$ 1,70 o quilo transportado, é o que salva”, diz.

Na vizinha Caruaru, a situação parece mais preocupante ainda. No parque de exposição local ocorre a Sulanca, a feira mais tradicional do setor, que deu origem a todas as outras. A falta de gente é tamanha que os carregadores e comerciantes não esperam os clientes sentados, como diz o dito popular: esperam deitados. “A queda dos clientes é grande e a gente não tem o que fazer”, diz Nadja Lopes, espichada sobre a barraca que divide com a mãe, Maria de Lourdes Lopes. “Eu vendo aventais, uma coisa baratinha, mas até nisso as pessoas estão segurando”, diz Maria de Lourdes.

Nem os artesãos, com seus tradicionais produtos em barro, palha e madeira, saem ilesos. “Estou tendo queda nas vendas até no Sudeste, onde tenho clientes em Embu das Artes e litoral paulista. Lá a queda foi feia, de uns 40% do ano passado para cá”, diz o empresário e artesão Wesley Oliveira.

O que mais preocupa quem acompanha de perto a crise local é que os dados com o desempenho da economia não param de piorar. “O ano passado já não tinha sido bom, mas as quedas retratadas nos indicadores que estamos vendo agora são tão acentuadas que já acho que vamos ter saudades de 2015”, diz o economista Tobias Silva, da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe). Quando recebeu os dados do IBGE sobre Pernambuco neste mês de abril, Silva ficou tão espantado com a retração que chegou a perguntar ao funcionário responsável pela coleta dos dados se os números estavam corretos. “No mês anterior eu já tinha ficado assustado e os números continuaram caindo.”

Uma das maiores preocupações de Silva é entender por que estão em franca queda dois setores básicos da economia local, alimentos e bebidas. No Estado onde o verão dura quase o ano interior e as praias atraem turistas do mundo, a produção de cerveja e chope vem caindo há 13 meses. A indústria de alimentos, por sua vez, teve retração de 44% em fevereiro, o último dado disponível. “É uma queda muito forte, que não se explica apenas pelo açúcar e precisa ser investigada melhor para entendermos o que está acontecendo”, diz Silva. Boa parte da queda é puxada pelo setor de açúcar, mas Silva teme que esteja havendo uma retração generalizada no consumo da classe C em todo o Nordeste. “Pernambuco é uma espécie de ‘hub’ da produção de alimentos para a baixa renda, abastecendo vários Estados da região – se a produção está despencando aqui, pode ser que esteja sendo arrastada por uma retração regional mais forte do que imaginamos”, diz Silva. É esperar para ver.

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Receita do estado tem queda de 6,6% e dívida vai a R$ 16 bi

Como ocorre com a maioria dos Estados, as finanças públicas de Pernambuco sofrem duplamente. “De um lado, a arrecadação segue em queda, de outro, a alta de juros e a variação cambial pressionaram a dívida”, diz a economista Vilma da Conceição Pinto, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).</p>

Alexa Salomão / TEXTOS Alex Silva / FOTOS ENVIADOS ESPECIAIS / RECIFE, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 17h59

Vilma realizou um amplo levantamento sobre a situação das receitas, das despesas e das dívidas estaduais e identificou um detalhe a mais: “Pernambuco ainda tem uma dependência importante em relação a transferências, então, o Estado também sofre quando há queda na arrecadação da União, como é o caso agora”, diz. Pelo levantamento de Vilma, quase 40% das receitas – fatia que soma mais de R$ 8 bilhões – são receitas de repasses do governo federal. Em relação a 2014, isso representou uma perda de praticamente R$ 1 bilhão em transferências.

No que se refere à arrecadação própria, os sinais são igualmente ruins. Pernambuco é muito dependente de um único tributo, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). Sozinho ele responde por 46% da receita. Em 2015, essa receita vital oscilou muito. Teve meses de picos que compensaram os meses de retração e, ao final, o ano até fechou com um crescimento, mas essa alta foi de apenas 1,5% nominal – bem abaixo da inflação oficial do período, de 10,7%, medida pelo Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA).

Para piorar a situação, desde setembro do ano passado, a arrecadação do ICMS engrenou uma queda que não dá sinais de recuperação. Pelo contrário. Segundo dados da própria Secretaria de Fazenda do Estado (Sefaz-PE), entre janeiro e fevereiro deste ano, os cofres públicos deixaram de receber R$ 330 milhões. Trata-se de uma queda de 6,6% na receita orçamentária do Estado em relação a igual período do ano anterior. No mesmo período, a receita com o ICMS caiu 4,5%, o que “antecipa um ano de crise ainda mais profunda que 2015”, diz nota da Sefaz enviada ao Estado.

O governo estadual apertou o cinto e conseguiu algum alívio no ano passado: cortou R$ 1,5 bilhão. Metade da contenção foi feita com redução de gastos na área administrativa. “Mas a maior parte da redução das despesas, como ocorreu em todos os Estados, foi feita com corte de investimento”, diz Vilma.

Dívidas. No que se refere à dívida, os dados do Tesouro Nacional, avaliados por Vilma, indicam que a situação é igualmente complicada. Boa parte dela é especialmente sensível a uma variável imprevisível, o câmbio. Dos R$ 16,3 bilhões em dívidas, ao fim de 2015, quase metade, cerca de R$ 7, 4 bilhões, estavam em moeda estrangeira.

A dívida interna, por sua vez, foi pressionada pela alta da taxa básica de juros e, no momento, não há sinais de alívio. O pacote de socorro do governo federal para dar fôlego aos Estados tende a ser inexpressivo por lá. A Sefaz informou que o saldo devedor com a União é cerca de R$ 3 bilhões. A previsão é que neste ano será preciso pagar cerca de R$ 300 milhões de juros e amortização. A proposta de alongamento do governo federal reduziria o valor para R$ 140 milhões, “um pequeno alívio para os cofres do Estado”, informou a nota da Sefaz. “A proposta é bem mais relevante para os Estados com alto nível de endividamento, o que não é o caso de Pernambuco”, diz a nota. Segundo Vilma, de fato o nível de endividamento de Pernambuco é baixo. “O problema não é de estoque, mas de fluxo de recursos para pagar”, diz Vilma.

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Mosquito e crise pressionam gastos com saúde

O Hospital da Restauração, em Recife, tem números superlativos. Trata-se da maior instituição hospitalar das regiões Norte e Nordeste. Tem 830 leitos. Realiza mais de 1 milhão de atendimentos ambulatoriais por ano. Entre 2011 e 2013, seu faturamento aumentou de R$ 3,2 milhões para R$ 9 milhões, com a ampliação de atendimentos mais complexos. Mas a demanda avança numa velocidade muito maior. Pelo porte, tornou-se refúgio de famílias que estão perdendo emprego e, junto, os planos de saúde. Houve aumento de 20% no atendimento, com pressão sobre os custos, que não é coberta na mesma velocidade pelos repasses da União e do Estado, ainda mais num momento de queda expressiva de arrecadação.</p>

Alexa Salomão / TEXTOS Alex Silva / FOTOS ENVIADOS ESPECIAIS / RECIFE, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 17h59

“Desde 2014, estamos com déficit – o ano vira e são 20% no vermelho – e não conseguiremos sair dele em 2016, o que é muito ruim, porque até os processos licitatórios têm pregões desertos, por falta de interesse dos fornecedores que temem não receber”, diz Miguel Arcanjo dos Santos Júnior, diretor do HR. “Seria preciso um aumento de 50% no volume de recursos para a instituição respirar.”

Como se não bastasse os efeitos da crise econômica, Pernambuco pena com uma crise sanitária. Foi acometida por surtos de novas viroses transmitias pelo Aedes aegypti. A tradução, ao pé da letra, para o nome do mosquito é “odioso do Egito”. Há quem o chame, logo de uma vez, de praga do Egito, numa alusão direta aos estragos que a criatura é capaz de produzir desde a sua identificação no século 18. Foi o transmissor de epidemias de febre amarela, por exemplo.

No Nordeste, mais especialmente em Pernambuco, ele passou a transmitir a zika. Na África, onde se originou, a virose tem sintomas leves. No Brasil, porém, proliferou uma variante mais agressiva do vírus, em especial para os fetos durante a gestação, provocando microcefalia nos bebês. Cerca de 75% dos casos confirmados de microcefalia por zika estão em Pernambuco.

A pediatra Danielle Cruz, coordenadora do Laboratório de Microcefalia do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, consegue fazer de cabeça o quadro de especialistas que será preciso reforçar o atendimento das crianças com microcefalia: neurologista, fonoaudiólogo, oculistas, fisioterapeuta, ortopedista, nutricionista, dentista e, isso, claro, sem falar nos equipamentos para exames e remédios. Muitos remédios. Alguns com valores inacessíveis para boa parte dos pais dessas crianças. Um exemplo. À medida que os bebês estão crescendo, passam a ter convulsões. Um dos remédios utilizados no tratamento é o Sabril, cuja caixa com 60 comprimidos custa cerca de R$ 280.

Aperto. A alta dos gastos precisa ser acomodada num orçamento apertado. Os recursos para a Saúde no Estado, neste ano, somam R$ 4,1 bilhões. Pernambuco negociou com o governo federal para que, ao contrário do que ocorreu em outros Estados, não tivesse corte nos repasses. Emergencialmente, conseguiu um repasse de R$ 2,2 mil para cada caso de criança notificada com microcefalia. Houve também a contratação de 2.560 novos médicos, de diversas especialidades para fortalecer atendimento. “Nossa maior preocupação agora é com a Chikungunya: não pode faltar medicação para dor”, diz Cristina Mota, secretária de Atenção à Saúde.

Chikungunya é o surto do momento. Tem mais de 15 mil casos notificados. O nome é autoexplicativo no idioma de origem. Significa “aqueles que se dobram”. Provoca fortes dores nas articulações, que podem persistir por um, dois anos. Os doentes permanecem semanas de cama. Para piorar, em alguns, o sistema imunológico, na tentativa de se defender o corpo da doença, ataca as terminações nervosas, fazendo que a doença evolua para outra enfermidade, a Síndrome de Guillain-Barré, que pode levar à paralisia dos membros e da face. Em 2014, foram 45 pacientes com Guillain-Barré. Em 2015, mais que dobrou, indo a 105 casos. Apenas no primeiro trimestre já foram mais 45 casos. O tratamento por paciente prevê aplicações de imunoglobulina durante uma semana, ao custo de R$ 26 mil, cobertos pelo SUS. Segundo a médica Maria Lúcia Brito, chefe do Setor de Neurologia do HR, que até este mês concentrou o atendimento à doença, a tendência dos custos é aumentar: “Não param de chegar pacientes”, diz ela.

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Taxa de desemprego dobrou em apenas quatro anos

Shirley Moraes trabalhava há três anos como consultora de negócios na empresa de telefonia TIM, em Recife. Há um mês, foi demitida. Já enviou currículos para vários sites de emprego e, por ter curso superior em Marketing e experiência na área, espera ser chamada em breve. Ainda assim, por precaução, começou a cortar despesas. Passou para uma academia de ginástica mais barata. Já pensa que, em caso de aperto, pode vender o segundo veículo da família, que ainda está sendo pago, e ficar apenas com o que já está quitado. Em último caso, vai tirar o filho da creche particular, que custa R$ 750 por mês. Ela tem vários parentes e amigos sem emprego. Como se fosse da noite para o dia, o mercado de trabalho simplesmente virou. “Muitas pessoas estão sendo demitidas. Na minha empresa, disseram que foi por causa de uma reestruturação organizacional, mas acho que foi por causa da crise mesmo.”</p>

Alexa Salomão / TEXTOS Alex Silva / FOTOS ENVIADOS ESPECIAIS / RECIFE, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2016 | 17h59

A desconfiança de Shirley tende a ter fundamento. Na Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do mês passado, com dados até fevereiro, o desemprego na região metropolitana do Recife foi a 10,4%. Por diferentes razões, o número é impressionante. Primeiro, porque está acima da média das seis regiões pesquisadas, que ficou em 8,2%. Segundo, por ser a segunda maior taxa na pesquisa. Só perdeu para Salvador. Terceiro, porque a taxa simplesmente dobrou em apenas quatro anos. Em 2012, bateu em 5,1%, o patamar mais baixo para a região do Recife desde o início da PME. Era o pleno emprego e havia um apagão de mão obra no Estado. A PME foi extinta pelo IBGE no mês passado, mas ela permite a comparação histórica.

Naquele momento, o Nordeste, de forma geral, e Pernambuco, em particular, viviam um boom de investimentos. Em 2011, a estimativa era que até 2015 Pernambuco sozinho receberia algo como R$ 55 bilhões em investimentos. Empresas locais se queixavam da falta de profissionais qualificados nas mais diversas áreas.

Crise. Como bem percebeu Shirley, houve uma inversão. Segundo o diretor de políticas sociais da CUT em Pernambuco e secretário nacional da central, Expedito Solaney, sobram pessoas e faltam vagas. “Já vimos a queda no setor da construção, na indústria e agora estamos assistindo ao fechamento de postos no comércio e em call centers, que servem de primeiro emprego e ocupam trabalhadores com formação mais básica”, diz. “Mas também houve o fechamento de agências bancárias e há gente sem trabalho com MBA e especialização em finanças.” Solaney atribui a degringolada a erros na política econômica. “O ano de 2015 começou com a luz amarela, porque havia sinais de retração, e terminou com a vermelha no mercado de trabalho”, avalia. “O segundo mandato de Dilma era para ser o momento da virada, de o Estado entrar induzindo a economia para gerar emprego, mas começou errado e nada foi feito.”

Pesa também, na opinião de Solaney, o clima político. A insegurança criada em relação à permanência do atual governo paralisou os investimentos em todo o País: “Espalhou o marasmo”. Com a solução do impasse em Brasília, ele acredita que o cenário melhora.

O contador Alexandre Aguiar, que perdeu o emprego no comércio, já não tem a mesma certeza. “Eu vejo pessoas de todas as classes sociais sendo demitidas, sem dinheiro ou expectativa de encontrar um novo emprego, porque as vagas são fechadas sem que outras surjam”, diz. Enquanto faz bicos, em casa mesmo, passa o pente fino nas contas: o plano do celular, a internet e até a cesta de compras no supermercado foram reavaliados. “Voltei a olhar o preço de cada produto até na feira, coisa que eu não fazia mais”, diz. Sua prioridade neste ano foi garantir o colégio particular do filho: “Quitei o ano e, lá na frente, em 2017, se não melhorar, eu vejo o que faço”.

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