Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Petrobrás congela diesel por 15 dias

Política de preço da petroleira foi o pivô da greve dos caminhoneiros em 2018; anúncio, no entanto, não pôs fim à articulação para nova greve; estatal não vai pagar mais PLR para os funcionários

Fernanda Nunes, Denise Luna e André Borges, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2019 | 09h42
Atualizado 26 de março de 2019 | 22h38

RIO E BRASÍLIA - A Petrobrás anunciou nesta terça-feira, 26, duas medidas favoráveis aos caminhoneiros, que devem influenciar o movimento de greve articulado nas redes sociais. A petroleira se comprometeu a congelar o preço do óleo diesel nas refinarias por pelo menos 15 dias e ainda lançar um “cartão caminhoneiro” para a compra do combustível a um valor fixo nos postos da BR Distribuidora.

A nova ferramenta deve funcionar como proteção contra a volatilidade de preços da estatal, que acompanha as oscilações do mercado externo. Apesar do anúncio, a articulação para a greve ainda permanece em alguns grupos do WhatsApp.

Por causa da política de preços dos combustíveis da Petrobrás, os caminhoneiros pararam o País, em maio do ano passado. Neste início de ano, com o petróleo em alta, o diesel voltou a ser uma ameaça e mais uma vez a classe avalia cruzar os braços.

O problema começou ainda na gestão do ex-presidente da companhia Pedro Parente que, para recompor o caixa, determinou a revisão diária da tabela nas refinarias, em linha com o mercado internacional. Sem saber o preço que pagaria pelo combustível no fim de uma viagem, os caminhoneiros entraram em greve e Parente perdeu o cargo. Além disso, para encerrar os protestos, o governo ainda subsidiou por um semestre. Apenas em 2019, o diesel voltou a ser reajustado periodicamente, semanalmente. Nesta terça, sob ameaça de nova greve, a Petrobrás anunciou que vai manter os preços inalterados por, pelo menos, mais uma semana.

Reportagem publicada no fim de semana pelo Estado mostrou que o governo tem monitorado as primeiras movimentações de caminhoneiros no País. O acompanhamento é feito pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e apontou o início de uma articulação por meio de mensagens de WhatsApp.

A pauta de reivindicações da classe tem três focos. O primeiro pedido diz respeito ao piso mínimo da tabela de frete. Os caminhoneiros reclamam que as empresas têm descumprido o pagamento do valor mínimo e cobram uma fiscalização mais ostensiva da ANTT. O segundo é o preço do óleo diesel. Os caminhoneiros querem que o governo estabeleça algum mecanismo para que o aumento dos combustíveis, que se baseia no dólar, seja feito só uma vez por mês, e não mais diariamente. O terceiro item diz respeito à construção de mais estruturas de paradas de descanso para os caminhoneiros, ao longo das estradas.

O anúncio de ontem da Petrobrás atende em parte as demandas, mas por isso não é por si só uma garantia de suspensão da greve. Mesmo no que se refere exclusivamente ao valor do combustível, representa um aceno parcial de que vai se ajustar às reivindicações. Em vez de um mês, a empresa garantiu 15 dias de congelamento, embora o preço possa permanecer inalterado indefinidamente.

Cartão

Além disso, a empresa sinalizou com um novo mecanismo de proteção às oscilações internacionais das commodities. Em até 90 dias, vai lançar, com a subsidiária BR Distribuidora, o cartão caminhoneiro, que vai permitir a compra do combustível a um preço fixo por um espaço de tempo ainda não definido. Os detalhes de como funcionará a ferramenta ainda estão sendo analisadas e vão ser anunciadas pela empresa.

Leonardo Gadotti, presidente-executivo da Plural, entidade que reúne distribuidoras do porte da BR, Raízen e Ipiranga, não vê problemas para a concorrência de mercado.

Segundo ele, desde que os ajustes de preço não sejam previamente anunciados e continuem tendo como parâmetro o mercado internacional, os investidores não serão contra esta iniciativa.

PLR

A diretoria da Petrobrás também anunciou aos empregados que não vai mais pagar participação no lucro (PLR) a partir de 2020. O benefício será incorporado a um novo programa de remuneração variável, que apenas será distribuído nos anos em que a empresa registrar lucro de pelo menos R$ 10 bilhões. As mudanças foram aprovadas pelo conselho de administração na semana passada e comunicadas aos funcionários via intranet, na última segunda-feira, 25.

“Alinhado ao Plano de Negócios e Gestão, o programa valorizará a meritocracia e trará flexibilidade para um cenário em que a empresa busca mais eficiência e alinhamento às melhores práticas de gestão”, traz o comunicado interno ao qual o Estado/Broadcast teve acesso.

Com essa medida, a empresa encerrou unilateralmente a negociação que mantinha com sindicatos, desde o ano passado. Num primeiro momento, ainda no governo de Michel Temer e presidência de Ivan Monteiro, a petroleira tentava condicionar o pagamento da PLR ao alcance de metas financeiras. A intenção era que, em anos de prejuízo ou quando o endividamento estivesse muito elevado, o benefício não fosse distribuído.

Até então, o PLR era calculado a partir de métricas operacionais. Se as metas das principais áreas fossem atingidas, os funcionários eram remunerados, independentemente do resultado financeiro alcançado no ano. O argumento dos sindicatos para defender esse modelo sempre foi que o pessoal de chão de fábrica não possui ingerência sobre questões financeiras e, por isso, não poderia ser penalizado por métricas que dizem respeito ao caixa .

O presidente da Federação Única dos Petroleiros (FUP), José Maria Rangel, afirmou que a entidade ainda avalia como se posicionará.

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