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Pessoas que não querem se vacinar começam a pesar na volta ao trabalho e abertura plena dos países

Risco de desenvolvimento de novas variantes, além do espalhamento da Delta, permanece elevado; pandemia segue entre nós

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2021 | 04h00

Duas sombras estão começando a pesar na recuperação global. A manchete do Wall Street Journal do último dia 3 dizia: “A variante Delta paralisa a retomada econômica da Ásia, após a recuperação inicial”. 

De fato, a Indonésia passou a ser o epicentro atual da pandemia, tendo atualmente uma média diária de mais de 1.700 mortos. E não é o único país da região afetado, pois Vietnã, Malásia, Mianmar, Filipinas e Tailândia também sofrem novos surtos, após um período de relativo sucesso no combate ao vírus. 

Na China também existem problemas. O governo fez uma megaoperação para conter o surto, que apresenta inúmeros casos em 33 províncias, revelando grande espraiamento geográfico do vírus. Também nesses dias, Pequim foi blindada, tendo sido canceladas as viagens destinadas a essa cidade. 

Em ponto menor, Austrália e Japão também têm adotado providências de contenção. 

Mas o pior caso é o da Índia. Estudo liderado por Abhishek Anand, do Centro para o Desenvolvimento Global, sediado em Washington e citado pela The Economist, estimou que 4 milhões de pessoas morreram por conta do covid até o fim de junho, número dez vezes maior que a estimativa oficial de óbitos. A economia está sendo duramente atingida, tanto que o FMI reviu sua projeção de crescimento para o ano corrente, agora em julho, de 12,5% para 9,5%, o que mal compensa a queda de 8% do PIB no ano passado. As perspectivas de retomada sustentada a partir do ano que vem são limitadas.

Começa a pesar em muitos países o efeito de grandes contingentes de pessoas que não querem se vacinar, o que atrapalha a volta ao trabalho e a abertura plena. Falo aqui de Estados Unidos, França e Polônia, por exemplo, onde 25%, 41% e 44%, respectivamente, dos cidadãos recusam vacinas e máscaras, numa inacreditável demonstração de ignorância e atraso que, incidentalmente, também existe no Brasil, embora em proporção muito pequena. 

Por conta de fatos como esses, e considerando que em regiões como África e América Latina a vacinação anda muito devagar, o risco de desenvolvimento de novas variantes, além do espalhamento da Delta, permanece elevado. A pandemia segue entre nós. 

Como já vem ocorrendo há vários anos, o clima em 2021 tem mostrado uma sucessão de grandes problemas, que acabam por colocar um estresse adicional na recuperação. Já vimos uma onda de calor no oeste dos EUA e do Canadá, secas nos EUA e no Brasil, incêndios grandes na Califórnia e na Turquia e enchentes fortes na Alemanha e na Bélgica. Ainda teremos muitos eventos no ano corrente, mas é possível já contabilizar expressivas perdas humanas e de patrimônio, além de colheitas que auxiliam a manter as pressões inflacionárias bastante vivas. A lição que fica é que o mundo ainda tem muito o que andar para que se restabeleça a normalidade.  

* * * * *

Muitos analistas passaram a trabalhar com um cenário bastante otimista: substanciais melhoras fiscais, avanço nas reformas, PIB crescendo bem acima de 5%, velocidade na vacinação e até dólar a R$ 4,70. Isso me levou a escrever em 31/05 matéria com o título “Reformas à moda do Centrão”, chamando o otimismo de exagerado. 

Continuo achando a comemoração prematura. Não apenas por conta das sombras sobre a recuperação mundial, mas pelas seguintes razões adicionais: 

  1. Está claro que o governo subestimou o risco da crise hídrica e seu impacto sobre a atividade, neste e no próximo ano. Em consequência, a pressão inflacionária resultante de elevações substanciais na tarifa já está evidente no IPCA;
  2. As autoridades também subestimaram gravemente a inflação. Com isso, nesta semana, o Banco Central teve de acelerar a alta de juros e comunicar que vai mobilizar uma política monetária ativa. A Selic deve ultrapassar os 7% com folga. Em consequência, pessoas e empresas fortemente endividadas, e que não são poucas, sofrerão bastante;
  3. Hoje é perceptível a má qualidade das reformas à la Centrão, como a lei da Eletrobras e o novo Imposto de Renda;
  4. O apetite do Centrão e do presidente da República para realizar gastos eleitorais evidenciam a precariedade do ajuste fiscal. Até um “calote liberal” está entrando na equação;
  5. Finalmente, a antecipação da sucessão presidencial está elevando a incerteza aos céus. 

É um pouco cedo para se declarar vitória.  

* * * * *

Perdemos nesta semana o professor José Arthur Giannotti. 

Não tenho palavras para descrever minha tristeza. Foi um privilégio ter convivido com ele.

* ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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