UANDERSON FERNANDES / ESTADÃO
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Pesquisador diz que estratégia de Bolsonaro de formar maiorias pontuais dificulta agenda liberal

"Como um presidente minoritário de extrema direita vai formar maiorias pontuais?", questionou Octavio Amorim, pesquisador da FGV

Daniela Amorim e Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2019 | 13h21

RIO - A estratégia do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL) de formar maiorias pontuais para aprovar projetos de interesse do governo dificulta a implementação da agenda liberal no País, avaliou Octavio Amorim, pesquisador da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (Ebape/FGV), durante o seminário promovido pelo Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre/FGV) em parceria com o Estadão, no Rio de Janeiro, para analisar os 100 primeiros dias de governo.

“Se a agenda liberal é para prosperar, seria muito melhor ter maioria no atacado, não no varejo. Esse é um modelo de governança muito difícil, quase simplório. Numa estratégia de maiorias pontuais, o presidente tem que ser equilibrista. Como um presidente minoritário de extrema direita vai formar maiorias pontuais?”, questionou o pesquisador da Ebape/FGV. “Um naco do programa liberal vai ficar na boca dos tubarões”, ironizou Amorim.

Amorim lembrou que há diferentes grupos na base do governo, que têm se chocado publicamente, o que dificulta consenso entre os temas que precisam ser debatidos, uma vez que acabam sendo negociados com cada um deles. “O presidente até hoje não estabeleceu a importância relativa dos grupos que estão no governo nem a hierarquia”, lembrou.

Para Samuel Pessôa, o presidente inaugurou uma forma de relacionamento com o legislativo que ainda não tem sido bem-sucedida, pelo menos na questão da discussão da reforma da Previdência.

“A gente tem um presidente que tem uma nova forma de relacionamento com o legislativo, uma nova prática. A gente não sabe exatamente o que é, mas parece que é ‘eu faço projeto com minhas equipe técnica, um projeto que é bom para o País, eu mando para o Congresso e ele tem que aprovar’. A coisa tem que andar por gravidade, sem a liderança da figura da Presidência para tocar o projeto. Na Previdência está indo muito mal”, opinou Pessôa.

No entanto, o pesquisador do Ibre/FGV acredita que Bolsonaro tenha sido bem-sucedido no sentido de conseguir jogar uma responsabilidade do executivo para o congresso. “Acho que é um custo muito alto, porque a gente vai aprovar uma Previdência muito tarde e muito pequena. Mas parece que ele conseguiu começar a mudar as coisas”, completou Pessôa.

A nova forma de operar do governo Bolsonaro deve resultar numa “agenda caótica por um bom tempo”, alertou Amorim. “O recurso mais precioso em qualquer lugar do mundo é o tempo. Se o presidente não entra para negociar essa agenda com diversos partidos, o risco de caos é muito grande. O potencial de interrupção da agenda liberal é muito grande”, acredita o pesquisador da Ebape/FGV.

Segundo Fernando Veloso, também pesquisador do Ibre/FGV, a votação surpresa e quase unânime do orçamento impositivo no congresso confirma uma mudança na condução da agenda. “Não sei se vai ser bom ou ruim, mas a dinâmica mudou”, disse Veloso. “O congresso vai votar a agenda deles”.

O secretário executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, Roberto Fendt, defendeu que a sequência de reformas proposta durante a campanha seja seguida, sob pena de penalizar alguns setores da economia: primeiro a reforma da Previdência, seguida pela reforma tributária, e só então a prometida abertura comercial.

“A meu ver, esse sequenciamento é adequado. Porque o grande problema de reformas é um erro de sequenciamento”, afirmou Fendt.

Estadão e FGV

Analisar os 100 primeiros dias do governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). É esta a proposta do evento que acontece nesta sexta-feira, 12, no Rio de Janeiro. O debate contará com pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), convidados e jornalistas do Estado. Confira a programação completa.

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