'Pessimismo atual é frustração com o fraco crescimento', diz Loyola

Para o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, o pessimismo atual é resultado de uma frustração com o fraco o crescimento, apesar de todos os esforços do governo. "Eu acho que diria que faz sentido o pessimismo, porém (isso) não deve ser interpretado como se o Brasil estivesse à beira de uma crise."

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2013 | 02h11

Faz sentido todo esse pessimismo com a economia brasileira?

GUSTAVO LOYOLA - Normalmente quando você está muito otimista e tem uma decepção, você vai para o lado pessimista. Não necessariamente esse pessimismo significa a iminência de uma crise. O País vinha crescendo a uma taxa bastante razoável, pelo menos até 2010, e, de repente, essa taxa caiu. Apesar de todos os esforços, o governo não conseguiu fazer o crescimento decolar. E existe uma frustração nas classes C e D, cujas expectativas não estão podendo ser atendidas. O mesmo se diz dos empresários que esperavam um crescimento maior do mercado de consumo. Outro aspecto é a inflação, que atingiu em cheio os de menor renda. Ela não está fora de controle, mas é incômoda. Eu acho que diria que faz sentido o pessimismo, porém (isso) não deve ser interpretado como se o Brasil estivesse à beira de uma crise. Não é nada disso. A economia está se acomodando num patamar medíocre de crescimento. A questão é como ultrapassar esse marasmo.

O governo aumentou o discurso contra esse quadro. Como se reverte a queda na confiança?

GUSTAVO LOYOLA - Esse quadro é revertido não só com o discurso. Obviamente, ninguém quer ver o governo muito pessimista porque estaria dando sinais ruins. Por outro lado, não adianta o governo viver no lado da fantasia. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, dizia há uns meses que o Brasil cresceria 4%. Isso não aconteceu e apenas serviu para prejudicar a credibilidade dele como ministro. Em algumas áreas há uma tentativa de correção de rumos. Eu vejo o Banco Central mais assertivo no combate à inflação e o governo empenhado no programa de concessões, para ver se destrava um pouco o nó da infraestrutura. Mas há a necessidade de um reequilíbrio na política fiscal, que ficou menos transparente.

É fácil recuperar a confiança do empresariado?

GUSTAVO LOYOLA - Poucas das maiores empresas do mundo podem se dar ao luxo de estar fora do Brasil. Então, o Brasil sempre vai ser destinatário de investimento. As empresas sobreviveram a situações muito piores no Brasil e aqui ficaram. Portanto, não acho que o País vai ser abandonado.

Qual o impacto do pessimismo?

GUSTAVO LOYOLA - O que dá para medir é que a economia está desacelerando. Quando há um declínio da confiança, ele se transforma em queda de crescimento. Quando o consumidor fica confiante, a economia começa a se recuperar - é o que está acontecendo nos Estados Unidos. Mas pode haver uma recuperação da confiança daqui até o fim do ano - se ocorrer uma queda dessas manifestações, se o governo for bem-sucedido nos leilões de concessões e se existir uma política fiscal austera.

O governo tem vencido ou não essa batalha da expectativa?

GUSTAVO LOYOLA - Até agora o governo não conseguiu vencer. Sinto que existe um sentimento de desapontamento. Felizmente não é um sentimento de crise. Acho que ainda há tempo para que isso seja revertido sem que traga maiores consequência no longo prazo. Não adianta fazer discurso bonito, inaugurar maquete de obra. Um erro muito cometido no Brasil é o presidente governar baseado em assessoramento de marqueteiro. Política econômica não se faz com marqueteiro.

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