Petrobrás gastará R$ 480 milhões em publicidade

Em ano eleitoral, estatal vai ampliar verba para propaganda; tom ufanista já domina campanhas

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Para cumprir a determinação do governo de exaltar o sentimento nacionalista e a tendência estatizante, a Petrobrás redirecionou suas campanhas publicitárias para mensagens de cunho ufanista e patriótico, deixando em segundo plano a exposição dos seus produtos. O pré-sal, cujo marco regulatório foi lançado segunda-feira passada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, virou o carro-chefe da grande campanha iniciada pela estatal.

A Petrobrás recusa-se a dar detalhes sobre os valores pagos por sua publicidade - trata-se de uma questão de mercado, diz -, mas a Secretaria da Comunicação de Governo (Secom) informou que a verba global da estatal para este ano é de R$ 310 milhões, em contratos com quatro empresas: PPR Profissionais de Publicidade Reunidos Ltda, Master Publicidade, F/Nazca, Saatchi & Saatchi Publicidade Ltda e Heads Propaganda Ltda. Em 2010, ano eleitoral, o valor total para a propaganda e publicidade deverá ser elevado para R$ 480 milhões, de acordo com informações do mercado publicitário.

As agências já estão alvoroçadas com a notícia porque também no ano que vem vencem os contratos. Um dos blocos, hoje de R$ 250 milhões, terá o contrato encerrado em 29 de janeiro; o outro, de R$ 60 milhões, acabará em 18 de março.

A ideia passada por quatro peças publicitárias que estão no ar é que, com o pré-sal, a Petrobrás descobriu a riqueza do futuro para o povo da Nação que só despertou depois da posse de Lula. Isso tudo, num abismo de 7 mil metros, no Oceano Atlântico, num desafio tecnológico sem precedentes. Na propaganda, a Petrobrás diz que é hoje uma das empresas mais admiradas do mundo e a única a já retirar petróleo do pré-sal.

Ao mesmo tempo em que busca provocar em cada cidadão o sentimento de orgulho por ter nascido num País que, segundo a publicidade, já é autossuficiente em petróleo - embora ainda importe óleo leve, o Brasil consome por dia 2 milhões de barris e produz 2,5 milhões, de acordo com dados do Ministério de Minas e Energia -, a propaganda tenta passar para a sociedade a impressão de que a empresa está sendo vítima de injustiças. Principalmente por parte do Senado, que abriu uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar supostas irregularidades em contratos da estatal.

Isso fica claro no texto das peças publicitárias: "Que país não gostaria de ter uma empresa como esta? Quase tudo que ela produz, ela produz aqui. E é consumido aqui, por brasileiros. É aqui que ela cria tecnologia. É aqui no Brasil que ela investe em cultura, meio ambiente, cidadania. E por ter um compromisso assim, com o seu País, ela é uma das empresas mais admiradas do mundo. A Petrobrás fez história. E está fazendo o futuro."

Outra peça ressalta a grandiosidade da estatal: "Quando a gente olha para essa marca, a gente vê uma das empresas mais admiradas do planeta. Essa é a marca da única empresa de energia do mundo que já está produzindo petróleo no pré-sal. E isso deixa a gente com uma única certeza: se o nosso País tem muitos desafios pela frente, não vai faltar energia para vencer cada um deles. A Petrobrás fez história. E está fazendo o futuro."

Por fim, o cidadão é levado a pensar nas profundezas abissais, nos avanços tecnológicos antes tão distantes: "Imagine o mar, o fundo do mar. Depois do fundo do mar, embaixo de uma camada de sal, a Petrobrás descobriu uma quantidade gigantesca de petróleo. Foram muitos desafios até chegar lá. Agora, em pouco tempo, a produção de petróleo do Brasil vai dobrar. Vai gerar riquezas. No pré-sal não tem só petróleo. Tem um outro país. A Petrobrás fez história. E está fazendo o futuro". Cada peça tem 30 segundos.

Ao lançar o marco regulatório do pré-sal, no dia 31, o presidente Lula avisou que o assunto não era apenas para os iniciados. Nem tampouco um tema que deva ficar restrito ao Parlamento. Ao contrário, ele interessa a todos e depende de todos, disse Lula. E prosseguiu: "Por isso mesmo, quero convocar cada brasileiro e cada brasileira a participar desse grande debate", disse.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.