Perspectivas positivas. Mas sem euforia

Mesmo com otimismo externo em relação ao Brasil, profissionais avisam que números recordes, como os de 2007, vão demorar a se repetir

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

O ano de 2007 tornou-se referência para o mercado brasileiro. Ali, as aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês) bateram recorde: foram 67 operações, num total de aproximadamente US$ 30 bilhões (R$ 51 bilhões pela cotação atual do dólar). Apesar do otimismo com o Brasil no mundo, especialistas avisam que vai levar um bocado de tempo para que desempenho semelhante seja observado.

"O ano de 2007 marca o pico da liquidez global. Vai demorar para que voltemos para uma situação semelhante", afirma o diretor do banco de investimentos do Credit Suisse no Brasil, José Olympio Pereira.

Os países desenvolvidos ainda lutam para recuperar-se da pior crise econômica mundial desde os anos 30, detonada há exatos dois anos com a quebra do banco de investimentos americano Lehman Brothers. Em decorrência da crise, foram torrados trilhões de dólares em riqueza. Além disso, milhões de pessoas perderam seus empregos, o que evidentemente limita sua capacidade de poupar - o que diminuiu a quantidade de dinheiro disponível no planeta.

Se, de um lado, o Brasil ostenta uma condição privilegiada perante o investidor global, de outro, o mundo combalido funciona como um limitador automático do apetite em relação ao País.

Por isso, observa o vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Alberto Kiraly, o investidor, hoje, está bem mais "seletivo e exigente".

Em outras palavras, para fazer um IPO, uma empresa precisa oferecer condições atrativas - o que engloba, além de boas perspectivas de negócio, um preço de ação considerado justo no lançamento na bolsa. No primeiro semestre, por exemplo, todas as sete operações feitas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) saíram com o preço da ação inferior aos níveis pré-estabelecidos pela companhia emissora.

Tempo escasso. As empresas que sonham fazer um IPO ainda em 2010 terão de correr. "Fazendo as contas de todo o processo, é possível afirmar que quem não entrar com a documentação inicial na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) até 25 de outubro não conseguirá abrir o capital em 2010", explica Pereira.

Por isso, a análise otimista dos profissionais para esse mercado é temperada com uma dose de cautela. O presidente-executivo da BM&FBovespa, Edemir Pinto, por exemplo, descarta uma "enxurrada de operações" ainda neste ano.

Para as empresas que quiserem se aventurar, os especialistas têm a receita na ponta da língua: é preciso uma boa história. Mas o que seria isso? Fábio Mentone, diretor do Bradesco BBI, explica. Em primeiro lugar, atuar em um setor com boas perspectivas de crescimento. Em segundo lugar, Mentone menciona empresas com boas margens de lucro. Em terceiro, ele cita boas práticas de governança.

Feitas todas as ponderações, o resultado é que os setores prediletos dos investidores, hoje, são aqueles voltados para o mercado interno do País. Entre eles, destacam-se varejo e prestação de serviços, infraestrutura (por causa da exploração do pré-sal e da realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas), além de petróleo e seus derivados. Não por coincidência, a maior parte das ofertas que estão na fila na CVM é de empresas ligadas à cadeia do petróleo.

Como lembra Mentone, ao mesmo tempo em que "travou" o mercado, a megacapitalização da Petrobrás colabora para "vender" o Brasil e suas empresas aos investidores. "Isso aumenta o interesse pelo País", argumenta.

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