Pessoal qualificado pena com desemprego

Por 8 anos, houve um ciclo virtuoso de contratações no setor metal-mecânico, com expansão média anual de 10%; cortes começaram em 2014

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

24 Maio 2015 | 03h00

Há duas semanas, espalhou-se pelo WhatsApp, o aplicativo de mensagens por celular, que a empresa baiana ISI Engenharia estava recebendo currículos para preencher 12 mil vagas num contrato firmado com a Refinaria Abreu e Lima, no Porto de Suape, em Pernambuco. A empresa é especializada na construção e gerenciamento de plataformas marítimas e estruturas industriais, especialmente no setor de óleo e gás. 

O escritório de Recife, de fato, estava preenchendo vagas, mas eram apenas 180 e o processo já estava na fase final. A falsa mensagem, porém, provocou alvoroço. Levou uma multidão de desempregados para a porta da filial pernambucana. “Parecia um Rock in Rio de gente: eram milhares – milhares mesmo – de pais de famílias desesperados para entregar o currículo”, conta Elisângela Santos, funcionária do RH da ISI. Temendo que a aglomeração terminasse em tumulto, a polícia foi chamada para escoltar a saída dos funcionários. 

A inusitada cena ilustra bem a que ponto chegou o estado de ânimo dos trabalhadores do setor metal-mecânico em Pernambuco, um dos mais dedicados a acompanhar a expansão dos negócios de óleo e gás no Estado. 

Retração. Por oito anos, houve um ciclo virtuoso de contratações. O número de trabalhadores foi de 18 mil para 38 mil, crescimento médio anual de quase 10%. No ano passado, a tendência virou. O ano fechou com uma retração de quase 9%. Mais de 4 mil postos foram fechados. Desde outubro, 2 mil foram demitidos, pelas estimativas do Sindicato dos Metalúrgicos, 1,5 mil só no estaleiro Atlântico Sul. Mas não dá para saber ao certo. Nenhuma empresa divulga quantos demitiu e ainda tem trabalhando. 

Procurado, o Atlântico Sul, por meio de sua assessoria, informou que não divulga os números. A situação se complica porque além de sua crise particular, o setor sofre com a retração da economia brasileira e com o ajuste fiscal, que ceifou obras públicas. “Dilma esteve aqui e não me deixaram perguntar qual é o futuro do setor – não sabem a resposta”, diz Henrique Gomes, presidente do sindicato. 

No momento em que concedia a entrevista ao Estado, na manhã da última terça-feira, Gomes recebeu um telefonema confirmando a demissão de mais 150 empregados no estaleiro. Não conteve o desânimo ao desligar o celular. “Fomos eleitos para melhorar o trabalho no chão de fábrica, mas em oito meses a gente fica debruçado sobre essa situação: as pessoas que se qualificaram, a um custo muito alto, agora estão aí, sem trabalho, voltando para a carrocinha de cachorro-quente, para a coxinha”, disse Gomes. 

Numa sala a poucos metros ocorria parte das 28 rescisões agendadas para o dia. Todos eram ex-funcionários do estaleiro. Jeremias Batista, 50 anos, deixou para trás a vida de salário mínimo, na lavanderia de um hotel, para entrar num dos primeiros grupos treinados no Senai e no próprio estaleiro para trabalhar na construção de petroleiros. Quando foi demitido, recebia quase R$ 3 mil por mês, mas agora ajuda a esposa numa barraca de praia no balneário de Porto de Galinhas.

Ao seu lado, Maria Verônica Moreira Ramos, 37 anos, também aguardava a sua vez para fazer a rescisão. Ela também estava entre os primeiros contratados. Fez curso de soldador no Senai e bancou um curso técnico de mecânica. Orgulha-se do que aprendeu a fazer: “Tem um pouco do meu suor no João Cândido (primeiro petroleiro produzido pelo estaleiro)”. Não consegue outro emprego na área, mas quer insistir. “Vou procurando e vivendo com o que guardei até quando der – mas não vai dar por muito tempo”, diz.

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