Perspectiva do Brasil é 'sombria', diz banco

Wells Fargo, terceira maior instituição financeira dos EUA em ativos, diz que está difícil País achar uma saída para a a crise

Altamiro Silva Júnior, Luiz Guilherme Gerbelli, Alvaro Campos e Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

02 Setembro 2015 | 02h04

NOVA YORK E SÃO PAULO - A economia brasileira pode piorar ainda mais nos próximos meses e as perspectivas para o segundo semestre são "sombrias", avalia o Wells Fargo, terceiro maior banco em ativos dos Estados Unidos. De queridinho entre os principais mercados emergentes do mundo, o Brasil mergulhou em uma crise da qual parece difícil achar o caminho de saída, afirma relatório divulgado ontem pela instituição.

Para o economista sênior do Wells Fargo responsável pela América Latina, Eugenio Aleman, a combinação da queda internacional dos preços das commodities, incertezas envolvendo o futuro da China e fatores domésticos no Brasil, como as investigações da Operação Lava Jato, além de já terem afetado a atividade econômica brasileira, sinalizam que o crescimento deve permanecer baixo por "vários anos".

O banco compara a crise atual com a de 1999, quando o Brasil, que tinha o câmbio fixo e praticamente paridade com o dólar, foi forçado a desvalorizar rapidamente o real. Pelo lado positivo, o câmbio flexível de agora é um fator útil para absorver choques externos e deve ajudar o Brasil a enfrentar a situação adversa. Pelo lado negativo, o cenário político agora é muito mais incerto, comenta Aleman, destacando a possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Há potencial no Brasil para uma ampla crise política, caso ocorra a saída de Dilma, destaca o relatório do Wells Fargo. "Mas por agora esse processo não está claro", afirma o economista. Aleman cita que Dilma estava no Conselho da Petrobrás durante o período investigado pela Lava Jato. Mas até agora as investigações da Polícia Federal não envolveram a presidente, afirma o relatório.

Grau de investimento. Economistas que acompanham o dia a dia da economia brasileira concordam que o cenário piorou. O reconhecimento do déficit de R$ 30,5 bilhões no Orçamento da União no próximo foi um fator decisivo para essa piora.

Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (BC) e sócio da Schwartsman & Associados, Alexandre Schwartsman, disse que a situação atual deve acelerar a perda do grau de investimento, espécie de atestado de bom pagador, atribuído a países e empresas por agências de classificação de risco.

"A parcela positiva da avaliação do Brasil, à parte reservas, foi a promessa de melhora fiscal, agora prejudicada pela proposta orçamentária. Isso acelera, provavelmente, o processo", disse o economista.

Quanto ao câmbio, Schwartsman avalia que o efeito de uma eventual perda do grau de investimento é sempre controverso. Mas diz desconfiar que esse cenário já estaria, em boa medida, no preço. "Deve seguir desvalorizando, mas pelos demais motivos: Estados Unidos, China e commodities, etc", previu.

Na avaliação da pesquisadora do Peterson Institute for International Economics, Monica de Bolle, o número previsto no Orçamento de 2016, se mantido inalterado, fará com que a economia brasileira acumule déficits primários por três anos seguidos. Em 2014, o déficit primário ficou em 0,6% do PIB. Neste ano, a equipe econômica trabalha com uma meta de superávit primário de 0,15% do PIB, mas ela acha bastante difícil que esse resultado seja alcançado.

"A equipe econômica pode ter tentado fazer com que o Orçamentário deficitário desse uma dimensão da extensão dos nossos problemas para o Congresso", diz Mônica. "A classe política e a sociedade brasileira têm de reconhecer que os problemas são graves e precisam fazer uma discussão muito mais séria do que a que está havendo nesse momento."

Quando assumiu o governo, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chegou a prometer um superávit primário de 2% do PIB para 2016 - esse número, antes da divulgação da proposta orçamentária, já havia sido revisado para 0,7% do PIB.

"O risco de perda de grau de investimento aumentou porque a proposta deixou uma situação totalmente em aberto. Houve um aumento da incerteza, porque não existe a fonte de financiamento desse déficit", afirma Raul Velloso, especialista em finanças públicas. 

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