Alex Silva/Estadão
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Alexa Salomão /TEXTOS, Alex Silva/FOTOS, ENVIADOS ESPECIAIS A RECIFE

24 Maio 2015 | 03h00

Os relatos de empresários em Pernambuco, dos mais diversos setores, repetem a mesma história. Há mais de uma década, o pessoal da Petrobrás desembarcou por lá, anunciando o renascimento, em grande estilo, da cadeia de petróleo e gás no Brasil. O Nordeste seria um protagonista. O Porto de Suape, a 40 quilômetros da capital, Recife, receberia estaleiros, como o Atlântico Sul, e a refinaria Abreu e Lima, a primeira de uma sequência que ainda incluía a Premium I, no Maranhão, e a Premium II, no Ceará. Quem estivesse interessado em participar da nova fase, ingressando na cadeia de fornecedores, deveria se qualificar para todos esses negócios, pois a proximidade regional faria deles candidatos naturais para trabalhar na construção e, depois, no apoio aos serviços operacionais. A euforia foi grande – e o tombo após as denúncias da Lava Jato, no ano passado, maior ainda. 

A Abreu e Lima foi arrastada por denúncias de corrupção e sobrepreço. O Atlântico Sul, por sua vez, sem receber, rompeu um contrato bilionário com a Sete Brasil, empresa criada pela Petrobrás para gerenciar compras de sondas. O efeito dominó foi inevitável. “Quando a Lava Jato parou a Petrobrás, o impacto sobre nossas pequenas e médias empresas foi muito forte”, diz o secretário de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco, Tiago Norões. “Ao menos, a Abreu Lima foi construída, o que não vai ocorrer com as demais refinarias: entre mortos e feridos, só saímos feridos.”

Os ferimentos, porém, foram profundos. As empresas locais eram terceirizadas e até quarteirizadas da Petrobrás. Firmaram contratos com os consórcios formados por grandes construtoras, as mesmas investigadas por corrupção. Alusa, Engevix, Jaraguá são exemplos de empresas que tiveram e causaram problemas em Pernambuco. Sem receber das construtoras, as locais penaram. Locadoras de automóveis, de aluguéis de guincho, de material de segurança e de limpeza, empresas de alojamento, de guindastes, de alimentação, pousadas que hospedavam funcionários – tudo o que gravitava nas obras com a bandeira Petrobrás sentiu o tranco. 

Como os negócios são pequenos e pulverizados, ninguém conseguiu calcular o rombo. Quem participa de reuniões para desatar o nó criado, porém, estima que o estrago seja grande. “Não sabemos o total do prejuízo porque nós não conseguimos nos unir para chorar as mágoas juntos, mas se você olhar uma lista com participantes de uma reunião vai ver mais de 200 empresas – há todo um leque de terceirizados e quarteirizados sem receber”, diz Joselito Pereira da Silva, diretor executivo na TBS, empresa de fretamento de ônibus com sede na Paraíba que ainda tenta receber os R$ 5,5 milhões que lhe devem. “Por tudo que tenho ouvido nesses encontros, a conta deve passar de R$ 500 milhões.” Pereira lamenta que a crise que se vê na Petrobrás tenha arranhado qualidades da empresa antes inquestionáveis, como a gestão: “Enquanto todas as empresas de petróleo do mundo ganhavam dinheiro, a nossa conseguiu perder – o que é isso se não um problema sério de gestão?”, questiona. 

No setor de fretamento, além das dívidas, as empresas não sabem o que fazer com os ônibus comprados. Uma das maiores, a My Bus, tem cerca de R$ 12 milhões a receber e está com 120 carros parados no pátio por falta de contrato. “Em 10 anos de empresa, nunca vi uma coisa tão triste”, diz Samuel Sebastião da Silva, encarregado de manutenção da My Bus. Todos os dias, ele liga os ônibus e dá umas voltas para o motor não estragar.

Sem garantia. O mais traumático no processo foi ver a potência verde e amarela perder credibilidade. “Produzir para a Petrobrás não é mais garantia de recebimento: essa foi a grande mudança que ninguém esperava. O contrato hoje não vale: o consórcio não recebe dela, não nos paga, nós não pagamos alguém e esse alguém deixa de produzir, demite ou até fecha”, diz Glaidson Camacho coordenador da MKS. Pesa também o fato de a falta de credibilidade ter abalado também a relação com quem tem o dinheiro: os bancos. “Se você diz que é Petrobrás, coisas muitos simples, como o desconto de fatura, fica difícil”, diz Paulo Rebouças, um dos sócios da MKS. “Hoje a gente vê fornecedores nossos, de alimentação, gente pequenininha, que têm problemas para conseguir até capital giro.” 

A MKS, com sede na Bahia, produz sistema de tubulações com ligas sofisticadas. A unidade em Pernambuco atenderia a nova fase de expansão anunciada pela Petrobrás. O planejamento de longo prazo, porém foi para espaço. A MKS não recebeu tudo que lhe deviam e teve R$ 2 milhões de prejuízo no ano passado. Para evitar perdas maiores, aceitou até escambo. “Recebemos da OAS e da Odebrecht máquinas no lugar de pagamento – foi um bom negócio para os dois lados”, diz Rebouças. 

Nas lista dos prejudicados, os setores metal-mecânico e o de fretamento de ônibus são os mais organizados. O primeiro estima que precisa receber R$ 50 milhões, o segundo, por volta de R$ 35 milhões. Somando, são uns R$ 85 milhões. Os valores, considerados diminutos frente a potência financeira da maior estatal brasileira e das construtoras, irritam quem praticamente fechou as portas. “Menos da metade da propina de um simples gerente da Petrobrás resolveria os problemas financeiros de dois setores aqui em Pernambuco”, diz o empresário Eduardo Cunha, da Plain. Cunha se refere ao ex-gerente da Petrobrás, Pedro Barusco, que declarou ter acumulado em propinas cerca de US$ 70 milhões (R$ 210 milhões).

Cunha lembra quando, por volta de 2006, os representantes da Petrobrás começaram a chegar e fizeram um “chamamento” aos empresários locais. “Promoviam recepções. Falavam em números estratosféricos. Diziam que qualquer coisa que a gente pudesse imaginar seria maior ainda. Todo mundo saiu comprando equipamentos, investindo, ampliando”, lembra. Para dar uma dimensão do que veio a seguir, na época, o galpão de sua empresa tinha 2, 5 mil metros quadrados. Hoje tem 8 mil. 

Cunha entrou na Abreu e Lima ainda na terraplanagem. Atendeu os maiores consórcios. Os negócios iam bem até que os atrasos no pagamento começaram na virada de 2013 para 2014. “Foi quando a Petrobrás nos chamou, junto com o consórcio que eu prestava serviço, lá dentro da Abreu e Lima, o EBE-Alusa: fizeram uma reunião, não só comigo, mas com todos os fornecedores do consórcio, para pedir um apoio, que a gente não se preocupasse”, conta. O trabalho foi retomado, mas apenas dois pagamentos forram feitos, um em julho e outro em setembro. Quando chegou outubro, tudo parou. “Ninguém falou mais nada, ninguém deu satisfação, e o consórcio foi expulso da refinaria – expulso de verdade, o pessoal foi proibido de entrar.” Cunha só conseguiu uma posição depois do Carnaval de 2015. “A Petrobrás não pode comprar o material diretamente e fará um nova licitação: vou jogar tudo isso no lixo”, diz. 

Há 140 tonelada de estruturas empilhadas no pátio, numa área em que começava a fazer uma nova expansão. Quando foram produzidas, valiam R$ 13 o quilo. Uma parte, conseguiu vender como sucata a R$ 0,20 o quilo. A Plain tem a receber R$ 3,5 milhões – R$ 1,7 milhão de material entregue e R$ 1,8 milhão de encomendas. O rombo foi fatal. Dos 280 funcionários, restam 10. Procurada, a Petrobrás não respondeu até o fechamento desta edição.

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Pessoal qualificado pena com desemprego

Por 8 anos, houve um ciclo virtuoso de contratações no setor metal-mecânico, com expansão média anual de 10%; cortes começaram em 2014

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

24 Maio 2015 | 03h00

Há duas semanas, espalhou-se pelo WhatsApp, o aplicativo de mensagens por celular, que a empresa baiana ISI Engenharia estava recebendo currículos para preencher 12 mil vagas num contrato firmado com a Refinaria Abreu e Lima, no Porto de Suape, em Pernambuco. A empresa é especializada na construção e gerenciamento de plataformas marítimas e estruturas industriais, especialmente no setor de óleo e gás. 

O escritório de Recife, de fato, estava preenchendo vagas, mas eram apenas 180 e o processo já estava na fase final. A falsa mensagem, porém, provocou alvoroço. Levou uma multidão de desempregados para a porta da filial pernambucana. “Parecia um Rock in Rio de gente: eram milhares – milhares mesmo – de pais de famílias desesperados para entregar o currículo”, conta Elisângela Santos, funcionária do RH da ISI. Temendo que a aglomeração terminasse em tumulto, a polícia foi chamada para escoltar a saída dos funcionários. 

A inusitada cena ilustra bem a que ponto chegou o estado de ânimo dos trabalhadores do setor metal-mecânico em Pernambuco, um dos mais dedicados a acompanhar a expansão dos negócios de óleo e gás no Estado. 

Retração. Por oito anos, houve um ciclo virtuoso de contratações. O número de trabalhadores foi de 18 mil para 38 mil, crescimento médio anual de quase 10%. No ano passado, a tendência virou. O ano fechou com uma retração de quase 9%. Mais de 4 mil postos foram fechados. Desde outubro, 2 mil foram demitidos, pelas estimativas do Sindicato dos Metalúrgicos, 1,5 mil só no estaleiro Atlântico Sul. Mas não dá para saber ao certo. Nenhuma empresa divulga quantos demitiu e ainda tem trabalhando. 

Procurado, o Atlântico Sul, por meio de sua assessoria, informou que não divulga os números. A situação se complica porque além de sua crise particular, o setor sofre com a retração da economia brasileira e com o ajuste fiscal, que ceifou obras públicas. “Dilma esteve aqui e não me deixaram perguntar qual é o futuro do setor – não sabem a resposta”, diz Henrique Gomes, presidente do sindicato. 

No momento em que concedia a entrevista ao Estado, na manhã da última terça-feira, Gomes recebeu um telefonema confirmando a demissão de mais 150 empregados no estaleiro. Não conteve o desânimo ao desligar o celular. “Fomos eleitos para melhorar o trabalho no chão de fábrica, mas em oito meses a gente fica debruçado sobre essa situação: as pessoas que se qualificaram, a um custo muito alto, agora estão aí, sem trabalho, voltando para a carrocinha de cachorro-quente, para a coxinha”, disse Gomes. 

Numa sala a poucos metros ocorria parte das 28 rescisões agendadas para o dia. Todos eram ex-funcionários do estaleiro. Jeremias Batista, 50 anos, deixou para trás a vida de salário mínimo, na lavanderia de um hotel, para entrar num dos primeiros grupos treinados no Senai e no próprio estaleiro para trabalhar na construção de petroleiros. Quando foi demitido, recebia quase R$ 3 mil por mês, mas agora ajuda a esposa numa barraca de praia no balneário de Porto de Galinhas.

Ao seu lado, Maria Verônica Moreira Ramos, 37 anos, também aguardava a sua vez para fazer a rescisão. Ela também estava entre os primeiros contratados. Fez curso de soldador no Senai e bancou um curso técnico de mecânica. Orgulha-se do que aprendeu a fazer: “Tem um pouco do meu suor no João Cândido (primeiro petroleiro produzido pelo estaleiro)”. Não consegue outro emprego na área, mas quer insistir. “Vou procurando e vivendo com o que guardei até quando der – mas não vai dar por muito tempo”, diz.

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‘Metade da vizinhança não tem emprego'

Elton Domingues, 29 anos, mora no Residencial Estaleiro, em Ipojuca. As 600 casas foram construídas num projeto da Caixa Econômica Federal, numa iniciativa do Atlântico Sul para dar moradias aos funcionários. Até um mês atrás, ele era uma exceção entre os vizinhos de porta: tinha emprego. Foi quando recebeu a carta de demissão e passou para o lado da maioria. “Uns alugaram, mas 80% dos moradores receberam a casa do estaleiro e metade da vizinhança está desempregada”, diz ele. </p>

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24 Maio 2015 | 03h00

Quando foi selecionado para entrar na empresa, logo que o projeto começou em Pernambuco, Domingues não tinha nenhuma qualificação. Trabalhava num depósito de gás e recebia R$ 150 por mês. Quando foi demitido em abril, era encarregado de montagem de estruturas, havia participado da construção de todos os navios do estaleiro e recebia R$ 3,6 mil. Já mandou currículos, falou com amigos e não encontra nenhum emprego, muito menos com um salário próximo ao que recebia. 

“Vi muita gente boa ser mandada embora e a sensação é que sai mais gente do que anunciam”, lamenta. “Você já entrou lá?”pergunta. “Tem um galpão enorme que hoje está praticamente vazio – não sei onde vamos parar.”

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‘Dependo só de mim para correr atrás'

Jefferson José de Albuquerque dos Santos, 26 anos, é vizinho de muro de Domingues. Depois de duas passagens pelo estaleiro, que somaram cinco anos como soldador, foi demitido em fevereiro. Como percebeu a dificuldade da maioria para conseguir uma nova colocação, decidiu ter o seu próprio negócio. Abriu uma distribuidora de bebidas, ancorada em refrigerantes e água. Montou um pequeno estoque em um dos cômodos da casa. Passou a anunciar os produtos na calçada, sob um guarda sol e mandou imprimir um banner para expor os preços. </p>

O Estado de S. Paulo

24 Maio 2015 | 03h00

Santos seguiu alguns lemas para se encorajar: “A gente depende dos outros para ter emprego, mas depende da gente mesmo para correr atrás – eu corri”, diz. A decisão de se arriscar sozinho foi muito bem pensada. “Eu botei muito currículo, mas percebi que se eu fosse esperar demais, poderia perder o dinheiro da rescisão”, diz. Está aliviado pela escolha que fez: “Eu já tiro quase 80% do R$ 1,9 mil que ganhava e já penso que não seria má ideia ampliar.”

Santos também lembra de cabeça que a maioria da vizinhança amarga o desemprego. “Lá na entrada tem um que não consegue nada há um ano”, diz. “Eu tenho aqui o meu negócio.”

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‘Vivo de bicos: aceitei até um de pedreiro’

Cícero Sergio de Oliveira, de 50 anos, fala com entusiasmo da Metalúrgica Piratininga, empresa onde trabalhou por 10 anos e de onde foi demitido há um, numa das primeiras levas de cortes, quando a situação começou a se deteriorar no setor. “Certeza que ela vai se reerguer e voltar a ser o que era”, diz. </p>

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24 Maio 2015 | 03h00

No último ano, a situação só piorou para ambos. Sem condições de se manter após sucessivos atrasos de pagamentos de construtoras que atendiam a Petrobrás, a empresa, uma das mais tradicionais em Pernambuco, pediu recuperação judicial. Oliveira, que é ajustador mecânico (faz o acabamento nas peças), amarga o desemprego. “Faço bicos do que aparece: eletricista, mecânico, pintor. Aceitei até um de pedreiro, que é uma função que não entendo lá essas coisas”, diz. 

Incentivado por anúncios e por amigos, chegou a tentar uma vaga na nova fábrica da Fiat, mas se desencantou: “Eles querem gente nova, cheia de energia, que aceita ganhar pouco e tenha cursos na área, como o de mecatrônica, que não é a nossa especialização.” No momento, faz o primeiro trabalho temporário naquilo que conhece: ajuda na produção de estruturas para uma usina de açúcar e álcool. “Recebi essa oportunidade e aproveito.”

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‘Tive que ir para a maré tirar meu sustento'

Em dois meses, a vida de Genildo José Severino dos Santos, 37 anos, virou do avesso. Ele se orgulhava de ter feito carreira como pintor na Plain, fabricante de estruturas metálicas. Estava na empresa havia 18 anos. Ganhava R$ 5 mil por mês. Tinha esposa e dois filhos.</p>

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24 Maio 2015 | 03h00

“Tudo desmoronou de uma hora para outra”, diz. Santos perdeu o emprego. Se desentendeu com a mulher, que se mudou levando os filhos: “A situação já não andava muita boa e piorou com a minha demissão”, diz. Sem a menor perspectiva de conseguir trabalho, foi ganhar a vida “na maré”, como dizem em Pernambuco. Passou a viver da pesca de mariscos na praia de Mangue Seco.

“Tive de ir para a maré tirar o meu sustento, pôr comida na mesa”, diz. Na melhor das semanas, conseguia tirar uns R$ 150 reais. Mas chegou a ganhar apenas R$ 50. Para garantir o pagamento de R$ 540 da prestação de um Fiesta usado, e não perder o carro, recebe ajuda dos irmãos. “A vida é assim, pode ser cruel: você às vezes está por cima, às vezes por baixo.” O antigo patrão, ao saber da situação, lhe deu um bico, mas que só dura mais 15 dias – e ele pode voltar para a maré depois disso.

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