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Pesquisa tem foco no aumento do retorno econômico

Especialista diz que o investimento em tecnologia só acontece quando há projeções de ganho de produtividade

Entrevista com

William Burnquist

Bárbara Bretanha, Especial para o Estado

20 de setembro de 2014 | 13h46

SÃO PAULO - O agronegócio é o setor da economia brasileira em que a tecnologia têm trazido aplicações práticas e certeiras. A produção de grãos, por exemplo, cresceu quase oito vezes entre 1970 e 2013. Pesquisas de ponta também foram e são desenvolvidas para dobrar a produtividade do açúcar e do etanol até 2030. O Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), maior empresa genética de cana-de-açúcar do mundo e carro-chefe em pesquisa do setor, vem produzindo plantas melhoras geneticamente.

“Além de desenvolver etanol de segunda geração, a partir do bagaço e das folhas da cana, nossos pesquisadores já produziram pelo menos 28 tipos de cana, mais resistentes e com pelo menos 15% a mais de açúcar, que vão para o mercado”, afirma William Burnquist, diretor de negócios de melhoramento genético do CTC. Abaixo, o especialista explica como o investimento em pesquisa é essencial à área da cana e outras culturas.

Por que a tecnologia é cada vez mais importante na competitividade aqui e no mundo?

O mundo deve plantar uns 20 milhões de hectares de cana nos próximos anos, dos quais uns 9 estão no Brasil. As usinas estão passando por um momento de dificuldade e muitas delas enxergam o uso da tecnologia como maneira de driblar a crise.

O investimento em tecnologia explica o destaque que o Brasil alcançou nos últimos tempos?

O Brasil, por ser uma potência agrícola, tem sobressaído não só na produção. Ou talvez seja justamente devido ao investimento em pesquisa que tem se destacado como um país agrícola importante. Comparado com outros de mesma dimensão econômica, na América do Sul e na Ásia, estamos bem situados. As pesquisas de cana que são realizadas aqui são reconhecidas como de ponta no exterior. O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) tem sido fundamental para oferecer recursos, como o Prorenova Rural – que tem como objetivo incentivar o plantio de cana e viabilizou algo como R$ 4 bilhões para o setor de cana melhorar a produtividade. Existem também linhas e financiamento de pesquisa na Fapesp.

Como está o setor da cana?

Existem no setor reclamações sobre a política pública para o biocombustível e uma preocupação de que o preço da gasolina esteja sendo mantido artificialmente baixo. A situação hoje é difícil: a produtividade foi afetada pelas secas das últimas duas safras. As margens de comercialização estão mais apertadas e os custos de produção estão subindo. O preço do produto não está acompanhando esse aumento. Mas enxergamos no emprego da tecnologia ferramentas que podem diminuir o custo de produção e aumentar a produtividade.

Estamos falando então de pesquisa associada a resultados econômicos. É isso?

A pesquisa aplicada é voltada para um resultado econômico no futuro. Tem de ser mensurável: é preciso saber quanto investir, quanto o produto vai resultar no futuro. Se por um lado estamos numa situação difícil, o futuro acaba sendo promissor com uso dessas novas tecnologias e pelo investimento em pesquisa.

E quais são as principais tecnologias que têm recebido investimentos no País?

As principais apostas para criar aumento significativo de produtividade são o melhoramento genético de variedades, o uso da biotecnologia e o chamado etanol de segunda geração. A biotecnologia e a transformação genética também possuem aplicações em outras culturas. Para ter uma ideia, hoje, 80% da soja é transgênica. Isso teve impacto muito positivo na lavoura do Brasil,

Os transgênicos devem ser tornar uma solução efetiva para outras culturas?

No caso do algodão, um pouco menos. Mesmo assim já existe uma área considerável de algodão transgênico. A cana ainda não tem nenhuma variedade transgênica comercial aprovada no Brasil. O projeto do etanol de segunda geração, produzido a partir da fermentação do açúcar, criado a partir do bagaço da cana, vai permitir que aumente de 20% a 50% a produção de etanol. E isso, usando a mesma matéria prima que se usa hoje.

Há dificuldade na aprovação dos transgênicos?

Há grupos que ainda são contrários a essas tecnologias, alguns do ponto de vista ideológico. Existe, no entanto, todo um arcabouço legal no Brasil para lidar com essas questões, que avalia de um ponto de vista técnico as culturas transgênicas para assegurar que não tenham nenhum impacto negativo.

O senhor não acha isso bom?

É útil esse sistema regulatório. Há um custo para os centros de pesquisa que é o de provar e reprovar a tecnologia. Por outro lado, dá mais segurança para a sociedade. Recentemente, aconteceu uma audiência pública em Brasília com uma empresa de eucalipto transgênico para discutir com a sociedade os benefícios e riscos que essa tecnologia pode trazer. O sistema é bastante transparente. Em última análise, para a lavoura e para o agricultor, tem sido muito positivo.

E quais os principais problemas que ainda enfrentamos?

Logística. O problema afeta não só cana, mas toda agricultura. O Brasil é eficiente da porteira para dentro: temos sistemas de produção eficientes, mas para distribuir a situação é mais difícil.

QUEM É 

William Lee Burnquist, 61 anos, é engenheiro agrônomo especializado em genética e biotecnologia, em particular da cana-de-açúcar. Mestre em Genética e Melhoramento de Plantas pela Esalq-USP, e PHD em Plant Breeding & Biometry pela Universidade de Cornell, EUA

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