Marcelo Sayão /EFE-19/11/2008
Marcelo Sayão /EFE-19/11/2008

Petrobrás capta R$ 120 bilhões, na maior oferta de ações da história

Operação inclui aporte do governo por meio de cessão de reservas de petróleo e investimento de R$ 50 bilhões por minoritários

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

A Petrobrás finalizou ontem sua megacapitalização, que atingiu pouco mais de R$ 120 bilhões (US$ 70 bilhões). É a maior operação do gênero na história, à frente da japonesa Nippon Telegraph (US$ 37 bilhões em 1987) e do Agricultural Bank of China (US$ 22,1 bilhões neste ano).

A estimativa é de que cerca de R$ 50 bilhões entrem no caixa da estatal como "dinheiro novo", já que o restante foi aportado pela União na chamada cessão onerosa (composta por 5 bilhões de barris de petróleo do pré-sal).

Na manhã de hoje, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participará de cerimônia na BM&FBovespa para celebrar a operação. Ontem, em Maringá, antes mesmo da divulgação oficial dos valores, ele já havia dito que a capitalização alcançara US$ 70 bilhões.

O Estado apurou que a demanda pelas ações superou em cerca de duas vezes a oferta. É um desempenho considerado positivo, levando-se em conta o tamanho da operação. No entanto, os fundos soberanos, principalmente da Ásia, tiveram interesse menor do que o estimado. Essa "fraqueza" teria sido compensada pelo apetite voraz dos investidores de varejo e do governo.

Apesar da demanda forte, o Conselho de Administração da estatal decidiu dar um desconto no preço das ações. Os papéis preferenciais (PN) saíram a R$ 26,30 (1,8% abaixo da cotação de ontem). Os ordinários (ON) foram cotados a R$ 29,65 (2% abaixo do valor de mercado).

Ontem, aliás, diferentemente do que se esperava, as ações da estatal tiveram expressiva valorização na Bovespa. As PNs subiram 4,12% e as ONs, 2,76%. Segundo analistas, é mais uma prova da demanda aquecida.

Um especialista explicou que, numa operação "normal", quando a oferta supera a demanda, a empresa não dá desconto. No caso da Petrobrás, no entanto, esperava-se o desconto para aumentar a possibilidade de valorização do papel hoje, quando Lula estiver na Bovespa.

Calcula-se que o governo usou todos os recursos da cessão onerosa, cerca de US$ 42,5 bilhões (de R$ 73 bilhões a R$ 74 bilhões). Com isso, o caixa da estatal será engordado em cerca de R$ 50 bilhões em dinheiro vivo.

É um valor acima da maioria das projeções feitas antes do processo. Segundo um analista, do ponto de vista do governo e da empresa, é uma boa notícia. Mas, para os acionistas que não subscreveram os papéis, é ruim, pois eles terão uma fatia menor da empresa e receberão menos dividendos daqui para a frente.

Gol de mão. Outra certeza que se tira da operação é o aumento da parcela do governo na Petrobrás. Antes da operação, União, BNDES e Caixa Econômica Federal tinham 39,8% das ações da empresa. Agora, essa fatia deve subir para cerca de 45%.

Segundo informações de mercado, o governo teve de apelar para um "gol de mão" aos 45 minutos do segundo tempo. Como tinha intenção de elevar a participação no capital da empresa, ordenou que fundos de pensão de estatais entrassem com força na operação entre a noite de quarta-feira e ontem. Até então, a União não havia aportado todos os recursos da cessão onerosa porque enfrentava limites legais.

A verificação de que a demanda superou a quantidade inicialmente oferecida aos investidores fará com que todos os lotes da operação sejam exercidos, segundo apurou a Agência Estado. Até quarta-feira, apesar da boa procura pelos papéis, ainda havia dúvidas sobre a possibilidade de colocação total da oferta.

Com o resultado da operação, a Petrobrás ganha fôlego para investir no pré-sal, melhora seus índices de endividamento e sobe no ranking das maiores petroleiras do mundo. Considerando o aumento de capital de US$ 70 bilhões, passa a ser a segunda em valor de mercado, atrás apenas da americana Exxon.

Ontem mesmo, a agência de classificação de risco Standard & Poor"s, uma das mais importantes do mundo, divulgou um comunicado reafirmando o rating (nota) da companhia brasileira. Segundo os analistas da S&P, "a melhora na estrutura de capital da Petrobrás após o programa de capitalização deverá atenuar a esperada deterioração em suas métricas de crédito".

Por isso, a agência decidiu manter o rating (BBB-). Havia o risco de a empresa perder o chamado grau de investimento, um degrau na escala de risco que significa baixíssima probabilidade de calote. / COM SÍLVIA ARAÚJO E AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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