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Pernoite na minha casa

Crises da economia são cemitérios de empresas? Pode ser o contrário.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2016 | 03h00

É em plena crise, como a de agora, que certos modelos de negócio nascem ou ganham mais impulso. Este é o caso da plataforma Airbnb, que conecta pela internet usuários cadastrados em 191 países para aluguel de quartos, apartamentos e casas de temporada.

Criada em 2008, no auge da crise mundial, a plataforma norte-americana reúne hoje mais de 2 milhões de ofertas de acomodação em todo o mundo. Esse novo jeito de contratar esquemas de hospedagem vem revolucionando o turismo e, como era de esperar, está sendo questionado pelo setor hoteleiro, por aí e por aqui.

Além disso, tem sido regulamentada de diferentes maneiras nas cidades onde ganha notoriedade e densidade.

No Brasil, ganhou espaço pelo empurrão dado pela Copa do Mundo em 2014 e pela promoção dos Jogos Olímpicos deste ano – evento para o qual foi oficialmente chamada a prover acomodações alternativas. Mas não é só isso, a crise vem sendo fator crucial para explicar o sucesso da plataforma por aqui, como observa o diretor-geral do Airbnb do Brasil, Leonardo Tristão. Tanto pelo lado dos proprietários, que buscam novas fontes de renda, como do lado dos viajantes, que procuram acomodações cujos preços caibam em seu orçamento.

Quem tinha um quarto dando sopa em casa ou um apartamento com pouco uso viu aí uma oportunidade de conseguir acertar as contas no fim do mês. As pessoas aceitam abrir suas portas para estranhos ou se hospedar na casa de quem nunca viu na vida por conta do sistema de avaliações da plataforma, no qual tanto os hóspedes quanto os anfitriões são recomendados ou não por experiências anteriores. Em 2012, eram 3.500 anúncios no Brasil. Hoje o número de anfitriões saltou para os 70 mil, 20 vezes maior. O maior mercado é o do Rio de Janeiro, com 25 mil ofertas.

Na outra ponta, os viajantes passaram a ter à sua disposição um leque amplo de preços, mais a experiência de ficar na casa de locais e compartilhar algo de sua cultura, o que os hotéis e as pousadas não proporcionam. Mas há quem não veja esse lado, digamos, romântico desse modelo de negócio. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH), Dilson Jatahy Fonseca Junior, aponta para a significativa diminuição na taxa de ocupação dos hotéis no Brasil, efeito que, segundo ele, não é produzido só pela crise; tem a ver com a multiplicação das opções veiculadas por anúncios no Airbnb e em outras plataformas do gênero. “A carga tributária do nosso setor é enorme e estamos sofrendo concorrência desleal de quem não paga imposto. Isso é pirataria”, afirma.

O presidente do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), Manuel Gama, tem uma reação menos agressiva. Entende que não dá para brigar com um modelo de negócio que passou a ter aceitação mundial. Mas, assim como a ABIH, defende a necessidade de regulamentação específica para a utilização de plataformas desse tipo no País.

O embate, assim como a briga dos taxistas com o aplicativo Uber, que conecta passageiros a motoristas particulares, é filme repetido nas grandes cidades do mundo. Em Barcelona, por exemplo, o uso da plataforma Airbnb passou a ser taxado pela autoridade local, a exemplo do que já acontece com os hotéis. A Câmara Municipal de Lisboa decidiu, nesta semana, que a plataforma estará sujeita ao pagamento da “taxa de dormida”, correspondente, no momento, a um euro por noite de hospedagem.

Aqui no Brasil, até o fim dos Jogos Olímpicos, o debate sobre regulamentação do Airbnb não deve ganhar força. Não fosse essa novidade, não haveria acomodações suficientes na Cidade Maravilhosa. Mas, apagada a tocha olímpica, o debate deve pegar fogo. É o que acredita o professor do curso de Hotelaria da Universidade Anhembi Morumbi Carlos Bernardo: “É difícil se contrapor a algo que hoje é necessidade do mercado, em momento de pico. Mas a preocupação com o futuro é justificada”, observa.

O Ministério do Turismo afirma oficialmente que tem estudado soluções implementadas no cenário internacional e que dialoga com o Airbnb para encontrar a melhor maneira de regulamentar esse modelo de negócio.

No entanto, o setor hoteleiro começa a se reinventar e já mostra iniciativas que colocam em prática conhecido ditado, o de que deve juntar-se aos que não se consegue vencer. Um dos maiores grupos hoteleiros da Europa, a rede francesa Accor, por exemplo, anunciou na última terça-feira a compra da Onefinestay, plataforma especializada em serviços de aluguel de residências luxuosas. COM LAURA MAIA

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