Leo Lara/Fiat
Pesquisa da Fiesp aponta que maioria das indústrias já encontra problemas em encontrar insumos. Leo Lara/Fiat

Para empresários, escassez de insumos ameaça travar recuperação da indústria

Pesquisas da CNI e da Fiesp indicam dificuldades para adquirir itens como plástico e aço e atender volume de pedidos, após aumento da demanda; variação do dólar e procura fizeram preços de insumos subirem até 30%

Eduardo Rodrigues e Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2020 | 15h34
Atualizado 22 de outubro de 2020 | 22h43

BRASÍLIA e SÃO PAULO - A falta de insumos e a alta de preços de matérias-primas ameaçam comprometer a recuperação da indústria, passado o período de isolamento social e retração econômica provocado pela covid-19. Empresários relatam dificuldades para adquirir itens como papelão, aço e plástico, o que tem levado algumas companhias a postergar entregas ou mesmo recusar novos pedidos. Essa escassez também bateu nos preços dos bens intermediários consumidos pelo setor: a estimativa é de aumentos de até 30% nos últimos meses – com risco de repasse para o consumidor no varejo. 

Esse cenário aparece em duas pesquisas diferentes encomendadas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). No primeiro caso, foram ouvidas 1.855 empresas de 27 setores, entre 1.º e 14 deste mês. Já a sondagem da Fiesp reuniu 414 companhias, entre os dias 7 e 13.

A pesquisa da CNI mostra que 68% dos empresários já encontram dificuldades em adquirir no mercado doméstico os materiais usados na produção. A importação desses insumos, que poderia ser uma saída, também está complicada para 56% das fábricas.

Ainda pela sondagem, 82% das indústrias estão pagando mais caro pelas matérias-primas do que antes da crise. Para 31% delas, o aumento dos valores é “acentuado”.

O resultado da enquete da Fiesp vai na mesma direção. Dos consultados, 59,5% relatam dificuldades, por exemplo, para comprar papelão. E, quem encontra, tem de pagar até 30% mais do que antes da crise. No caso do aço, a escassez é maior e afeta 67% dos entrevistados.

Quando o novo coronavírus chegou ao País, em março, e forçou Estados e municípios a decretarem medidas rigorosas de distanciamento social, houve uma consequente redução da atividade em diversas cadeias de produção, que passaram a consumir nos meses seguintes os estoques em um ritmo suficiente para atender a demanda reduzida do período. 

Agora, com uma retomada da economia em ritmo mais acelerado do que o previsto, a indústria se deparou com fornecedores com estruturas ainda desmobilizadas ou estoques muito baixos, aquém da nova demanda de produção nas fábricas. Existe também o problema da desvalorização do real frente ao dólar, que encareceu o preço de insumos importados ou mesmo dos itens nacionais que têm sua cotação referenciada pela moeda americana. 

“A pergunta de US$ 1 milhão é qual é a nova demanda depois da retirada dos estímulos (dados pelo governo para reverter a queda da atividade econômica). Agora, independentemente da demanda, temos um choque de custos”, diz André Rebelo, economista e assessor de assuntos estratégicos da Fiesp.

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Sem insumo, indústria já atrasa entregas e recusa novas encomendas

Mais da metade das empresas admite que deve repassar alta de preços, indica Fiesp; para alguns empresários, grande parte da demanda não tem condições de ser atendida

Eduardo Rodrigues e Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2020 | 22h41

BRASÍLIA e SÃO PAULO - Os efeitos da falta de bens intermediários para alimentar a produção da indústria já chegam à ponta final do consumo. De acordo com a sondagem realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 44% das fábricas consultadas relataram problemas para atender seus clientes, atrasando entregas ou até mesmo recusando novas encomendas. Em 8% dos casos, uma parte grande da demanda já não tem condições de ser atendida.

Entre as razões dadas pelos industriais, estão a falta de estoques (47%); uma demanda superior à capacidade de produção (41%); impossibilidade de produzir mais (38%) e problemas de logística (13%). Apenas 4% indicaram a inadimplência dos clientes como uma razão para recusar pedidos.

“A economia reagiu em uma velocidade acima da esperada. Assim, tivemos um descompasso entre a oferta e a procura de insumos. E tanto produtores quanto fornecedores estavam com os estoques baixos. Além disso, temos a forte desvalização do real, que contribuiu para o aumento do preço dos insumos importados”, explica o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Abijaodi.

Ainda pela pesquisa, 55% das indústrias só vislumbram uma normalização da oferta a partir de 2021, sendo que 16% não esperam voltar ao normal nos próximos seis meses. Apenas 8% delas acreditam que a situação pode se reverter em até um mês. Os setores mais pessimistas são os de papel e celulose, têxteis, alimentos, extração de minerais não metálicos, produtos de metal e móveis.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), Eduardo Terra, a indústria brasileira vive um “desabastecimento crônico” de insumos. “Por enquanto, não percebemos o cenário de desabastecimento na ponta. O varejo e o atacado têm trabalhado para que isso não aconteça.”

Fontes da indústria ouvidas pela reportagem afirmam que, diante do problema, têm buscado soluções alternativas em algumas áreas, como a reutilização de caixas de papelão ou mesmo a substituição por caixas de madeira para o transporte.

Repasse de preços

Além do entrave na distribuição de produtos, um outro risco ronda o varejo: um possível repasse dos aumentos de preços registrados nos últimos meses pelas principais matérias-primas. 

Pela sondagem da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o reajuste ponderado de custos foi de 22,8% de janeiro a agosto deste ano. Já o porcentual das empresas que pretendem repassar esses preços ao consumidor varia de 37,4% (vão repassar totalmente o reajuste) a 58,5% (repasse parcial). Uma alternativa apontada por 60,9% dos consultados foi “buscar outros fornecedores por menor preço”.

“A questão do repasse é sempre um cabo de guerra. Só se repassa o quanto o mercado aguenta, pois há concorrência. Embora estejamos pressionados nos custos, principalmente em razão do câmbio”, diz André Rebelo, economista e assessor de assuntos estratégicos da Fiesp. Ele explica que o poder de repasse limitado da indústria ao consumidor final explica o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) ter uma variação maior em relação ao Índice de Preços ao Consumidor Amplo.

“Com o auxílio emergencial, temos uma demanda mais aquecida, enquanto a oferta de produtos é menor. Nessa situação, se o varejo endurecer demais nas negociações, pode ficar sem produtos”, completa Terra. 

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Há um descompasso entre produção e oferta no mercado, explica especialista

Segundo Renata de Mello Franco, escassez de insumo é uma das consequências do período pós-isolamento social e também consequência da alta do dólar

Entrevista com

Renata de Mello Franco, economista da FGV/Ibre

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2020 | 22h42

A escassez de insumos e o aumento de preços é resultado do descompasso entre oferta e demanda no pós-isolamento social somado à desvalorização cambial e à alta das commodities no mercado externo, avalia a economista Renata de Mello Franco, da FGV/Ibre. Para ela, o repasse de custos ao consumidor não será integral pois a economia brasileira, embora em recuperação, “ainda está muito deprimida”. 

Abaixo, trechos da entrevista:

Por que falta matéria-prima?

A crise do coronavírus foi diferente das anteriores, por causa da necessidade de fechamento das fábricas. A reabertura ocorre em etapas e, com isso, há um descompasso entre produção e oferta. Até porque a oferta não diminuiu tanto assim, principalmente em alimentos e bens intermediários.

A retomada foi mais rápida do que a indústria previa?

Sim. Há muitas indústrias que estão com estoques baixos. Mas é bom lembrar que a recuperação está sendo desigual. Há setores que já recuperaram perdas da pandemia e outros com dificuldades em voltar, como o de veículos automotores. Os que estão melhor demandam insumos e isso pressiona toda uma cadeia. Por exemplo, para fornecer para a indústria de alimentos, a indústria de embalagem demanda a indústria química por plástico. Quando falta algum produto no elo, há descompasso na cadeia produtiva de vários segmentos.

A alta de preços dos insumos é resultado desse descompasso?

Certamente tem a ver com isso, mas nossa indústria de produtos intermediários é bastante integrada com o mercado externo, tem importação e exportação. Quando se tem o dólar desvalorizado aumenta o custo das importações e isso encarece os custos de quem importa e de quem utiliza o bem em produtos finais. Além disso, a exportação fica atraente. Também tem de levar em conta que os preços das commodities no mercado externo estão bastante favoráveis. 

Qual o impacto na inflação?

O que vimos recentemente é que os preços do atacado subiram mais que os do varejo. Na pandemia as empresas tiveram queda de receita e em algum momento vão precisar recuperar caixa e isso vai impactar o nível de preços. Mas quanto vão conseguir repassar ao consumidor vai depender da recuperação da economia, que ainda está bastante deprimida. Talvez o repasse não seja tão forte porque o mercado de trabalho e a renda vão demorar a se recompor, principalmente com o fim do auxílio emergencial.

Essa situação vai se manter?

É possível que nos próximos meses a indústria consiga se recompor e se reorganizar e a oferta volte a se normalizar, evitando reajustes fortes nos preços finais. Mas enquanto tivermos o câmbio bastante desvalorizado e a pressão das commodities, haverá pressão dos preços no atacado e no varejo.

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