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PETROBRÁS: A HISTÓRIA NAS PÁGINAS DO 'ESTADO'

Estatal, que já foi a maior empresa brasileira em valor de mercado, sempre sofreu com falhas na gestão ao longo de mais de 60 anos de existência

Malena Oliveira, O Estado de S. Paulo

13 Fevereiro 2015 | 07h00

Nascida na década de 1950, a Petrobrás tornou realidade a produção de petróleo no Brasil. Entretanto, em vários momentos de sua história, a companhia esteve envolvida em escândalos financeiros e foi usada para cumprir políticas de governo. Os desmandos e a corrupção na estatal causaram diversos prejuízos à empresa, listados pelo analista Richard Rytenband para o Estado.

O congelamento do preço da gasolina para conter a inflação é um exemplo (há registros dessa medida já em 1982). Como a Petrobrás importava petróleo, tinha que cobrir os custos da operação, uma vez que o arrecadado nas vendas não era suficiente para fazer a conta fechar. 

De 2012 a 2014, a mesma política foi adotada também para conter a alta generalizada dos preços. A defasagem foi revertida apenas no ano passado, com a queda do preço do petróleo no mercado internacional.

 

Terra de ninguém

"A Petrobrás não é um feudo", dizia o deputado federal Joaquim Bevilacqua (MDB). A data era 11 de dezembro de 1977. Na época, a empresa foi denunciada por favorecer a distribuidora de combustíveis Comgral, concedendo-lhe crédito de Cr$ 28 bilhões. A empresa estava à beira da falência e a relação entre o dono da Comgral e o presidente da Petrobrás, na época o general Araken de Oliveira, foi questionada por Bevilacqua em discurso na Câmara dos Deputados.

Venda da sede 

Em dezembro de 1982, a Petrobrás vendeu seu edifício-sede, no Rio, para a Petros, fundo de pensão dos funcionários da estatal. A construção, que valia Cr$ 35 bilhões na época, foi vendida pela empresa para saldar dívidas. A Petrobrás passou, assim, a pagar aluguel para a Petros.

Acidente em Vila Socó

Em 24 de fevereiro de 1984, um vazamento de gasolina de um duto da Petrobrás causou um dos maiores incêndios da história do País em uma comunidade na Vila Socó, em Cubatão (SP). Depois da explosão, 93 corpos foram encontrados no local, mas moradores afirmaram que o número de vítimas que desapareceram em meio às chamas foi bem maior e chegava a 508. Segundo a Agência Brasil, a Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Cubatão quer que a Petrobrás e o Estado corrijam o valor das indenizações às famílias e pretende levar o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos. A comissão afirma que o governo da época abafou o caso. Em 2005, a reportagem do Estado revisitou o local do acidente.

Esquema BR 

Em dezembro de 1988, um relatório entregue ao conselho de administração da Petrobrás revelou um esquema que, caso fosse concretizado, resultaria em propinas de US$ 4 milhões por mês. Na época, o assistente da presidência da BR Distribuidora, Geraldo Magela de Oliveira, foi apontado como o principal articulador. Segundo o documento, o executivo se reuniu com representantes de bancos que prestavam serviços à Petrobrás e pediu que recursos de operações financeiras fossem depositados em contas no exterior. 

Esquema PP

Em março de 1992, uma série de reportagens do 'Estado' revelou um esquema de pagamento de propina na estatal. A operação era liderada pelo secretário de Assuntos Estratégicos Pedro Paulo Leoni Ramos, o chamado de "PP". Milhões foram desviados via venda e importação de combustíveis e compras do fundo de pensão. O escândalo foi um dos primeiros a lançar suspeitas contra o governo Collor, presidente que sofreu impeachment em 1992. Com o esquema, a Petrobrás perdeu mais de Cr$ 3,5 bilhões em operações irregulares e atrasou o pagamento de mais de 50 mil funcionários.

Privatização à vista?

Em 1997, foi criada a Agência Nacional do Petróleo (ANP) e a Petrobrás deixou de ser a única empresa autorizada a explorar o óleo em território nacional. Além disso, divergências entre o governo e a estatal causaram uma verdadeira faxina no comando da companhia. Na época, falava-se em privatizar a Petrobrás em um período de dois a três anos. A partir de 1999, a estatal começou a fazer as mudanças necessárias para ser listada na Bolsa de Nova York. A companhia buscou corrigir o déficit em seu fundo de pensão e fez ajustes em seu balanço trimestral para se adequar à normas internacionais de contabilidade. 

P-36

Em março de 2001, explosões fizeram com que a plataforma P-36, na Bacia de Campos (na época a maior do mundo), afundasse. A construção havia custado US$ 350 bilhões, US$ 70 bilhões acima do custo inicial por problemas com fornecedores. 

 

Abreu e Lima e Pasadena

Dois investimentos da Petrobrás foram questionados após seu alto custo levantar suspeitas. A refinaria de Pasadena, no Texas, foi comprada em 2006 pela Petrobrás da empresa belga Astra Oil após decisão unânime do conselho de administração da petroleira. O negócio, realizado em duas fases, previa inicialmente que a Petrobrás seria dona de 50% da refinaria. Entretanto, após desentendimentos com a Astra Oil, a estatal se viu obrigada a adquirir a outra metade de Pasadena e investir no total US$ 1,18 bilhões, quantia muito acima do valor de mercado da refinaria. 

Na época, a presidente Dilma Rousseff (que era ministra-chefe da Casa Civil) era membro do colegiado. Em março de 2014, ela revelou, em carta ao Estado, que apoiou o negócio com base no parecer de "documentos falhos", que não avaliaram adequadamente os riscos da empreitada.

A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, passou a produzir combustíveis e derivados de petróleo em janeiro deste ano. Após uma década de investimentos em projetos, também considerados superfaturados, a Petrobrás gastou US$ 18,8 bilhões com a RNEST.

Operação Lava Jato

Em março do ano passado, a Polícia Federal deflagrou a Operação Lava Jato, que revelou um esquema de corrupção sem precedentes na história do País. As várias fases da operação trouxeram revelações estarrecedoras sobre desvios de recursos e os prejuízos ainda não foram totalmente contabilizados.

As investigações também puseram em xeque a credibilidade de grandes empresas do setor de construção, acusadas de pagamento de propina para obter favorecimento em contratos com a estatal. 

Renúncia de Graça e perda do 'selo de boa pagadora'

Em fevereiro de 2015, a presidente da estatal, Graça Foster, renunciou. Sua cadeira passou a ser ocupada por Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil. Para resgatar a confiança do mercado, a companhia precisou correr contra o tempo para estimar as perdas com corrupção e aprovar seu balanço auditado de 2014, sob o risco de não ter mais como obter financiamentos. A Petrobrás chegou a perder o grau de investimento (a certificação de que a empresa pagaria em dia suas dívidas) pela agência Moody's.

Página virada?

A Petrobrás divulgou seu balanço auditado no fim de abril de 2015 e encerrou um capítulo dramático de sua história, inclusive ao cumprir o prazo determinado pela agência Standard & Poors para não retirar seu grau de investimento. Com perdas estimadas em R$ 6,2 bilhões por corrupção, a companhia também teve perdas de mais de R$ 44 bilhões por desvalorização de ativos e deu o primeiro prejuízo anual desde os anos 1990. 


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