Pesquisa aponta desigualdade dentro das empresas

A maioria das grandes empresas instaladas no País é dirigida por homens de cor branca. Eles ocupam 94% dos postos de comando, de acordo com o "Perfil social, racial e de gênero das diretorias das grandes empresas brasileiras", divulgado hoje em São Paulo pelo pelo Instituto Ethos. Segundo o estudo, esse quadro reflete as desigualdades sociais e raciais da sociedade brasileira, uma vez que a proporção de homens e mulheres na população é equilibrada e apenas pouco mais da metade da população é branca, segundo o IBGE.O levantamento foi realizado em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem) e a Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (Eaesp-FGV) e com apoio técnico do Indicator Opinião Pública.A maior parte (43%) dos entrevistados tem entre 46 e 55 anos, enquanto os mais jovens (de 25 a 35 anos) são apenas 6%. A maior representação masculina (44%) aparece na faixa etária de 46 a 55 anos e a maior feminina (53,7%) é formada por mulheres entre 36 e 45 anos. Entre os executivos, 51% possui curso superior e somente 4% têm até a formação secundária. A qualificação complementar (mestrado ou especialização) está presente em 40% das respostas. Pouco mais de metade dos diretores (55%) tiveram parte de sua formação no realizada fora do País.O estudo ainda apontou que 27% dos executivos estão há menos de dois anos na empresa e que apenas 4% do total possui relação de parentesco com acionistas com mais de 5% de participação na empresa, o que mostra a preocupação das companhias com a profissionalização.Trata-se da primeira pesquisa sobre o tema feita pelo instituto, que pretende torná-la anual. O aspecto da capacidade física dos executivos não foi incluído, pois será objeto de um estudo específico que está sendo realizado pelo Ethos, cujos resultados saem ainda neste ano. "Além disso, não queríamos estender muito o espectro do levantamento. Há assuntos que merecem tratamento especial", diz o presidente do Instituto Ethos, Oded Grajew. Os resultados serão enviados às empresas ligadas ao Ethos e aos órgãos de imprensa, "para colocar o assunto na pauta do dia", segundo Grajew.InclusãoEle afirma que os dados não surpreenderam e só comprovaram uma situação que já era imaginada por todos. A intenção é que os indicadores façam as empresas discutir o assunto e tentar encontrar formas de minimizar essa desigualdade. "É o momento de colocar questões para o empresariado, tais como por que a minha empresa é dirigida somente por brancos? Ou por que o perfil dos corpos dirigentes é tão diferente do da sociedade brasileira?", disse.A metodologia da pesquisa, realizada entre outubro e dezembro de 2001, envolveu o envio de um questionário pelo correio aos presidentes das 500 maiores empresas instaladas no Brasil, classificadas a partir do faturamento anual. Desse total, foram respondidos e devolvidos 17,8%, o que possibilitou a análise do perfil de 687 executivos. Os nomes dessas empresas são mantidos sob sigilo. Eduardo Schubert, presidente do Indicator Opinião Pública, afirma que esse número é representativo do quadro. "O índice de resposta foi alto para este tipo de pesquisa. Os questionários não respondidos são uma forma de resposta também", observou. Grajew está certo de que as empresas que não preencheram o formulário pelo menos estão discutindo o assunto, "o que já é importante."Para a coordenadora de projetos especiais do Ipea, Anna Peliano, a questão da responsabilidade social, hoje muito debatida, vai além da ação comunitária externa e engloba também o tratamento das empresas dado ao seu público interno. "Quando analisamos o papel social das empresas precisamos verificar também que oportunidades de inclusão social ela está oferecendo", avaliou. A coordenadora acredita que o combate à desigualdade depende de ações multissetoriais e simultâneas entre os vários atores sociais. Segundo ela, o Ipea está trabalhando em um estudo semelhante, porém mais abrangente, sobre o perfil de raça e gênero dos trabalhadores brasileiros, com base nos dados de 1999 do cadastro do Ministério do Trabalho, que deverá estar pronta em abril.Como inserir as minorias em um mercado de trabalho tão competitivo e exigente no que diz respeito à educação, cultura e experiência profissional? O papel dos vários agentes sociais - empresas, poder público, terceiro setor e até mesmo do consumidor parece ser consenso entre a entidades envolvidas no estudo. Outras questões que Grajew pede que os empresários façam é "que impactos as minhas ações terão sobre o consumidor do meu produto, sobre o meio-ambiente, sobre os meus funcionários? Queremos que os consumidores também se questionem sobre qual a forma que os fabricantes tratam os seus funcionários antes de consumir os produtos".Para o coordenador dos cursos de graduação da Eaesp-FGV, Ricardo da Rocha Bresser, a melhor forma de as empresas evitarem a discriminação é a proximidade com a sociedade e com o poder público. "Não temos que tratar os desiguais como se fossem iguais, porque nesse momento eles precisam ser favorecidos. Do contrário. estaríamos perpetuando esta injustiça social", declarou. Segundo ele, a desigualdade social é alimentada pela má distribuição de renda da população um problema crônico no Brasil, que leva as oportunidades somente aos mais ricos. "As ações têm de ter respaldo do poder público para serem eficientes". Segundo Grajew, apenas 19% do orçamento público no Brasil é aplicado em prol dos 20% mais pobres.O presidente do Instituto Ethos afirma que há uma série de ações concretas que podem ser aplicadas para evitar que esse quadro continue tão desigual, e cita mudanças nos critérios de recrutamento e seleção de funcionários e oportunidades na área de educação. Ele também é favorável à implantação, por exemplo, de sistema de cotas em universidades e empresas. "Tivemos resultados ótimos em alguns países do mundo e até no Brasil, com as mulheres na política."MulheresA coordenadora regional da Unifem para o Brasil e o Cone Sul, Branca Moreira Alves, afirmou que os 6% de representação das mulheres entre os executivos que responderam à pesquisa mostra que a mulher brasileira, embora já tenha conseguido muito, "ainda possui uma luta árdua pela frente contra o preconceito". Segundo ela, em pior situação estão as mulheres não-brancas, que enfrentam um preconceito duplo. "Somos parte de uma luta que muito nos orgulha hoje, mas não temos idéia do que passamos para chegar até aqui". A coordenadora acrescenta ainda que a igualdade entre os sexos depende também da participação dos homens nas tarefas ditas femininas. "Enquanto os homens não forem mães não poderemos ser presidente de empresas", avaliou, explicando que a falta de uma distribuição de tarefas mais justa dificulta a escalada das mulheres.Para diretor-adjunto da OIT Brasil, Jaime Mezzera, as mulheres no Brasil enfrentam o chamado "teto de vidro", metáfora utilizada para demonstrar um preconceito que muitas vezes é invisível. "No entanto, as mulheres não-brancas enfrentam não um teto de vidro, mas uma porta negra e fechada, pois elas não têm oportunidade mesmo".

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