Petistas e tucanos

O economista Edmar Bacha diz que a economia não cresce por duas razões: "Na infraestrutura o governo está na direção certa, mas andando de costas, e na política industrial segue na direção errada, mas de frente". E explica: "Se anda de costas, não olha para onde vai, não enxerga o futuro, atrapalha-se, não consegue fazer política de concessões, sai tudo errado. E na política industrial segue em frente na direção errada, espalhando desindustrialização".

Suely Caldas *,

17 de março de 2013 | 02h05

Depois do Plano Real e do governo FHC, Bacha foi dar consultoria econômica ao banco de investimento BBA, aposentou-se da atividade privada e hoje dirige o Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças, um ninho acadêmico tucano frequentado por economistas de diferentes correntes, incluindo os do PT. Em novembro do ano passado, por lá passou o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, que falou sobre o indefinido tema "Reflexões sobre o País", para um grupo fechado de sócios da Casa das Garças. Junto com o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, Edmar Bacha foi escalado pelo PSDB para trocar ideias com o futuro candidato tucano à Presidência, Aécio Neves, e com ele definir o programa econômico da campanha eleitoral.

Tucanos e petistas concordam em que há dois focos de ação para dinamizar o crescimento da economia: o investimento em infraestrutura e a política industrial. Mas entre eles há um abismo separando dois caminhos para chegar lá.

Na política industrial a divergência é maior. Enquanto o governo Dilma dirige seu arsenal para dentro do País, oferecendo proteção tarifária, incentivos fiscais e de crédito para as empresas e atirando em muitas direções, com frequentes intervenções, os tucanos defendem menos intervencionismo e uma política voltada para fora, com maior abertura tarifária e centrada em acordos comerciais com outros países. "Em 1985 a indústria respondia por 25% do PIB, no final do governo FHC, 20%, e hoje caiu para 12%. Fazer renascer a indústria brasileira é integrá-la à rede internacional, negociar acordos comerciais com outros países, é fazer política voltada para o mundo, tirar o Brasil do isolamento", opina Bacha. Isso implica reduzir e não elevar tarifas de importação, estimular a concorrência com o exterior, induzir as empresas a melhorarem a qualidade de seu produto e buscarem lucro na produtividade e na eficiência em gestão.

Parte importante na política industrial do governo Dilma, as regras de exigência de conteúdo local seriam abolidas no programa econômico tucano: "As empresas estão reticentes em investir. Primeiro, pela incerteza em relação ao futuro, depois, porque exigências de conteúdo local encarecem o produto, enfraquecem o poder de competição", argumenta Bacha. Ele cita como "exemplo mais patético" as exigências feitas às indústrias de petróleo que vierem a investir na área do pré-sal e que hoje já fazem a Petrobrás pagar quase o dobro por plataformas fabricadas por estaleiros nacionais. "No pré-sal mudaram o modelo só para dizer que faziam diferente de FHC e imagino estarem hoje arrependidíssimos", ironiza.

A política de investimentos de FHC não contemplou nenhum projeto de Parceria Público-Privada (PPPs). Ao chegar ao governo, Lula listou 20 e não executou nenhuma. Hoje os tucanos estão convencidos de ser este o caminho do investimento em bens públicos e têm promovido debates na Casa das Garças. Na segunda-feira, ouviram palestra do economista chileno Eduardo Engel, das Universidades do Chile e de Yale, um especialista em PPPs. "Na política de concessões públicas", diz Bacha, "o erro mais absurdo deste governo é exigir que a taxa de retorno do consórcio vencedor fique limitada em 5,5%. Impor modicidade tarifária como condição básica dos leilões só consegue atrair empresas oportunistas, não sérias, que atendem à exigência, vencem a licitação, mas depois não investem o que prometeram e procuram o governo para renegociar tudo." Ele cita o caso das empresas que ganharam a concessão de estradas gaúchas e hoje pedem reajuste da tarifa de pedágio para investir.

* Suely Caldas é jornalista e professora da PUC-Rio.
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