Pessimismo em alta

A possibilidade de rebaixamento da nota de risco do Brasil é a pá de cal no cadente otimismo dos investidores em relação à economia brasileira, que nos últimos dois anos murcha em ritmo acelerado diante da confusa condução da política econômica e da crescente piora dos indicadores macroeconômicos. Quando a mesma agência Standard & Poor's - que hoje ameaça rebaixar - elevou o Brasil à posição de "grau de investimento" em 30 de abril de 2008, agentes econômicos vibraram, a Bovespa disparou, chegando a 66 mil pontos (hoje oscila em 52 mil), e o ex-presidente Lula comemorou: "É o aval de que passamos a ser donos do nosso nariz".

SUELY CALDAS* , O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2013 | 02h07

Hoje a agência cita um conjunto de fatores que contribuíram para a decisão de mudar de "estável" para "negativa" a expectativa com a saúde da economia brasileira, mas deu ênfase a alguns: resultados medíocres do Produto Interno Bruto (PIB); inflação em alta; expansão dos gastos do governo; exportações em queda; investimentos privados em declínio; e crescimento da dívida pública. Em resumo, investidores estrangeiros que aplicam suas poupanças no Brasil têm a confiança abalada e o movimento seguinte é desviar seu investimento para países que oferecem mais segurança. A falta de confiança na forma como o governo do PT conduz a política econômica extrapola as fronteiras estrangeiras e tem se instalado aqui mesmo em nosso território, com o capital privado reticente, recuado, intimidado diante da instabilidade de regras que mudam com sucessivas intervenções do governo e golpeiam decisões de investir na produção.

O ativismo desenfreado e, muitas vezes, desarvorado do governo Dilma acaba por produzir um cenário confuso, de percepção de riscos difusos e impressionante aceleração no ritmo de piora dos fundamentos da economia e dos indicadores macroeconômicos. A começar pelo PIB, crescentemente decepcionante, a resistente e espaçosa inflação, o setor externo em galopante déficit, investimentos que não decolam, gastos públicos inexplicavelmente frouxos e a dívida pública em expansão. Com enorme frequência, as más notícias surgem e dominam o cenário, o pessimismo avança e, por serem mais fortes e abundantes, ofuscam as boas notícias.

E há boas notícias: o Brasil vai produzir este ano 184,3 milhões de toneladas de grãos, a maior safra da história; em abril, a produção industrial interrompeu a longa curva de queda e cresceu 1,8% em relação a março; a nova regulação dos portos tem tudo para gerar investimentos; o governo retira o IOF de 6% para estrangeiros aplicarem em renda fixa; foi um sucesso o leilão de novas áreas para exploração de petróleo.

Mas as boas notícias desaparecem, são diluídas pela abundância das más: a inflação resiste em junho e pode ultrapassar o teto da meta de 6,5%; o déficit público é o segundo maior da história; o PIB cresce só 0,6% e expectativas pioram com a estagnação do consumo das famílias; o governo expande em R$ 30 bilhões a dívida pública com capitalizações do BNDES e da Valec; déficit externo é recorde e chega a 3% do PIB; o governo muda as regras para evitar fracasso na privatização de rodovias; o Brasil perde a liderança para a África em atração de investimento externo. Há outras, mas paramos com a mais recente: nota de risco do Brasil ameaçada de rebaixamento.

"Não se mexe em time que está ganhando" é a máxima infalível que, desde sempre, funciona bem em futebol. Foi o que aconteceu com a última rodada de licitação de novas áreas de exploração de petróleo, realizada em 14 de maio último. O sucesso do leilão, o retorno ao país de grandes empresas estrangeiras, foi resultado da simples e sábia decisão de manter as mesmas regras que prevalecem desde as primeiras licitações do governo FHC. Já o oposto aconteceu com as licitações de rodovias - as regras mudaram mais de uma vez porque o governo insiste em fixar e engessar a taxa de retorno do investimento em vez de deixar que a disputa entre os concorrentes se encarregue de derrubar a taxa. Diante da falta de interesse do investidor, a solução é mudar as regras para tentar atraí-lo, tarefa até agora sem sucesso. No caso dos aeroportos, novamente, a insistência em manter a Infraero como majoritária no negócio adiou o leilão dos terminais do Galeão e de Confins, ameaçados de não concluir as obras a tempo da Copa do Mundo.

A imagem sumiu. Quando Lula escolheu Dilma Rousseff para suceder-lhe, vendeu ao País a imagem da "mãe do PAC", a mulher que sabe planejar, cobrar resultados, gerenciar o País, fazer acontecer o investimento - público e privado. Mais mal do que bem, e até onde a emperrada máquina pública permite, ela cumpriu esse papel quando ministra da Casa Civil. Trazia a experiência de ter articulado um plano para evitar o racionamento de energia no Rio Grande do Sul na crise do apagão em 2001. E na gestão Lula criou outro plano para acelerar investimentos públicos e privados - o PAC.

Mas, ao chegar ao topo do poder, Dilma não conseguiu dar corpo a essa imagem. No início ela priorizou estimular o consumo e a geração de emprego, acreditando que o crescimento econômico e o investimento viriam a reboque. Não vieram. Desonerações fiscais, farto crédito subsidiado do BNDES, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica não evitaram o fiasco: em 2011 o PIB cresceu 2,7%, recuou para 0,9% em 2012 e as previsões para 2013 não passam de 2,5%, em contraste com países emergentes, inclusive os da América Latina, que têm crescido a taxas bem mais elevadas nos últimos anos. Apesar disso, o desemprego continua baixo e o consumo só agora declina, mas as famílias se endividaram e a inadimplência cresceu.

E o talento para planejar projetos, estimular o capital privado e fazer acontecer o investimento? A força ideológica das privatizações envergonhadas do PT atrapalhou, emperrou e adiou investimentos, mas não só. Quando a ficha caiu e o governo, finalmente, reconheceu ser necessário atrair capitais privados, faltaram planejamento e projetos viáveis, competentes, atraentes. Muitas licitações estão previstas para acontecer até o final do ano. Serão bem-sucedidas? Tomara. Mas esse rebaixamento de risco do Brasil vai prejudicar.  *É JORNALISTA, PROFESSORA DE COMUNICAÇÃO DA PUC-RIO, E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR

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