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Executivo do mercado financeiro, Haroldo Nascimento já foi confundido com manobrista em evento corporativo Arquivo pessoal

Pesquisa aponta que seis em dez negros veem preconceito na hora da seleção

Superada a seleção, 40% dos entrevistados disseram que sofrem ou já sofreram preconceito por causa de sua cor dentro do trabalho

Renato Jakitas, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2020 | 05h00
Atualizado 28 de setembro de 2020 | 08h23

Os números e a mera observação mostram que é muito difícil para um negro chegar ao topo da carreira dentro de uma empresa. Mas as dificuldades no mercado de trabalho vão muito além disso. Segundo pesquisa feita pelo Instituto Locomotiva para a Central Única das Favelas (Cufa), obtida com exclusividade pelo Estadão, seis em cada dez trabalhadores negros dizem já ter se sentido preteridos em uma entrevista de emprego por conta da cor da pele.

O levantamento também mostra que, para quem supera o processo de seleção, os desafios podem continuar. Cerca de 40% dos entrevistados disseram que sofrem ou já sofreram preconceito por causa de sua cor dentro do trabalho. Para Renato Meirelles, do Locomotiva, os casos de racismo geralmente aparecem disfarçados de brincadeiras. “Uma entrevistada disse que, quando foi promovida, ouviu de um colega os parabéns por estar, agora, na ‘casa grande’ da empresa.”

“As pessoas podem não falar, mas, quando se é negro, a gente percebe o racismo no olhar”, afirma o executivo do mercado financeiro Haroldo Nascimento. Ele conta, por exemplo, que quando participava com outros colegas de um congresso em um hotel na Zona Sul de São Paulo, foi surpreendido por um homem que lhe entregou a chave do carro. “Eu estava entrando no hotel e, de repente, o cara colocou a chave do carro dele na minha mão. Eu joguei a chave no chão e ele perguntou, assustado, se eu trabalhava lá. Respondi: ‘Eu não, e você?’.”

Cabelo

Para Neivia Justa, sócia da empresa de recursos humanos C-Level Group, os casos de preconceito racial durante processos seletivos são comuns. “Já ouvi inúmeras mulheres negras contarem ter ouvido dos recrutadores: ‘Você precisa dar um jeito nesse cabelo se quiser trabalhar aqui’.”

Segundo Neivia, que se especializou em diversidade de raça e gênero no ambiente corporativo, na maior parte das vezes a discriminação com um candidato negro se apresenta de maneira velada, quase imperceptível.

“Vou te dar um exemplo. Certa vez, apresentamos um alto executivo negro ao fundador de uma empresa de tecnologia. O candidato tinha todas as qualificações necessárias ao cargo, até o inglês fluente. Mas a reação do contratante ao se referir a ele foi: ‘Nossa, que história incrível de superação a do fulano’. Ele ficou buscando argumentos para desqualificar o moço”, diz.

Para o coordenador-geral da Faculdade Zumbi dos Palmares, Raphael Vicente, de maneira geral os processos de seleção são conduzidos de forma a excluírem os negros. “Há uma questão histórica envolvendo a forma como o País tratou dos negros e não é possível dissociar a questão racial da social. Quando o processo opta por candidatos que fizeram dois, três intercâmbios, faculdades caríssimas, ele está reduzindo as chances de um negro.”

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Consumidores mais conscientes levam empresas a buscar inclusão de negros

Nenhum negro ocupa a presidência entre as 100 maiores empresas na B3, enquanto a participação em cargos de gerência e diretoria não passa de 6%; de olho no novo perfil de consumidores e na cobrança de investidores, companhias ensaiam mudança de foco

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2020 | 05h00

Quanto mais perto do topo, menos negros. Basta uma olhada nas cadeiras de presidentes das 100 maiores empresas brasileiras listadas na B3 para se constatar essa realidade: só brancos estão sentados ali. Quando se desce mais um pouco na hierarquia, a proporção não melhora muito. Levando-se em conta toda a economia, quando se fala em diretores e gerentes, apenas 6% e 4,7%, respectivamente, são negros – isso numa sociedade em que eles são mais de 50% da população.

É um quadro histórico, que tem suas raízes no passado escravocrata do País e que, claro, não está restrito à economia. Mesmo na Câmara dos Deputados, que deveria ser um espelho da população, apenas 4% dos parlamentares se declaram pretos (e 20% se dizem pardos). No caso das empresas, a novidade é que começam a ganhar visibilidade movimentos para se tentar mudar isso. 

Há pouco mais de uma semana, Magazine Luiza e Bayer anunciaram programas de trainees que aceitarão exclusivamente pessoas negras. No caso da rede varejista, a ação provocou grande discussão nas redes sociais, mas foi em geral endossada por especialistas e pela população. Segundo análise feita pela Refinaria de Dados, empresa especializada na coleta e análise de informações digitais, 38% das menções feitas ao tema foram positivas, ante 17% negativas – o que reflete até uma mudança no comportamento da sociedade, cada vez mais preocupada com a pluralidade. Há um novo perfil de consumidor, que se mobiliza por questões ambientais, raciais ou de diversidade de gênero

Como reflexo disso, o papel das empresas também está mudando. Na era das redes sociais, em que as reputações estão constantemente em jogo, as companhias precisam estar cada vez mais conectadas à sociedade, aos consumidores, entender suas demandas e ser parte integrante das comunidades nas quais estão inseridas .

“Já havia uma consciência da necessidade de se mudar essa discrepância (em relação aos negros)”, diz Carlos Arruda, professor da Fundação Dom Cabral. “Mas o que era importante se tornou urgente após os movimentos antirracistas americanos, como o Black Lives Matter, que ganharam força após a morte do negro George Floyd.” Segundo ele, cresceu a pressão para que a intenção das empresas em aumentar a diversidade vire prática. A importância disso está expressa na preocupação crescente de investidores para que as companhias adotem as melhores práticas ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês). A era do lucro a qualquer custo parece estar ficando no passado. 

Mas o lucro, claro, também faz parte disso tudo. As companhias perceberam que a diversidade traz vantagem competitiva. Um ambiente corporativo com pessoas de repertórios diferentes favorece a inovação, ajuda a empresa a se conectar ao consumidor e ampliar mercados. “As empresas descobriram que a diversidade dá lucro”, diz o coordenador executivo do Fórum Brasil Diverso, Maurício Pestana, que lança em outubro o livro A Empresa Antirracista.

“A diversidade maior nos nossos quadros de liderança vai gerar resultados maiores. (...) Se tivéssemos mais representatividade de mulheres e negros – que é nossa questão mais sensível hoje – na liderança, teríamos ações mais efetivas. Isso geraria mais vendas e, em última instância, mais retorno aos acionistas”, diz o presidente da Magazine, Frederico Trajano, em entrevista na semana passada.

Racismo inconsciente

Com base em pesquisas já feitas, Arruda, da Dom Cabral, conta que, embora os negros sejam selecionados para algumas vagas, ficam pelo meio do caminho. Segundo as companhias, por causa de deficiência na educação e falta de qualificação. “Há um processo inconsciente de racismo que surge no ponto de partida, ao exigir experiência internacional, carta de recomendação e fluência no inglês.” 

Para compensar essas assimetrias socioeconômicas e de formação, o Magazine Luiza tirou, por exemplo, a exigência de conhecimento em inglês do processo para trainees. Os candidatos terão bolsa para estudar a língua. O objetivo é prepará-los para assumir cargos de liderança.

“Nossa sociedade é racista. Por isso, a escolha do ‘igual’ acaba sendo natural”, diz Erik Torres Bispo dos Santos, primeiro vice-presidente negro da ArcelorMittal no Brasil. Ele está à frente do grupo Diversidade Racial da empresa, criado em 2019 com o objetivo de elevar a participação de negros em cargos de liderança. Carioca, filho de pai negro e bisneto de índio, ele avalia que sua ascensão está associada à educação. Santos, que foi promovido em setembro do ano passado, aos 44 anos, sempre estudou em escola pública, do primário à faculdade. “Mas reconheço que ser um pouco mais claro me ajudou. Meu irmão, que tem a pele um pouco mais escura, teve mais dificuldade.”

Os benefícios da inovação são o argumento da Bayer para apostar num programa para negros. Na avaliação da diretora de Recursos Humanos da Bayer no Brasil, Elisabete Rello, incluir é inovar. “Quanto mais mentes que pensam diferentes, que têm experiências diferentes, mais possibilidades a empresa terá de ser plural.”

De mil executivos formados, apenas 10 negros

Um termômetro da baixa participação dos negros no mercado de trabalho vem de uma das escolas mais importantes na formação de líderes no País. Segundo Carlos Arruda, professor da Fundação Dom Cabral, desde que o MBA foi criado, em 1989, mais de 1.000 executivos foram formados. Desse total, apenas 10 (ou 1%) eram negros. Agora, além de orientar as empresas na criação de programas de inclusão, a fundação também quer oferecer bolsas de estudos para negros.

Com uma formação mais robusta, especialistas acreditam que é preciso pleitear também presença nos conselhos de administração das empresas. O diretor da Associação de Pesquisadores Negros (ABNP), Ivair Augusto Alves dos Santos, conta que tem trabalhado com a Bolsa de Valores nessa direção. “Para quem está de fora, parece que esse processo começou agora. Mas são anos de luta pela igualdade.”

O quadro de desigualdade é reflexo de um racismo estrutural criado entre os séculos 19 e 20, com o fim da escravidão. “Isso fez com que tivéssemos cidadãos de 1.ª e 2.ª classe, afastando os negros da educação e do desenvolvimento econômico e social do País”, diz o coordenador do Fórum Brasil Diverso, Maurício Pestana.

Exemplo disso pode ser verificado na diferença salarial entre negros e brancos. O pesquisador da área de Economia Aplicada do FGV/ Ibre, Daniel Duque, diz que profissionais com formação semelhante têm rendimentos diferentes por causa da cor. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019 a renda média mensal dos negros era 55,8% da dos brancos. “Difícil encontrar motivos para justificar essa situação que não seja a discriminação”, diz Duque. /COLABOROU HELOÍSA SCOGNAMIGLIO

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'Se você é negro, você sempre tem de ser o melhor'

Hoje desempregada, a gestora de marketing Neuza Oliveira diz que sofreu constrangimentos

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2020 | 05h01
Atualizado 28 de setembro de 2020 | 08h24

São comuns os relatos de preconceito no ambiente de trabalho. Antes de perder o emprego no início da pandemia, Neuza Oliveira, de 46 anos, era gestora de marketing em uma empresa. Até alcançar o cargo, disse ter passado por seleções marcadas por “olhares de cima a baixo” e respostas como “você se encaixa muito bem nessa vaga, mas estamos mudando o perfil dela”.

Natural de Minas Gerais, veio para São Paulo aos 21 anos e o primeiro trabalho que encontrou foi de empregada doméstica em uma mansão no bairro Morumbi. Por sorte ou destino, os patrões ofereceram uma oportunidade de trabalho como recepcionista em uma agência de publicidade.

Fez um curso técnico de design gráfico e, aos 30 anos, veio a chance de cursar a faculdade de Publicidade e Propaganda por meio do Programa Universidade Para Todos (ProUni). Foi a primeira da família a ter diploma de ensino superior. Depois, fez MBA na USP e um curso de inglês. “Se você é negro, você sempre tem de ser o melhor”, afirma ela.

Neuza relata casos em que sentiu preconceito durante entrevistas de emprego. “Eu estava em uma sala com várias pessoas e era a única negra. Chegou um entrevistador e me olhou de cima a baixo. Ele não disse nada, mas você está tão acostumada que sabe o que aquele olhar quer dizer. Antes de ser entrevistada, eu já sabia que não seria aceita.”

Há cerca de três meses, uma recrutadora a entrevistou por vídeo e afirmou que encaminharia seu currículo a uma empresa que estava com uma vaga para uma profissional exatamente como ela. “Depois de algumas semanas sem resposta, entrei em contato e a recrutadora me falou que não iriam me contratar porque a vaga estava sendo remodelada. Em um momento você é perfeita, tem todas as qualificações, e depois eles dizem que vaga está sendo modificada.”

Já a advogada Danielle Alves, hoje com 28 anos, passou por 17 entrevistas de emprego antes de conseguir uma vaga como jovem aprendiz, aos 16 anos. Foi no departamento fiscal de uma empresa. “Naquela época, não entendia muito bem a questão do racismo e achava que o problema era comigo.” Ela diz que em muitas entrevistas era a única negra e que recebia um tratamento diferente. “Todos ali eram adolescentes da mesma faixa etária com a mesma experiência. Os outros faziam duas ou três entrevistas e passavam, e eu não era aprovada.”

Doutor em Relações Internacionais, Flávio Barros, de 56 anos, diz que poderia ter ainda mais histórias de racismo no currículo se não tivesse conseguido uma oportunidade de sair do País logo depois de se formar em Administração de Empresas na FGV. Fluente em inglês e francês, ele estudou na França e trabalhou na Dinamarca. 

Mesmo com esse currículo, não conseguiu emprego na volta ao Brasil. A saída foi empreender. Desde 1997, é dono de uma empresa de análises de conjuntura, prestando serviço a grandes companhias e ao setor público. Até hoje, ele diz que sofre preconceito. “As pessoas perguntam para mim onde está o dono da empresa. Quando entro em uma reunião, os outros questionam quando o responsável vai chegar.”

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