Mauro Pimentel/AFP - 17/06/2022
Sede da Petrobras; trocas na presidência da empresa é reflexo do modus operandi de Bolsonaro quando defrontado com algum limite do seu poder Mauro Pimentel/AFP - 17/06/2022

Petrobras é alvo de Bolsonaro para minimizar agenda negativa à reeleição; leia análise

'A estratégia de criar fatos políticos para se contrapor às condições objetivas não costumam render dividendos eleitorais', escreve Rafael Cortez, da Tendências Consultoria

Rafael Cortez*, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2022 | 19h02

As pesquisas de opinião pública, a despeito de variações na intenção de voto dos candidatos, apontam para um consenso: a maioria do eleitorado rejeita a atual administração. Uma parte dessa rejeição é derivada do quadro econômico que, grosso modo, toma forma quase que exclusivamente como repercussão do quadro inflacionário.

Assim, a tarefa de reeleição passa por interromper esse “sentimento natural” pela alternância de poder na disputa presidencial de 2022. Tal empreitada passa pelo choque com a gestão da Petrobras e sua política de preços dos combustíveis, movimento que paradoxalmente alimenta uma parte das causas da questão inflacionária por conta da desvalorização da moeda brasileira e pelo retorno do fantasma do voluntarismo econômico.

Os dilemas eleitorais não explicam sozinhos a pressão em torno da companhia. Na verdade, a sequência de trocas na presidência da empresa ao longo da atual administração parece ser reflexo do modus operandi do presidente Jair Bolsonaro quando defrontado com algum limite ao seu poder. Sempre que confrontado com algum obstáculo, o presidente recorre à pressão e/ou à mudança nas regras vigentes até conseguir ter seu objetivo alcançado.

O presidente, contudo, não tem o monopólio de pressão em torno da Petrobras. O presidente da Câmara, Arthur Lira, está na vanguarda desse conflito, mobilizando recursos retóricos e de agenda para constranger as decisões da organização. Tal movimento é natural diante do protagonismo da casa na formulação de temas da agenda econômica. Na verdade, o cálculo eleitoral de trazer a Petrobras para o debate político não respeita coloração partidária.

Tal agenda também encontra guarita da oposição, o que sugere que os dias da companhia podem ser turbulentos mesmo em cenário de alternância de poder no próximo ciclo eleitoral.

Os efeitos para a reeleição são, sob olhar generoso, incertos. A estratégia de criar fatos políticos para se contrapor às condições objetivas não costumam render dividendos eleitorais, ainda que ofereçam recheio às campanhas de marketing eleitoral. A polarização contra os governadores e com a turma do “fique em casa” não foram suficientes para reverter. A Petrobras é só mais um alvo na tentativa do presidente minimizar os danos da agenda negativa à sua reeleição. 

O impacto dessa estratégia na construção institucional e na credibilidade do Estado brasileiro, por sua vez, é mais garantido. A instrumentalização das instituições e organizações para fins da disputa política costuma estar associada à perda de dinamismo econômico e de qualidade do jogo democrático. 

O debate sobre políticas públicas é saudável e salutar para o aperfeiçoamento das regras do jogo. A análise da atual conjuntura sugere mais um episódio do clássico populismo econômico que tão mal fez à economia brasileira.

* Sócio da Tendências Consultoria, é Doutor em Ciência Política (USP)

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José Mauro Coelho se demite da presidência da Petrobras e abre espaço para Caio Paes de Andrade

Empresa nomeou o diretor de Exploração, Fernando Borges, como presidente interino; negociação de ações chegou a ser suspensa pela manhã

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2022 | 10h13
Atualizado 20 de junho de 2022 | 18h03

RIO - A Petrobras divulgou nesta segunda-feira, 20, que José Mauro Coelho pediu demissão da presidência da estatal e que o Conselho de Administração da empresa irá examinar a nomeação de um presidente interino. A renúncia abre espaço para que o novo presidente indicado pelo governo, Caio Paes de Andrade, do secretário de desburocratização do Ministério da Economia, assuma o cargo em breve.

A estatal também anunciou nesta manhã que o diretor de Exploração e Produção, Fernando Borges, ficará como presidente interino. Agora, o Conselho de Administração da empresa terá de se reunir para nomear Caio Paes de Andrade como membro do Conselho para que ele possa assumir a presidência e promover mudanças na diretoria, como quer o presidente Jair Bolsonaro.

Na última sexta-feira (17), o Bolsonaro reagiu ao anúncio de reajuste dos combustíveis da Petrobras e sugeriu a criação de uma CPI para investigar diretores da companhia e o conselho de administração. A medida tem apoio do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e será avaliada ainda nesta segunda em reunião de líderes.

Negociação de ações

As ações da Petrobras, que abriram em queda e cujas negociações foram suspensas duas vezes nesta manhã após mudança no comando da companhia, inverteram o sinal e passaram a subir 1,17% (ON) e 1,54% (PN) por volta das 14h08.

Em relação à mudança no comando, a corretora Ativa Investimentos avaliou que a nova gestão da Petrobras será mais conservadora na aplicação de reajustes de preços de derivados.

"Vale apontarmos ainda que, mesmo com os aumentos anunciados sexta-feira e aplicados no sábado para a gasolina e o diesel, o preço praticado pela petrolífera em suas refinarias ainda está abaixo do visto internacionalmente e deverá continuar apresentando relativo grau de defasagem durante a próxima gestão", disse a corretora, em nota.

A Ativa destaca porém, que a saída de Coelho pode abaixar a pressão extra-corporativa que vem se registrando sobre a companhia nas últimas semanas e tomou maior proporção na sexta-feira, quando propostas como a tributação de exportação de petróleo cru e a abertura de uma CPI foram aventadas.

"Reforçamos nosso entendimento quanto a atratividade do valuation atual da companhia mesmo diante da atual conjuntura e acreditamos que uma normalização do cenário deve amenizar as pressões sofridas pela ação da companhia nos últimos dias." 

 

 

 

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Mudança de presidente da Petrobras será inócua para controlar os preços; leia análise

Se o problema é o lucro da estatal, o que o governo deveria fazer era usar a parte que lhe cabe para subsidiar quem realmente precisa

Alexandre Calais*, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2022 | 11h14

A renúncia do presidente da Petrobras, José Mauro Coelho, abre espaço para a chegada do novo indicado pelo governo, Caio Paes de Andrade, atual secretário de Desburocratização do Ministério da Economia. Será o quarto comandante da estatal nos poucos mais de três anos do governo Jair Bolsonaro. E a única certeza que vem dessa troca é que os preços do combustível continuarão altos como estão. Será, mais uma vez, uma medida inócua.

Nunca é demais lembrar que o preço dos combustíveis está alto por conta da conjuntura internacional. O preço do petróleo em todo o mundo disparou com a demanda maior após o fim dos lockdowns provocados pela covid-19, e ganhou ainda mais fôlego com a guerra na Ucrânia. Os preços da Petrobrás estão atrelados ao mercado internacional, uma medida tomada em 2016 para blindar a empresa das ingerências do governo, que levaram a perdas bilionárias durante a gestão da ex-presidente Dilma Rousseff.

O que o governo tenta fazer agora é exatamente isso: influenciar nos preços da Petrobras, porque a alta dos combustíveis se tornou um problema às vésperas das eleições. Já houve pedidos recentes para que a estatal congelasse os preços por um longo período de tempo. Os argumentos são sempre os mesmos, os de que a companhia tem registrado lucros recordes e precisa dar sua contribuição em um momento em que a população sofre com os preços altos.

É inegável que a empresa tem tido lucros astronômicos. Mas era o que seria mesmo de se esperar em um momento em que os preços subiram de forma exorbitante. Se fosse o contrário, aí sim seria um grave problema. Mostraria uma empresas extremamente mal administrada.

E quem é o principal beneficiário desse lucro? Ora, o próprio governo, que é o maior acionista da estatal. Boa parte desses ganhos vai para os cofres da União. Desde o início da gestão Bolsonaro, em 2019, o governo já recebeu R$ 447 bilhões da estatal, entre impostos, royalties e dividendos.

Nesta segunda-feira, 20, a União recebe mais uma parcela, de R$ 8,8 bilhões, do lucro da estatal. Essa cifra faz parte de um total de R$ 32 bilhões apenas em dividendos que serão pagos até julho ao governo. 

Se o problema é o lucro da Petrobras, o que o governo deveria fazer é usar esses recursos, de alguma forma, para subsidiar os gastos dos mais pobres, ou de quem usa o combustível para trabalhar. Interferir na administração da empresa, tentar mudar a forma como a empresa é administrada, tentar segurar preços, não dará certo. A experiência já nos mostrou, inúmeras vezes, que, quando são usadas de forma meramente política, o caminho das estatais é apenas o buraco.

 

*Editor-coordenador de Economia

 

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Quem é Fernando Borges, presidente interino da Petrobras

Executivo trabalha há 38 anos na estatal e já defendeu a política de paridade de preços internacionais

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2022 | 17h59

RIO – Há quase 40 anos na Petrobras, Fernando Borges assume interinamente a presidência da estatal depois de ter chegado à diretoria pelas mãos do general Joaquim Silva e Luna, há um ano e três meses. O executivo já defendeu a liberdade de preços de mercado como a melhor estratégia para atrair investidores em refino no Brasil.

Borges assume o principal cargo da maior empresa da América Latina em um momento de tensão com o acionista controlador, a União, representada pelo presidente Jair Bolsonaro, que já deixou claro que não quer mais aumento no preço dos combustíveis.

“É um dos riscos que não está tornando fácil a Petrobras vender suas refinarias. Esse histórico de interferência no Brasil é longo e, quando se tem alternância de governo, pode ter um outro que acha que é a solução controlar preço”, disse Borges em entrevista à agência EPBR no ano passado.

Na definição de um advogado especializado em governança, Borges está sentado "no pior lugar do mundo" no momento, já que deve enfrentar as mesmas pressões dos presidentes anteriores para não mexer nos preços, o que pode custar caro ao executivo caso ceda e permita que a estatal tenha prejuízo para agradar Bolsonaro.

De acordo com advogados da área de governança, uma multa da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) em um eventual não cumprimento dos deveres fiduciários do cargo, ou seja, não zelar pela saúde financeira da empresa, pode trazer custos na casa de R$ 1 milhão, que não seriam ressarcidos pela Petrobras.

Mais velho entre os diretores da empresa, Borges é considerado também o mais cauteloso e preparado para assumir o cargo até que o governo consiga emplacar Caio Paes de Andrade, secretário de Desburocratização do Ministério da Economia e até o momento o nome indicado por Bolsonaro para tocar a Petrobras até as eleições presidenciais.

Formado em engenharia civil pela Universidade Federal de Uberlândia, Borges tem MBA executivo pela Coppead/UFRJ. Está há 38 anos na Petrobras e já trabalhou na Bolívia, como gerente de Exploração e Produção, mesmo cargo que vai acumular com a presidência.

De abril de 2016 a março de 2020, Borges exerceu a função de diretor no Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) e desde abril de 2016 exerce a função de diretor da Associação Brasileira de Empresas de Exploração e Produção de Petróleo e Gás (Abep), por indicação da Petrobras.

A posição de Borges lembra a de Ivan Monteiro, presidente da estatal que ficou interinamente no cargo após a saída de Pedro Parente, que pediu demissão em junho de 2018. Monteiro acumulava a presidência com a função de diretor Financeiro e de Relações com os Investidores. 

Com a troca de governo, Monteiro renunciou para que Castello Branco entrasse no Conselho e na presidência da companhia sem a necessidade de realização de assembleia, como pretende agora o governo, para acelerar a nomeação de Paes de Andrade.

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