Petrobrás admite que crise pode afetar pré-sal

Em relatório enviado à SEC, agência reguladora americana, empresa levantou as dificuldades para cumprir obrigações

FERNANDA NUNES , MARIANA SALLOWICZ , O Estado de S.Paulo

18 Maio 2015 | 02h03

RIO - A Petrobrás reconheceu que as dificuldades financeiras atuais podem atrapalhar a continuidade do trabalho de exploração e produção no pré-sal. Em relatório enviado à agência reguladora do mercado financeiro dos Estados Unidos, a SEC, a petroleira listou os obstáculos que terá de enfrentar para cumprir as obrigações com as reservas que já tem no pré-sal e ainda com as que deverá adquirir no futuro.

A afirmação faz parte do trecho no qual a estatal elenca os riscos do seu negócio. Atualmente, a Petrobrás possui reservas de pré-sal em áreas de concessão - adquiridas em leilões da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) -, em cessões do governo e também participações em área dentro do modelo de partilha, que prevê investimento mínimo de 30% da estatal.

O formulário 20-F é obrigatório para todas as empresas de fora dos Estados Unidos que têm ações negociadas nas bolsas de valores de lá e deve ser entregue anualmente. As ações da Petrobrás são negociadas por meio de ADRs - título que representa as ações de empresas de fora dos EUA. A SEC criou o documento para padronizar as informações sobre as companhias estrangeiras.

Uma das determinações do documento é elencar "fatores de risco" para investidores. Nesse trecho, a petroleira admite que poderá ter dificuldade de assumir o compromisso de investir no pré-sal. Para vencer os desafios, segundo a estatal, será preciso levantar um volume significativo de capital, de diversas fontes de financiamento.

A empresa declarou também que a limitação financeira pode prejudicar sua capacidade de pagamento aos credores no prazo, já que o fluxo de caixa das operações é atualmente insuficiente para financiar o aumento de gastos de capital planejado e as obrigações da dívida.

Além disso, afirma que qualquer novo rebaixamento da classificação de crédito pode ter consequências negativas sobre a capacidade de obter financiamentos ou refletir nos seus custos. "Um novo rebaixamento do rating de crédito da companhia pode resultar em um mercado menos líquido", diz um trecho.

No documento enviado à SEC, a empresa ainda enumera outras dificuldades que poderão atrapalhar o andamento da atividade exploratória. Segundo a empresa, alguns custos são incertos e fogem ao controle por uma série de fatores, como a demanda internacional por equipamentos de perfuração, que elevam os preços de afretamento das sondas.

Além disso, diz a Petrobrás, a expectativa é de aumento dos lances que deverão ser feitos por companhias petroleiras nos leilões da ANP. Para aumentar as suas reservas e manter o patamar de produção, a companhia é obrigada a obter novas áreas exploratórias nas licitações da agência.

Daqui para frente, prevê, a expectativa é de um ambiente mais competitivo, que deve repercutir em lances mais elevados nos leilões.

A situação financeira, que já era uma preocupação de analistas e investidores antes mesmo de a Petrobrás ser envolvida em casos de corrupção pela operação da Lava Jato, deixa a companhia numa encruzilhada. Com dívida líquida de R$ 332,457 bilhões, a estatal é a mais endividada das grandes petroleiras.

Medidas. Sem poder tomar muito mais empréstimos para levantar recursos e diante da necessidade de arcar com pesados investimentos - sobretudo os obrigatórios do pré-sal -, a nova diretoria tem como objetivo fazer uma "limpeza financeira".

Foram anunciados um corte nos investimentos, que cairão para US$ 29 bilhões neste ano e US$ 25 bilhões em 2016, uma meta de vender US$ 13,7 bilhões em ativos nos dois anos e empréstimos pontuais - primeiro, US$ 3,5 bilhões com o Banco de Desenvolvimento da China, depois R$ 18,7 bilhões com Caixa, Banco do Brasil, Bradesco e o britânico Standard Chartered.

Sobre a política de preços dos combustíveis, a Petrobrás informou no documento que deve ter dificuldade de compensar as perdas registradas de 2010 a 2014, período em que praticou preços de gasolina e óleo diesel mais baixos do que os pagos na importação desses produtos. Em parte, a estatal foi obrigada a se endividar porque deixou de gerar caixa com a venda de combustíveis.

Desde o ano passado, a situação se inverteu e os preços internos estão superiores à cotação internacional. Esse cenário deve se estender por mais tempo para que a empresa consiga reverter a perda anterior.

"Baseado nas decisões do governo federal e acionistas, nós devemos continuar a ter períodos em que os preços dos nossos produtos não estarão em linha com os preços dos produtos internacionais", diz o relatório.

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