Pesificação apenas das dívidas é populismo diz ex-economista do BID

O ex-economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e autor da idéia de pesificar todo o sistema financeiro argentino, Ricardo Hausman, disse que o governo do presidente Euardo Duhalde está fazendo "populismo" com a pesificação, apenas, dos empréstimos (dívidas) dos argentinos. "Cedo ou tarde, a Argentina terá de deixar o peso flutuar, mas não se pode ter um regime flutuante com o sistema financeiro ainda dolarizado", alertou Hausman, em entrevista ao site espanhol Expansión.Para Hausman, a pesificação anunciada com o plano de emergência de Duhalde não foi concluída e deveria ser estendida aos depósitos dos argentinos. Caso contrário, acrescentou o ex-economista do BID, essa exclusão pode detonar uma crise muito grave, semelhante à da Indonésia. Indagado sobre o novo plano de emergência anunciado domingo à noite pelo ministro Jorge Remes Lenicov, Hausman afirmou que, embora o governo argentino tenha tido coragem para desvalorizar o peso, o preocupante é a falta de definição de um novo regime monetário e a ênfase que vem se dando às medidas transitórias."Embora ainda não tenham sido anunciadas todas as medidas, algumas linhas do plano são preocupantes", disse Hausman. De acordo com ele, se a Argentina decidir abandonar a conversibilidade terá de adotar um sistema cambial claro e políticas de inflação adotadas por economias modernas e por países como Brasil, Chile e México. "Não se podem apenas fazer remendos, como controle de preços, implementar tipos de câmbio múltiplos ou descapitalizar o sistema bancário. Isso é um suicídio, e se há alguma coisa que os argentinos precisam é confiar no sistema financeiro", alertou.Na entrevista, Hausman lembra que a Argentina chegou a ter o sistema financeiro mais sólido da América Latina, mas acabou enfraquecido com o swap forçado de sua dívida pública, com a política fraca do Banco Central e, agora, como a pesificação apenas das dívidas. "Por isso, é necessário uma política cambial de longo prazo e devolver ao BC a capacidade de controlar a política e a oferta monetária", afirmou o economista.Como controlar a inflação em um regime flutuante?", indaga o site Expansión "Pedir aos empresários o compromisso de moderar nas remarcações dos preços, ninguém vai acreditar. A inflação se controla com um marco monetário sustentável e crível, com regras claras. O problema é que foi anunciado tudo, menos isso."Explosão da dívida públicaDe acordo com estimativas preliminares dos principais organismos multilaterais de financiamento, a dívida pública argentina deve pular até dezembro deste ano para pelo menos US$ 171,2 bilhões. Até 30 de junho do ano passado, esse montante estava em US$ 132,26 bilhões, dos quais US$ 94,7 bilhões em títulos públicos (US$ 92,4 bilhões em moeda estrangeira), US$ 3,76 bilhões em Letras do Tesouro (Letes) e US$ 33,8 bilhões em empréstimos de organismos internacionais. A estimativa é que, até dezembro do ano passado, a dívida pública argentina terá crescido para US$ 155 bilhões, quase o dobro do verificado em 1991 (US$ 80,87 bilhões).Leia o especial

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