Petrobrás foi alvo de uma 'quadrilha', diz Delfim Netto

Ex-ministro diz que rebaixamento da nota e perda do grau de investimento da estatal é uma 'tragédia'

CARLA ARAÚJO, EDUARDO RODRIGUES, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2015 | 02h03

O ex-ministro e economista Antônio Delfim Netto afirmou ontem que os escândalos de corrupção envolvendo a Petrobrás são resultado de ação de uma "quadrilha". "As empreiteiras que estão sob esse tiroteio nasceram por um erro do governo, que reservou um mercado para elas", afirmou, ao participar de debate promovido pelo Insper, em São Paulo.

Segundo o ex-ministro, durante o processo de desenvolvimento do País, as empreiteiras receberam vantagens, se instalaram no Brasil e tornaram-se competitivas, "tanto que hoje estão competindo e ganhando obras lá fora". "Mas o que aconteceu no Brasil não tem nada a ver com isso que está acontecendo agora na Petrobrás. Foi uma quadrilha que se apropriou da Petrobrás e conseguiu mecanismos de transformar dívida pública em superávit", disse.

Para Delfim, o momento atual da crise na estatal mostra "da forma mais trágica possível" que, sem instituições adequadas, "é possível que um grupo se aproprie do poder e faça o que fez".

O ex-ministro, que participou em São Paulo de um debate promovido pelo Insper sobre o livro "Reinventando o Capitalismo de Estado - o Leviatã nos negócios: Brasil e outros países", de Aldo Musacchio e Sérgio Lazzarini, disse que o rebaixamento do rating da estatal "é uma tragédia". Mas disse também não crer que isso tenha impacto na nota de risco do Brasil.

Mesma opinião tem o vice-presidente do Insper, Marcos Lisboa, que também participou do debate. "São coisa independentes", disse, referindo-se às notas da Petrobrás e do Brasil.

Segundo Lisboa, a "degradação fiscal" que o País vem atravessando é um processo que já vinha acontecendo. "No caso do downgrade da Petrobrás é uma consequência de um problema grave na estatal (investigações de corrupção)", afirmou.

Samuel Pessôa, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que também participou do debate, disse que a perda de grau de investimento da estatal já era esperada. "Já o risco do País vai depender muito mais do ajuste que está sendo proposto por (Joaquim) Levy (ministro da Fazenda)", disse

Para Pessôa, a meta fiscal de 1,2% do PIB é "difícil" de ser alcançada. "Mas também acho que o mercado vai olhar menos a meta e mais a evolução do ajuste fiscal", afirmou.

Desafio extra. O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, admitiu ontem que o rebaixamento da nota da Petrobrás pela agência Moody's é um desafio adicional para o plano de investimentos da companhia. Segundo ele, a mudança também é um alerta para a economia do País, que, segundo ele, deve seguir a trajetória de ajuste fiscal.

"O rebaixamento da Petrobrás aconteceu dentro de um cenário que conhecemos, de apuração da (operação) Lava Jato. Sem dúvida, é uma dificuldade adicional para o plano de investimentos da Petrobrás, que necessitará de uma ação estratégica", avaliou.

De acordo com Braga, o governo, sobretudo os ministérios da Fazenda e de Minas e Energia, trabalharão para que a Petrobrás consiga levar adiante seus investimentos, mesmo diante da mudança de rating. "A nova divulgação de balanço da Petrobrás é um passo importante", acrescentou.

Para o ministro, o rebaixamento da Petrobrás é um alerta para que o governo continue trabalhando no sentido de promover o ajuste fiscal e evitar que a própria nota do País seja afetada. "A questão fiscal é prioritária e esse rebaixamento mostra o quanto é correto fazermos um ajuste fiscal. O realismo tarifário é correto e mostra a seriedade do governo", completou.

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