Tiago Queiroz/ Estadão
Tiago Queiroz/ Estadão

Pesquisa vê piora na qualidade de rodovias com corte de investimentos

Sondagem feita pela CNT mostra que quase um quarto da malha rodoviária no País está em estado ruim ou péssimo

Amanda Pupo, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2021 | 21h24
Atualizado 03 de dezembro de 2021 | 07h46

BRASÍLIA - Quase um quarto da malha rodoviária brasileira pavimentada está em estado péssimo (6,9%) ou ruim (16,3%). A maior fatia, 38,6%, encontra-se apenas regular. Com isso, 61,8% das rodovias têm qualidade insatisfatória. É o que mostra nova pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT) sobre as rodovias no País. Em contraste, apenas 38,2% da malha está em boas ou ótimas condições – esse número era de 41% em 2019.

Para a reconstrução e a restauração de vias, a CNT calculou ser necessário o investimento de R$ 62,9 bilhões. Já a manutenção dos trechos desgastados custaria R$ 19,6 bilhões.

A pesquisa da CNT foi baseada no estudo de 109.103 quilômetros de rodovias pavimentadas. A extensão abrange todas as rodovias federais e, ainda, trechos de rodovias estaduais considerados relevantes em termos socioeconômicos.

O quadro de problemas piora no recorte de rodovias sob gestão pública. Nele, apenas 28,2% dos trechos analisados estão em estado ótimo ou bom. O número regrediu em relação à sondagem feita pela CNT em 2019, quando 32,5% das rodovias estavam boas ou ótimas.

O encolhimento também pode ser percebido na injeção de investimentos públicos nas rodovias, quando analisados os recursos federais. Entre 2016 e 2020, o investimento médio do governo foi de R$ 8,9 bilhões, segundo a entidade. Já em 2021, se considerado todo o montante autorizado no Orçamento federal para obras em rodovias, o valor cai para R$ 5,8 bilhões.

“A baixa qualidade das rodovias impacta diretamente na segurança de seus usuários, havendo um maior potencial de risco de acidentes (...). Ela gera, portanto, custos intangíveis e financeiros para a sociedade, que poderiam ser evitados com a melhora da pavimentação, sinalização, densidade e manutenção das rodovias”, aponta a CNT.

Outros custos

Além dos problemas de segurança, a condição insatisfatória das estradas impacta diretamente no bolso do brasileiro. As irregularidades nas rodovias pavimentadas representam, em média, um acréscimo de 30,9% no custo operacional do transporte, aponta a CNT. A situação é causada pelo aumento de despesas com a manutenção do veículo e maior demanda por reparos de motor, por exemplo.

A análise por regiões mostra que o Norte do País é onde existe uma maior proporção de pavimentos com algum tipo de irregularidade, chegando a 75,5%. O ranking é seguido por Centro-Oeste (71,2%); Nordeste (65,9%); Sul (64,8%); e Sudeste (62,3%).

Um efeito negativo relevante da má qualidade das estradas aparece no consumo do combustível. O tráfego nas rotas com irregularidades pode resultar no aumento de consumo médio em 5% do combustível queimado no veículo, quando comparado com o gasto em estradas com melhores condições.

Dessa forma, aponta a CNT, é possível estimar que, em 2020, 956 milhões de litros de diesel foram consumidos de forma desnecessária, o que ocasionou uma descarga de aproximadamente 2,53 milhões de toneladas de carbono na atmosfera.

Acidentes

Outro dado destacado pela entidade é que, enquanto o valor de investimentos pagos em rodovias federais neste ano foi de R$ 4,16 bilhões, o custo com acidentes movimentou o dobro. A estimativa é de que até setembro R$ 8,85 bilhões tenham sido gastos em razão de acidentes. “É histórico no Brasil o custo dos acidentes superar o valor investido em infraestrutura rodoviária, realidade que poderia ser evitada com melhora da pavimentação, sinalização e geometria das rodovias”, afirma a confederação.

Uma das medidas defendidas pela CNT para reverter esse cenário é que as outorgas arrecadadas em concessões de rodovias sejam revertidas em investimentos no próprio setor. Hoje, esses recursos vão para a conta do Tesouro, e não necessariamente são usados na infraestrutura pública. A confederação defende uma mudança na regra, assim como já é feito no segmento de ferrovias.

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