Tiago Queiroz/Estadão
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Petrobras anuncia aumento de 24,9% no diesel e de 18,7% na gasolina em meio à disparada do petróleo

Gasolina nos postos de abastecimento deve subir para média de R$ 7,02 o litro no País, contra a média atual de R$ 6,57 por litro, segundo a Fecombustíveis

Denise Luna, O Estado de S.Paulo

10 de março de 2022 | 10h51
Atualizado 10 de março de 2022 | 20h44

RIO - Pressionada pela disparada na cotação do petróleo com a guerra na Ucrânia, a Petrobras anunciou ontem o maior reajuste nos preços dos combustíveis desde 2016. O cenário de risco de desabastecimento também pesou na decisão da estatal de elevar em 24,9% o óleo diesel e em 18,8% a gasolina vendida nas suas refinarias após quase dois meses de congelamento. Foi anunciado ainda um alta de 16% no preço do gás de cozinha.

O reajuste nas refinarias vai bater no bolso do brasileiro nos próximos dias. A Federação Nacional dos Postos de Combustíveis (Fecombustíveis), calcula que o preço médio do litro da gasolina vendido nos postos atinja o valor recorde de R$ 7,02. Hoje, em R$ 6,57. Já o diesel deve subir para R$ 6,48, frente aos R$ 5,6 atuais.

"Quanto mais caro o combustível, mais difícil é vender, o pessoal reclama, começa a deixar carro em casa, para economizar. Preço alto é ruim para todo mundo, mas o pior é faltar combustível", afirma o presidente da Fecombustíveis, Paulo Miranda Soares. 

A alta expressiva no diesel, gasolina e gás de cozinha levou a Fundação Getúlio Vargas (FGV) a revisar de 6,2% para 7,5% o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano. A projeção leva em conta apenas o impacto direto do aumento dos combustíveis no indicador. Mas, a expectativa é que outros itens tenham os preços afetados e também impulsionem a inflação. O melhor exemplo é o dos produtos agrícolas, transportados por caminhões, que utilizam o diesel como combustível.

“Mesmo que a guerra termine amanhã, os embargos contra a Rússia vão continuar. Isso vai mexer com a logística de distribuição de petróleo, no mundo, o que deve fazer com que a cotação permaneça num patamar elevado por mais tempo", afirma o economista André Braz, da FGV.

O reajuste da Petrobras é, na verdade, uma resposta à disparada do petróleo no mercado internacional, por conta da invasão da Ucrânia pela Rússia. Os dois países são grandes produtores da commodity e qualquer boato de cortes de suas ofertas é suficiente para fazer o petróleo disparar. Com o avanço da guerra e de boicotes à economia russa,  a cotação do óleo ganhou ainda mais força. Dependendo dos desdobramentos das tensões geopolíticas, o preço da commodity pode até atingir patamares recordes.

Essa alta internacional mexe também com o Brasil, porque a Petrobras, importadores e a Refinaria de Mataripe, instalada na Bahia, utilizam a cotação do petróleo do tipo Brent, negociado em Londres, para definir o valor dos seus produtos.

A Petrobras vinha sendo pressionada há muito tempo para reajustar os seus preços. Ao manter a gasolina e o diesel congelados por 57 dias, a empresa dificultou a importação. Isso porque ninguém queria trazer combustível mais caro de outros países para competir com o produto mais barato da petrolífera brasileira. A Acelen, operadora da refinaria privada de Mataripe, e os importadores foram os primeiros a reivindicar aumentos por parte da estatal.

Junto com eles, o mercado financeiro também reclama de uma possível ingerência política na companhia, considerando que o congelamento dos combustíveis funciona como uma ferramenta para o governo segurar a inflação. Além disso, quanto mais tempo a estatal levar para reajustar seus preços, menos lucro ela tem e menos dividendos ela paga aos seus acionistas, o que desagrada seus investidores. Em contrapartida, o presidente da República, Jair Bolsonaro, tem sido um defensor ferrenho do congelamento e crítico ao lucro da Petrobras decorrente da alta do petróleo.

Com o reajuste anunciado ontem, a Petrobras reduz, mas não zera a defasagem da gasolina frente ao preço internacional. Para isso, ela teria que aumentar os preços em cerca de 20%. A defasagem em relação ao cenário externo ainda está em 8%, no caso da gasolina, e em 9%, no do diesel, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

Entre as distribuidoras, está havendo uma corrida para se protegerem de possíveis desabastecimentos de combustíveis e ações legais. O Estadão/Broadcast apurou que, em seus planos emergenciais, Ipiranga, Raízen (da marca Shell) e Vibra (ex-BR) vão privilegiar o fornecimento a postos e empresas com os quais têm contratos de longo prazo. Serviços essenciais – como com hospitais e instituições de segurança – também serão uma prioridade. Ficarão expostos os postos de bandeira branca, que adquirem combustíveis de qualquer distribuidora e, por isso, não têm acordo de segurança de suprimento de combustíveis com nenhuma delas.

A Ipiranga comunicou aos seus clientes que vai analisar pedidos para o mesmo dia e de antecipação de compra. No documento enviado aos postos ela afirma que já colocou o plano emergencial em ação, ainda que o desabastecimento, hoje, não seja um fato concreto, mas ainda um risco.

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