Imagem José Roberto Mendonça de Barros
Colunista
José Roberto Mendonça de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Perspectivas construtivas na Europa

Europa dá passos transformadores, ao contrário de países como os Estados Unidos e o Brasil, onde o negacionismo da ameaça do coronavírus está resultando num prolongamento no tempo da duração da primeira onda do vírus

José Roberto Mendonça de Brarros*, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2020 | 05h00

Frente a inúmeros desafios, a Europa dá passos transformadores, ao contrário de países como os Estados Unidos e o Brasil, onde o negacionismo da ameaça do coronavírus está resultando num prolongamento no tempo da duração da primeira onda do vírus. Isso está exacerbando divisões da sociedade e ampliando a má distribuição de renda, com seus efeitos deletérios, sociais e econômicos, que colocam sombras sobre o crescimento futuro. 

No caso europeu, estamos vendo o que faz uma liderança de estadista. Angela Merkel, dada por muitos como no fim de sua trajetória política, assumiu de forma decisiva a liderança no combate à pandemia, com o apoio de médicos e cientistas. Distanciamento social e testagem em larga escala garantiram o sucesso na contenção da contaminação, o que se expressa no número relativamente baixo de mortos por milhão de habitantes (110 ante 471 nos EUA e 446 no Brasil).

Não é surpresa que a chanceler alemã tenha 80% de apoio da população. 

Mas Merkel não parou aí. Conseguiu convencer seu ministro das Finanças a aceitar, pela primeira vez, que a Europa deveria colocar em prática um ambicioso programa de apoio à recuperação dos países da área, de €750 bilhões, além do orçamento normal de Bruxelas. 

Esse programa era uma proposta original francesa, desde sempre rechaçada pelos conservadores alemães. A mudança conseguida por Merkel recriou a velha aliança franco-alemã, que sempre foi responsável pelo avanço da Europa em momentos decisivos, como o atual, desde os anos 50.

O acordo, como noticiado pelo jornal Financial Times, quebra mais dois paradigmas históricos. Em primeiro lugar, a Comissão Europeia pode se endividar numa escala sem precedentes. O Programa “Nova Geração – EU” receberá fundos resultantes da colocação, durante seis anos, de títulos emitidos com maturidade até 2058. Em segundo lugar, ¤ 390 bilhões dos ¤ 750 bilhões serão distribuídos como doações, e não empréstimos, o que ultrapassa o conceito tradicional de não haver transferências fiscais dentro da Europa. Não terão também condicionalidades. 

Esses recursos darão força para a recuperação da economia e avanços em pautas novas, como nas áreas de tecnologia e bioeconomia.

É oportuno, e curioso, lembrar que o acordo só ocorreu por conta do Brexit: sem a presença da Inglaterra, os quatro “frugais” (Holanda, Áustria, Suécia e Dinamarca), que se opunham à emissão de bônus, não conseguiram sozinhos bloquear a aliança franco-alemã. 

A valorização recente do euro deve refletir uma certa aprovação dos mercados a esse acordo. 

Vale também a pena lembrar que, ao contrário do que muita gente pensa, o velho continente não tem tido um desempenho ruim no período recente, como mostra Thomas Philippon (*). De 1999 a 2017, o crescimento acumulado do PIB nos Estados Unidos foi de 21%, enquanto o da zona do euro foi de 19%, uma diferença pequena. Ademais, a comunidade europeia, que engloba 28 países, cresceu no mesmo período 25%. 

Ao mesmo tempo, a Europa não viu uma concentração de mercado tão grande nas maiores empresas, como a que tem caracterizado os Estados Unidos. Em boa parte, isso se deve a menos barreiras à entrada e a uma regulação mais efetiva, resultando em mercados mais competitivos. Em consequência, e em oposição ao caso americano, não se assistiu a uma elevação sistemática de mark-ups e, portanto, a parcela salarial na renda não caiu. Finalmente, como parte do mesmo processo, certos preços, como custos de internet, são menores na Europa do que nos Estados Unidos. 

Como se vê, as perspectivas são construtivas na Europa. 

* * * * *

Na contramão da boa gestão atual do Banco Central, a emissão de notas de R$ 200 não faz sentido. O alegado aumento do uso de moeda na pandemia é, evidentemente, temporário. Tanto por higiene, como pela disponibilidade de modernos meios digitais de pagamento, a moeda manual caminha para o desuso. Se até hoje é difícil trocar uma nota de R$ 100, imagine uma de R$ 200? Apenas a Casa da Moeda e operadores de caixa 2 e de outros produtos ilegais devem ter gostado da medida. Não é por outra razão que, desde 2016, o Banco Central Europeu parou de emitir notas de ¤ 500. 

(*) The great reversal – How America gave up on free markets? Thomas Philippon, Harvard University Press, 2019

]

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.