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Perto do zero

A inflação de julho foi boa surpresa, avanço de só 0,01%. Mas é prematuro contar com que esteja sob controle, como autoridades do governo afirmaram ontem.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2014 | 02h03

Os preços foram puxados para baixo, principalmente, no setor de alimentos, graças à redução das cotações das commodities agrícolas. Não pode ser desprezada a derrubada de preços logo em seguida à Copa do Mundo, como mostraram as tarifas dos hotéis (queda de 7,65%) e das passagens aéreas (queda de 26,86%). Julho foi o quarto mês seguido de retração. Nos próximos meses, esse movimento tende a ser revertido.

Não dá para ignorar a contribuição, para esse tombo da inflação, da forte desaceleração da atividade econômica. A queda do consumo não transparece só das estatísticas que apontam diminuição das vendas no varejo. Mas também da evolução dos preços dos serviços, que mostrou recuo de 0,06%, em julho (sobre o mês anterior).

Em 12 meses, a inflação continua no teto da meta (6,5%) . Basta que, em agosto, a evolução do IPCA seja de 0,25% para que volte a ultrapassá-lo. De todo modo, parece mais provável que o ano termine com uma inflação inferior a 6,5%.

Mesmo assim, este é um resultado artificial, dado o represamento dos preços administrados, aqueles que dependem de autorização do governo. Os mais importantes são as tarifas de energia elétrica, dos combustíveis e dos transportes urbanos. Esse represamento está sendo imposto, em atendimento a conveniências eleitorais do governo.

É uma situação que exige correção, que será detonada provavelmente a partir da realização do segundo turno das eleições, dia 26 de outubro. As decisões tomadas na área de energia elétrica, por exemplo, estão pedindo reajustes nas tarifas da conta de luz de até 25%, a serem transferidos ao consumidor ao longo dos próximos 24 meses, dependendo ainda de variáveis não controladas, como incidência de chuvas, preço do gás e dos derivados de petróleo para queima nas termoelétricas e preço do quilowatt/hora no segmento livre da energia elétrica.

Outro fator que vem contendo a alta de preços são os freios ao ajuste das cotações do dólar no câmbio interno, impostos pela política de valorização do real. Nos últimos sete meses, para segurar as cotações do dólar e evitar o encarecimento dos produtos importados, o Banco Central (BC) realizou operações de swap no mercado futuro de moeda estrangeira, correspondentes a vendas de US$ 90 bilhões. Esta é uma situação que não pode seguir por muito mais tempo, sob pena de aprofundar as distorções determinadas pela falta de alinhamento dos preços internos aos externos.

A partir do momento em que o BC deixar o dólar mais solto, será inevitável certa desvalorização do real (alta do dólar) e, em consequência disso, um aumento dos preços dos produtos importados.

O impacto desses ajustes sobre a inflação é o principal fator pelo qual o BC não espera para 2015 a convergência da inflação para o centro da meta, como quinta-feira reafirmou o diretor de Política Econômica do Banco Central, Carlos Hamilton de Araújo. Por isso, não se espera para tão cedo a redução dos juros básicos (Selic) hoje nos 11,0% ao ano.

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