Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

Petrobrás deve chegar a 2016 quase sem caixa

Se não tiver de fazer nenhum pagamento extra, empresa consegue pagar as contas em 2015, mas terá grande desafio no ano que vem

JOSETTE GOULART, O Estado de S.Paulo

01 Fevereiro 2015 | 02h05

Se tudo correr como o planejado pela Petrobrás, a empresa passará por este ano com caixa suficiente para fazer frente a tudo o que vai gastar. Não precisará de nenhuma injeção nova de capital. Tampouco seu fluxo de recursos será afetado pela reavaliação de ativos em função das investigações de corrupção. Mas, mesmo neste cenário, a trégua durará pouco: a empresa começará 2016 à míngua, sem recursos para bancar seus compromissos.

Os dados apresentados pela companhia na quinta-feira mostram que a empresa começou 2015 com um caixa de US$ 25 bilhões. Durante o ano, vendendo gasolina, diesel e todos os produtos da sua atividade, outros tantos bilhões devem entrar na companhia. Para fechar a conta, a empresa cortou parte dos investimentos de 2015. Assim, com todo o caixa que vai gerar, ela paga seus juros e dívidas, investe o que se comprometeu a investir (veja gráfico ao lado) e, no fim das contas, ainda sobram uns US$ 8 bilhões a US$ 12 bilhões, segundo dados da própria Petrobrás.

O problema é que o que vai sobrar para 2016 é menos da metade do caixa da empresa no início deste ano. Isso significa que, sem fazer drásticas reduções de gastos e de investimentos, a empresa dependerá dos bancos e dos investidores internacionais para fechar a conta do próximo ano. Ou então, terá de apelar para um aporte de capital do governo federal, o que significaria, na prática, uma reestatização da empresa. Uma fonte próxima à estatal diz que a Petrobrás precisa de pelo menos US$ 15 bilhões em caixa para manter suas atividades.

"Neste ano, a empresa não precisará de financiamento externo. Mas isso vai significar também que não terá nenhum colchão para 2016", resumiram em relatório os analistas do banco Credit Suisse.

A situação da Petrobrás poderia ser comparada à do setor elétrico, que no ano passado confiou que a chuva viria, enchendo reservatórios das hidrelétricas (o caixa do setor) e evitando assim um racionamento. No setor elétrico, a situação se complicou, pois a chuva não veio e o caixa do setor está nos menores níveis de todos os tempos.

Para a petrolífera, a situação de seca aguda pode se configurar se ela não conseguir publicar seu balanço auditado. Mas, mesmo que consiga honrar com esse compromisso, a tarefa da empresa é ainda manter suas notas de classificação de risco para que bancos e investidores financiem a empresa no próximo ano.

Antecipação. A sobrevivência da companhia neste ano está hoje diretamente relacionada à sua capacidade de publicar seu balanço anual, até junho, com o aval dos auditores externos, no caso a PriceWaterhouseCoopers. Sem esse aval, até a data estipulada, cerca de US$ 60 bilhões, segundo cálculos estimados pelo banco Morgan Stanley, poderão ser cobrados antecipadamente pelos credores da companhia. E aí caixa nenhum iria resistir. Para lembrar, a Price deixou de dar seu aval em função das investigações da Operação Lava Jato e exigiu que a companhia fizesse sua própria varredura para identificar o que precisa reconhecer de perdas ou superfaturamento. A empresa chegou a publicar suas informações do terceiro trimestre com dois meses de atraso para tentar fazer essa conta, mas não conseguiu colocar esses números na contabilidade.

A situação é tão urgente que, como destaca o banco UBS em seu relatório mais recente, a presidente da Petrobrás, Graça Foster, comprometeu-se em publicar os números de 2014 antes do prazo estimado nas cláusulas de seus empréstimos, nem que isso signifique fazer uma reavaliação de ativos "politicamente hostil". Ou seja, a diretoria será conservadora e está disposta a reconhecer, entre as diferentes opções de metodologia de cálculos, aquela que apontar o maior valor de reavaliação de ativos, independentemente se isso desagrade este ou aquele setor do governo, esta ou aquela vertente política.

Na semana passada, a empresa divulgou que cerca de R$ 88 bilhões de ativos da companhia estão superavaliados, mas que nem tudo está ligado à corrupção. Outros R$ 27 bilhões estariam subavaliados, dando um ajuste líquido de R$ 61 bilhões. Esses números foram obtidos em uma análise de 31% dos ativos da Petrobrás, que estão sob a mira da Lava Jato. O outro número que poderia ser usado é o de R$ 4 bilhões, referentes aos 3% mencionados pelos delatores como pagamento de propina.

Fio da navalha. Todo este cenário de caixa traçado pela Petrobrás pode ser afetado por inúmeras variáveis ao longo do ano. A empresa responde a processos judiciais promovidos por acionistas minoritários nos Estados Unidos que cobram indenizações pela deterioração do preço de suas ações, e não se sabe o custo que isso terá. Também terá de se acertar com as autoridades americanas, que enquadraram a empresa na lei anticorrupção, e multas pesadas podem estar no caminho da companhia. Advogados preveem que o caso Petrobrás será o mais caro da história. Até então, tinha sido o da Siemens, em que a empresa pagou multas de US$ 2 bilhões, além dos cerca de US$ 3 bilhões que gastou para fazer sua própria investigação.

No mercado internacional, o preço do petróleo tem ajudado o caixa da companhia, que ainda é grande importadora do combustível para poder fornecer gasolina e diesel. Se o preço fosse repassado ao consumidor, o custo da gasolina cairia e a Petrobrás teria menos receita. Mas de 2011 até o ano passado, a empresa também poderia ter repassado os altos custos do petróleo e não o fez, o que lhe tomou US$ 30 bilhões em caixa.

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