Pesquisa vira investimento no novo PIB

IBGE disse ontem que está alterando a metodologia de cálculo do PIB; o objetivo é adequar indicador às recomendações internacionais

RIO, SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2012 | 03h07

Assim como a aquisição de software, os gastos com pesquisa e desenvolvimento passarão a ser computados como investimentos, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O órgão está alterando a metodologia de cálculo do Produto Interno Bruto (PIB), como antecipou o 'Estado'.

O objetivo da mudança é adequar o cálculo às recomendações internacionais. O resultado será um aumento da participação do investimento no PIB, no momento em que o País encontra dificuldades para investir mais. Segundo apurou a reportagem, o aumento pode ser de 1% a 1,5%. Em junho, a taxa de investimentos estava em 18,8% do PIB.

"Tanto software quanto pesquisa e desenvolvimento vão ser considerados investimentos. O saldo final da mudança eu não sei", declarou a presidente do IBGE, Wasmália Bivar. "É uma mudança metodológica, não significa que vai alterar a taxa de investimento."

O PIB do terceiro trimestre de 2014 já pode ser divulgado sob a nova metodologia, dependendo da capacidade do IBGE de concluir o estudo. Caso contrário, o novo cálculo sairá no início de 2015, quando forem divulgados os resultados do PIB referentes ao quarto trimestre de 2014. Mas a série deve ser reajustada de 1996 em diante.

A mudança técnica no cálculo do PIB foi aprovada por especialistas. "Nos Estados Unidos e em outros países, há muito tempo o software entra nos investimentos", lembrou José Roberto Mendonça de Barros, que criticou apenas o momento em que a mudança na metodologia começa a ser feita. "Toda vez que tem algo em dificuldade, muda-se a metodologia", completou o economista, referindo-se à queda recente da taxa de investimento.

O novo cálculo pode resultar na obtenção de dados mais fidedignos, diz o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Neri. "Vai refletir melhor o que está acontecendo na economia. Deve mostrar com mais clareza que o Brasil está crescendo, na média, mais do que os dados do PIB até agora mostravam", avaliou.

Mendonça de Barros criticou, no entanto, outro ponto da mudança da metodologia do IBGE: a inclusão de serviços terceirizados pela indústria na conta do PIB industrial. Segundo ele, desde os anos 90, com a abertura da economia, a terceirização ganhou força em atividades como limpeza, segurança e tecnologia.

O fenômeno contribuiu para a queda do peso da indústria no PIB. "Nessa altura, isso ficou tão para trás, que não sei se não fica uma coisa meio desajeitada. Seria para fazer comparações mais longas. Mas, de 15 anos para cá, a terceirização já se estabeleceu firmemente", emendou Mendonça de Barros.

Paulo Francini, diretor do departamento de economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), defende a mudança. Na opinião dele, atividades que hoje são contabilizadas como serviços, a exemplo de costureiras terceirizadas por uma confecção, também agregam valor ao produto. Ele ressalta, no entanto, que a mudança no cálculo não altera a tendência de desindustrialização. "A série toda será revista e a indústria vai continuar perdendo importância no PIB."

Outra alteração prevista é na atividade de edição e impressão, que sai da indústria e passa a integrar o setor de serviços. "Na nova classificação, algumas atividades que eram da indústria passaram a ser serviços. O resultado final depende da contabilidade dessas mudanças", explicou Wasmália, para quem a indústria pode até perder peso no PIB.

O IBGE informou ainda que estão em estudo mudanças nas delimitações do setor público, na contabilização das atividades nacionais em território estrangeiro e das operações transacionais, como Itaipu, mas não deu detalhes. / DANIELA AMORIM, GLAUBER GONÇALVES, VINICIUS NEDER E RAQUEL LANDIM

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