Ricardo Moraes/Reuters
Ricardo Moraes/Reuters

Petrobras anuncia reajuste de 8,9% no preço do diesel nas refinarias

Aumento no combustível é o primeiro em 85 dias; valor do litro da gasolina não teve alteração

Fernanda Nunes e Isadora Duarte, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2021 | 12h30
Atualizado 28 de setembro de 2021 | 20h48

RIO E SÃO PAULO - Menos de 24 horas após o presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmar que gostaria que os preços dos combustíveis caíssem, a Petrobras anunciou nesta terça-feira, 28, o reajuste de 8,9% do óleo diesel. A alta chega ao bolso do consumidor já nesta quarta-feira. Donos de postos avisaram que vão repassá-la imediatamente. No ano, o aumento acumulado do diesel chega a 51%.

"O problema é que, quando a Petrobras sobe o preço, o efeito é em cadeia. O ICMS é calculado por uma alíquota sobre o preço. Então, automaticamente, aumenta o imposto. A tendência é ter repasse na revenda porque a alta de preços da Petrobras gera efeito em cascata. Não tem jeito", afirmou Rodrigo Leão, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).

Caminhoneiros voltaram a ameaçar parar o País em uma greve da categoria. Em uma situação semelhante em fevereiro, Bolsonaro demitiu o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco. 

Paulo Miranda, presidente da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis), diz que os donos de postos não têm como assumir o prejuízo e, por isso, devem aumentar os preços já nesta quarta-feira.

O anúncio da alta no diesel foi feito no dia seguinte à convocação de uma coletiva de imprensa, às pressas, pela Petrobras, para que dissesse que não é a “vilã” dos altos preços dos combustíveis. Joaquim Silva e Luna, presidente da estatal, abriu a entrevista afirmando que não vai alterar a política de preços de reajustes, o PPI. "Continuamos trabalhando da mesma forma, acompanhando o mercado internacional e o câmbio", afirmou.

A fala do general contraria as intenções de Bolsonaro, que, na manhã desta terça, expressou ao ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, o desejo de "melhorar ou diminuir" os preços dos combustíveis. Silva e Luna tampouco agradou o presidente da Câmara, Arthur Lira, que, após o anúncio do reajuste, convocou uma reunião com líderes para quarta, 29, para discutir alternativas. Poucos dias antes, também o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, reclamou da pressão dos combustíveis sobre a inflação.

Entre os consumidores, a maior pressão vem dos caminhoneiros. "Estamos avisando que estamos no limite. O combustível está subindo sucessivamente. Precisamos tomar uma atitude mais enérgica", disse Wallace Landim, conhecido como "Chorão", presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava). "O presidente precisa parar de transferir a responsabilidade e fazer política", acrescentou. Além de analisar nova greve, os caminhoneiros pedem a atualização do piso mínimo do frete rodoviário.

Uma revisão do frete pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) gera efeito direto na economia, já que a maioria da logística brasileira é rodoviária. Esse é o grande prejuízo da alta do diesel na inflação. Como o diesel não é muito consumido em carros de passeio, sua variação de preço não tem muito peso no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), calculado pelo IBGE. O prejuízo é indireto, segundo André Braz, coordenador adjunto do Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Getúlio Vargas (FGV). O gás de cozinha, por exemplo, tende a ficar mais caro com a alta do diesel, porque boa parcela do custo do seu comércio é de transporte. O mesmo vale para os alimentos.

Ao anunciar a alta do diesel hoje, a Petrobras sinalizou que há espaço para novos reajustes. Em nota, a estatal afirmou que a revisão desta terça reflete apenas "parte da elevação dos patamares internacionais de preços de petróleo e da taxa de câmbio".

Concorrentes da estatal disseram que a estatal repassou apenas metade da defasagem do mercado internacional. De acordo com Sérgio Araújo, presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), para se alinhar de fato aos fornecedores externos, a Petrobras teria de reajustar o litro do diesel em R$ 0,50 e não em R$ 0,25.

Luciano Losekann, especialista em petróleo e professor do Instituto de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), diz, no entanto, que a Petrobras tem recorrido ao mercado futuro para oferecer preços melhores do que os negociados no mercado à vista. "Mecanismos de hedge (proteção a variações pontuais) permitem que a empresa pratique preços não alinhados (com o mercado externo) por alguns dias", diz.

Neste mês, o diesel de baixo teor de enxofre ficou 3,7% mais caro no mercado à vista do Golfo do México, enquanto o valor da gasolina caiu 1,6%, de acordo com a Administração de Informações de Energia dos Estados Unidos (EIA). Isso explica por que a Petrobras decidiu não mexer na gasolina agora. 

O anúncio do aumento afetou o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, que aprofundou a queda à medida que as ações da Petrobras, perderam força, depois de chegaram a subir mais de 2% mais cedo. O reajuste acontece ao mesmo tempo em que o petróleo sobe há seis sessões seguidas no exterior, beirando US$ 80 o barril. 

Nesta terça, o presidente da Câmara, Arthur Lira, anunciou reunião com líderes na quarta-feira, 29, para discutir alternativas sobre preço de combustíveis. A atitude de Lira gera desconforto entre investidores e agentes do mercado no sentido de indicar ingerência política na estatal. "O Lira está sendo o porta-voz direto do presidente Jair Bolsonaro. Está tentando encontrar alguma forma de segurar os preços dos combustíveis, e isso estressa os mercados", disse uma fonte. / COLABORARAM AUDRYN KAROLYNE E MARIA REGINA SILVA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.